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Crônica

Caim e Abel no MMA

por Joanita Gontijo

Comemoro o fim do ano letivo tanto quanto festejo o retorno às aulas. Parece incoerente, mas explico: apesar de não estar matriculada no colégio dos meus filhos, sou convocada para ajudá-los em trabalhos de casa. Mesmo incentivando a independência deles, este ano passei o olho pela Teoria de Darwin e recordei o que é uma hipotenusa. Conclusão: eu também entro de férias e fico feliz ao receber meu boletim, ou melhor, o boletim deles e ver que fomos aprovados.

Com filhos de férias, eu me dou folga das funções de motorista, despertador e agenda ambulante. Sem aulas de inglês, de futebol nem de natação, as tarefas diárias caem pela metade ou mais. E ainda dá para fazer vista grossa no horário em que eles dormem, acordam ou tomam banho, sem sentir culpa.

E então comecemos a gozar as férias! Papai, mamãe e filhinhos têm a chance de ficar mais unidos quando não há os compromissos da escola nem do trabalho. O estresse do dia a dia dá lugar à harmonia em casa. Na minha vida real não é bem assim. Juntos 24 horas por dia, meus três filhos adolescentes estão bem longe de se parecerem com personagens de um comercial de margarina. Há muita diversão, mas também há conflitos.

O irmão que era legal das 6h às 11h da noite fica insuportável quando a convivência exige companheirismo também pela manhã, à tarde e à noite. Os espaços da casa diminuem, e a disputa pelo melhor lugar na cama da mãe, pelo direito de jogar videogame mais uma vez fica acirrada. O início do conflito é sempre culpa do outro. Descobrir quem "começou primeiro" é tão difícil quanto desvendar o mistério do ovo e da galinha.

O maior desafio de quem tem mais de um filho é quando somos chamados a fazer justiça nos conflitos. Minha sentença e meu castigo nunca agradam a todos e, algumas vezes, põem mais lenha na fogueira. A verdade é que nem Adão nem Eva, com a assessoria quase exclusiva de Deus, conseguiram fazer com que Caim e Abel se dessem bem. Então quem sou eu para achar que posso semear a paz eterna entre os meus filhotes?

Nessas férias, mudei de estratégia. Se o ringue está armado, vou agir como um juiz de lutas de MMA. Eles interferem o mínimo possível na batalha. Somente quando há golpes baixos é que eles separam os oponentes. Mas, educadores de plantão, lembrem-se: não apenas dedo no olho deve ser considerado falta. Qualquer atitude de desrespeito merece advertência.

O conflito entre irmãos pode ser considerado saudável, na opinião dos psicólogos, mas, para pais e mães, ver os rebentos brigando provoca sempre uma sensação de derrota. Não vai ser fácil, mas é preciso deixar que nossos filhos sintam raiva, frustração e ciúmes em casa. Só assim, o amor e a tolerância vão poder mostrar a eles que o melhor caminho é o da paz.


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