Cavalos

O MAIOR DOS OBSTÁCULOS

André Martins

Superar a aversão aos equinos é possível, desde que com força de vontade e autoconfiança – vencer o medo é algo que só depende de quem tem as rédeas nas mãos


Por muito tempo, Maria do Carmo Almeida Moreira viveu pressionada por um verdadeiro conflito. Quando pensava em cavalos, os sentimentos que tomavam conta da funcionária pública, de 45 anos, eram inconciliáveis. Tinha verdadeira fixação pelo animal e apesar de acreditar ser boa a sensação de andar a cavalo, a simples sugestão de que ela pudesse montar causava certo desconforto.

Em 2004, Maria do Carmo decidiu que o medo não a impediria de realizar um sonho.
Amigos e familiares, das mais sórdidas formas – “Fulano caiu e ficou assim, assado...”, diziam – tentavam a dissuadir do plano de se testar. Mas entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Ela se matriculou nas aulas de equitação do Cepel e foi testando limites, sob a orientação do professor Ramiro Rodrigues, um amigo e aliado importante no processo de encorajamento.

“Eu nunca tive convívio com bichos. Nem com cachorros. Aí, de repente, eu começo a estabelecer contato com um animal bem grande e forte. Isso é um pouco intimidador. A minha maior dificuldade era o enfrentamento com o cavalo, que pode não ser um animal tão previsível”, explica a amazona.

Hoje ela ri quando se lembra da primeira aula e da natural falta de destreza. “Quando cheguei ao Cepel, o cavalo já estava selado. Nunca havia estado tão perto de um. Me disseram que teria que o levar para a pista, então peguei a rédea e fui devagar. E o cavalo me olhando [risos]. Quando deparei com uma rampa, pedi ajuda, mas foi em vão. Eu tinha que fazer aquilo sozinha”, recorda.

No final das contas, conseguiu. Logo na aula experimental, passou a ter ideia da movimentação do animal, recebeu as instruções principais e montou pela primeira
vez. O passeio foi supervisionado de perto pelo professor, que ia conduzindo o cavalo
pelo cabresto.

Casos como o de Maria do Carmo não são raros. Muita gente tem medo de cavalo. Alguns chegam a desenvolver um quadro de pavor, é a chamada equinofobia ou hipofobia. O medo exagerado pode ser aparentemente injustificável, mas, na maioria dos casos, se relaciona a um trauma vivido em determinado momento da vida. Uma mordida, um coice, ou uma queda podem significar lembranças indesejáveis. Eventualmente, um dano não apenas físico, mas também psicológico.

Para o professor de equitação do Cepel, Thiago Cloves Modesto Ribeiro, o sentimento de medo pode surgir pelo fato de não se possuir total controle sobre as reações do
animal. “É importante que o aluno tenha consciên cia de que ele não está montado em uma bicicleta, que realiza o movimento exato de quem a conduz. Ele está montando
num cavalo. A partir da reação do cavaleiro ou amazona, em cima, pode-se desencadear uma reação contrária em baixo. Então é preciso um pouco de sentimento ao montar”, aclara Thiago.

Além da sensibilidade, é importante ter controle e saber qual a maneira mais adequada para reagir caso seja necessário. “A resposta tem de ser adequada, porque senão você piora a situação. Lidar com o cavalo é enfrentá-lo. Mas não é um enfrentamento de força, porque na força você não vai vencer”, opina Maria do Carmo.

Muitos cavalos são animais melindrosos, reparam muito. Não raramente estranham e se assustam. Ao montar, é necessário esperar de tudo, desde disparos a empinos. A
agitação do cavalo, que pode levar à queda, sempre foi a preocupação de Maria do Carmo. O maior receio continua ser machucar sério e não apenas se arranhar.

Quando o medo chega a neutralizar o indivíduo, existem formas de estimular o contato – desde a aproximação gradual do animal às técnicas utilizadas pelos professores de equitação. “Quando a pessoa tem muito medo, faço o animal se locomover em círculos com a ajuda de uma guia. Eu tenho metade do controle ali de baixo. Além disso, é preciso que, inicialmente, o aluno utilize um animal manso, depois ele monta um cavalo acostumado ao trote e, em seguida, exercita o galope e o salto. Não queimando nenhuma dessas etapas, o aluno passa a ter segurança”.

O maior segredo, entretanto, não está nas estratégias ou na técnica. O controle sempre está nas mãos de quem domina as rédeas. A partir do momento em que se adquire autoconfiança, deixar para trás velhos temores passa a ser uma tarefa não
tão penosa. “A pessoa só tem medo daquilo que ela não confia. Então, o medo pode surgir pelo fato de o cavaleiro ou amazona desconhecer o que o animal pode fazer a ele(a). Medo de cair, de empinar etc. Então, aprender a confiar, ter consciência do que o animal pode fazer e de como reagir são aspectos fundamentais para vencer o medo”, conclui.

Maria do Carmo é prova de que a autoconfiança pode ser um escudo. Ela confessa que ainda possui resquícios do medo, mas aos poucos esse sentimento perde domínio. A segurança hoje é tamanha, que ela já comprou o próprio cavalo, Virgulino, de 14 anos. Para quem pensava que nunca conseguiria sequer transpor uma rampa puxando um animal pelo cabresto, a possibilidade de transpor obstáculos de 70 centímetros montada é algo que impressiona até mesmo a ela. “Cada coisa que faço aqui é um ganho para mim. Na medida em que você se envolve, as coisas vão mudando se tornando mais fortes”, finaliza.
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