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Horizontes

Desafio nas alturas

por André Martins

Mont Blanc, Aconcágua, Everest,... as experiências do brasileiro acostumado a ver o mundo do topo (Foto: Trekking Everest 2015)

Em altitudes muito elevadas, sobreviver pode ser uma questão de sorte. No topo de muitas montanhas, há quem encontre um tipo de redenção ao atingir um objetivo. Mas há também quem se surpreenda com situações que podem custar a vida. Para conquistar as alturas, não basta se entregar à força impulsiva dos sonhos. É preciso estar pronto para enfrentar desafios extremos. As temperaturas podem ser inferiores aos 30 graus negativos. Tempestades de neve, deslizamentos, avalanches e o vento gelado que corta e queima são fenômenos corriqueiros nesses ambientes. Dependendo da montanha que se escala, alguns trechos de inclinações negativas impõem a necessidade de um condicionamento físico extremo. Não é preciso falar sobre o que uma expedição desse tipo representa para o psicológico de alguém...

Há 62 anos, o neozelandês Edmund Hillary e o xerpa-nepalês Tenzing Norgay entravam para a história da mais alta montanha do planeta Terra, o Everest. Dos registros de que se tem notícia, eles são os dois primeiros homens a atingir o topo do mundo. De lá para cá, várias outras expedições foram feitas para esse exótico cenário situado na fronteira entre a China e o Nepal. Em uma perspectiva histórica, o monte tem recebido um número crescente de aventureiros dispostos a dedicar dois meses necessários para chegar ao cume, há impressionantes 8.848 metros acima do nível do mar. A subida requer uma pacienciosa aclimatação. Os alpinistas sobem e descem trechos levando equipamentos, alimentos e se acostumando às temperaturas e à falta de oxigênio.

Natural de Ibitinga, Interior do estado de São Paulo, Rodrigo Raineri é um dos brasileiros que desafiaram grandes montanhas no mundo. Só no cume do Everest, ele já esteve em três ocasiões. É o brasileiro que mais atingiu o topo do monte, somando outras duas tentativas. Na primeira subida abortada, Rodrigo chegou a estar a poucos metros do topo. Desistiu devido às condições do tempo. Em uma montanha como o Everest, ele explica, "uma decisão equivocada ou irresponsável pode significar a morte". Para quem enfrenta a maior montanha do mundo, sempre há a sensação de que é ela quem dá as cartas e determina quem vai atingir ou não o objetivo máximo.

Rodrigo é formado em Engenharia pela Unicamp, mas nunca exerceu a profissão. Quando era estudante, ele teve as primeiras experiências de escalada. Subiu o Pico das Agulhas Negras, na divisa de Minas com o Rio de Janeiro, o Mont Blanc, nos alpes franceses, dentre outros montes. E foi assim, de expedição em expedição, que decidiu viver por meio do que as montanhas tinham a oferecer. Pouco depois de se formar, o engenheiro abriu uma empresa de aventuras, treinamentos comportamentais e palestras. Hoje Rodrigo fornece todo o auxílio técnico para quem quer ter uma "modesta" vista de cima de alguma montanha.

Atingir o topo do mundo é o sonho de qualquer alpinista. Mas escalar o mitificado Monte Everest não é para qualquer um, em nenhum dos sentidos - seja ele físico ou financeiro. Atualmente é preciso desembolsar no mínimo US$ 65 mil para tentar a sorte por lá. Sim, sorte. Porque nem sempre é possível chegar ao cume. Rodrigo explica que o acesso à montanha acabou flexibilizado ao longo dos anos. De um tempo para cá, é cobrada uma taxa para liberar o acesso. Antes era necessário aguardar por uma autorização que podia não ser concedida. O processo se simplificou e, por isso, mais pessoas estão indo em direção ao Everest - algo positivo devido à democratização, mas perigoso, dada a falta de orientação de muitos aventureiros.

De acordo com Rodrigo, é possível a qualquer pessoa escalar grandes montanhas, desde que seja feita uma preparação consolidada. "É necessário fazer cursos, escaladas em rocha, em gelo, escalar montanhas menores para almejar as maiores", revela. Disciplinar a cabeça e ter noções de limites também é imprescindível. "É preciso estar preparado para as privações e situações difíceis. Uma decisão errada pode custar a sua vida. Então você tem que começar devagar, aprendendo, fazendo bons cursos, entendendo o seu corpo, entendendo a natureza, o tamanho do desafio ao qual você se propôs. Você pode e deve sonhar alto, mas é um passo de cada vez", completa.

Dificuldades

Embora tenha toda uma magia e seja mitificado nos quatro cantos do mundo, o Everest não é o único monte que merece respeito. Nenhuma montanha impôs a Rodrigo tantas dificuldades quanto o mais alto pico das Américas, mais precisamente a temida face sul do monte Aconcágua, incrustado na Cordilheira dos Andes. "Em nível mundial, a escala por essa face é algo pouco feito. Nela há uma parede de três quilômetros, rochas podres, acontecem avalanches, é necessário fazer escaladas verticais, de angulações negativas,... é uma escalada muito comprometedora", conta o aventureiro que encarou o monte em pleno inverno.

Nesses muitos anos de experiência subindo montanhas, Rodrigo acumula histórias que o marcaram definitivamente. No livro "No teto do mundo", de autoria dele e de Diogo Schelp, o alpinista narra, com muitos detalhes, os cenários e sentimentos que o embalaram em algumas expedições. O livro é aberto com uma pequena carta escrita em dezembro de 2001 e destinada ao filho, Rodrigo, recém-nascido à época. "Para algumas pessoas, desafios são desafios e não importa quais sejam, elas têm de enfrentá-los: a vitória é o enfrentamento, quer saia ileso, quer não", escreveu em tom melancólico às vésperas de um dia decisivo no Monte Aconcágua.

Nenhum mau tempo nem uma jornada abortada, no entanto, foi maior que o mais duro golpe que Rodrigo sofreu praticando aquilo que mais lhe dá prazer. Em 19 de maio de 2006, ele perdeu o amigo Vitor Negrete após os dois terem atingido o topo do Everest sem o auxílio de cilindros de oxigênio. Vitor não resistiu ao frio extremo e às dificuldades para respirar na descida. Como havia manifestado o desejo em vida, Negrete foi enterrado na própria montanha por xerpas que auxiliaram os amigos na façanha.

Mesmo diante de tantos empecilhos, perigos e das restrições naturais nas alturas, atingir os topos e se desafiar em vias mais que dificultosas, mortais, continuam a fazer parte dos objetivos de vida de muita gente. O que sempre foi dúvida é a razão de homens e mulheres ansiarem pelas montanhas - esses majestosos monumentos de rocha e força magnetizante. Rodrigo titubeia quando é questionado sobre as próprias motivações. "Na verdade, não tem uma resposta. É mais a questão do descobrimento. Nas Grandes Navegações, o que impelia os homens a subirem em barcos e sumirem sem saber onde iam chegar? Por que o homem foi para a Lua? É a busca pelo desconhecido,... é a superação, essa curiosidade que o ser humano tem de conhecer coisas. Além disso, cada um tem a sua motivação interior; cada tomada de decisão é muito pessoal. Depende do momento", entende.

Com a bagagem e a experiência que tem, Rodrigo é conhecido por ser um dos mais técnicos alpinista brasileiros. Ele já perdeu a conta de quantos montes escalou, mas os grandes feitos permanecem vivos na memória. Mesmo tendo chegado onde poucos já estiveram, o alpinista se diz desafiado e projeta mais aventuras. "A gente é movido a desafios. Eu tenho a vontade de descer o Everest voando de parapente, como já fiz no Mont Blanc. Por duas vezes, fui lá para isso, e não deu certo... Enfim.. tenho vontade de um monte de coisas", conclui com uma curta gargalhada.


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