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Verbo

A Beagá dos autores

por André Martins

Com “Uma cidade se inventa”, jornalista Fabrício Marques tece o emaranhado afetivo que liga autores a Belo Horizonte (Foto: João Marcos Rosa)

Ela não tem mais que 117 anos. Comparada a capitais como Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, Belo Horizonte é uma jovem cidade. A despeito da "pouca" idade, a cidade tem muita história para contar. No quesito "arte", destaca-se a metrópole que, ao fim do século XIX, era o signo da modernidade no Brasil. Dança, música e literatura fazem parte do cotidiano belo-horizontino há tempos.

Desde o nascimento de "Belô", em 1897, a cidade aparecia na literatura, em crônicas do português Alfredo Camarate. Quem revela isso é o jornalista Fabrício Marques, autor de "Uma cidade se inventa", livro que conta a história de Beagá por meio da percepção de seus autores. "Decidi redigir esse livro ao observar que Belo Horizonte é uma cidade que tem uma ligação profunda com a literatura, mas não havia, até então, um livro que falasse sobre como os escritores viam a cidade", revela.

Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora e doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais, Fabrício, mineiro de Manhuaçu, decidiu vir para Belo Horizonte em 1992. Na capital mineira trabalhou em veículos de comunicação, como Suplemento Literário e Diário da Tarde. Atuou também como professor universitário no Uni-BH, na Fumec, no Izabela Hendrix, na Ufop, dentre outras instituições. Hoje é jornalista na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Como escritor, Fabrício lançou nove livros. Por "A fera incompletude", o jornalista recebeu uma indicação ao principal prêmio literário do país, o Jabuti.

Para redigir "Uma cidade se inventa", Fabrício pesquisou mais de 300 obras e entrevistou cerca de 80 autores. Da ideia até o lançamento do trabalho, em outubro, passaram-se mais de nove anos. O resultado do acurado processo de pesquisa é um livro que descortina a história da literatura em Belo Horizonte, lançando luz sobre a trajetória dos autores que aqui atuaram, as histórias que vivenciaram e os locais pelos quais transitaram ao longo de sete décadas. Além da diagramação atraente e que facilita a leitura, o livro conta com fotos do amigo de Fabrício, fotógrafo da National Geographic João Marcos Rosa.

Seu novo livro tem como matéria-prima algo imaterial e fugaz: a memória. Uma memória afetiva. Como foi a experiência?

A memória é também uma forma de ficção. Ela é traiçoeira e é uma construção. É como aquela música do Legião Urbana fala: ‘O futuro não é mais como era antigamente'. O passado também não é. Então o passado está sempre em construção, porque ele está sempre baseado na memória, e uma memória que é sempre falha. Esse livro é curioso porque ele se baseia em várias memórias. Quer dizer, eu entrevistei cerca de 80 escritores e especialistas e me baseei na memória deles para tentar fazer uma soma de várias memórias. Na verdade, também é uma memória parcial porque obviamente faltaram os escritores que eu não tive a oportunidade de entrevistar.

Trabalhar com a memória é sempre complexo, porque você tem que saber sempre que ela é parcial. Você precisa sempre de muitos pontos de vista, algo que se aprende no jornalismo. E o livro, eu faço questão de dizer, é baseado em uma pesquisa literária, mas é um livro-reportagem. Quer dizer: ele tem um fundamento jornalístico, de você ouvir várias fontes, de pesquisar em vários locais. Então nessa luta com a memória, eu usei de algumas estratégias jornalísticas para minimizar os danos, vamos dizer assim.

Como foi fazer essa costura de autores e locais pelos quais eles transitavam ao longo desses 70 anos? Há alguma história que tenha feito você pensar ‘Isso vai ser muito legal de contar!'?

Pensei muito na estrutura do livro. Se ficasse só falando dos lugares que são importantes para os escritores, o livro ia ficar chato. Especialmente para quem não mora aqui. E aí uma estratégia narrativa que eu pensei foi incluir histórias dos escritores. E há histórias fantásticas. Histórias que foram criadas, de ficção, e histórias reais. Em 2006, conversando com o José Bento de Sales, falecido há alguns anos, ele me contou que em 2004 encontrou com o Fernando Sabino andando sozinho na Praça da Liberdade e o perguntou o que ele estava fazendo. Aí o Sabino respondeu que estava refazendo o caminho da saudade, passeando naquela região que era muito importante para ele. Poucos meses depois o Sabino morreu. Essa é uma história cotidiana; não é uma história fantástica. Mas ela mostra essa relação do escritor com a geografia da cidade.

O livro traz histórias de autores conhecidos, como o Sabino, mas também de um Manoel Lobato, um cronista que publicou mais de 3 mil crônicas. Ele tem um livro de memórias chamado ‘Cartas na mesa', em que conta que uma vez se surpreendeu com o filho, que devia ter uns 10 anos de idade, saindo de casa, no bairro Sagrada Família. Aí, o Manoel falou assim: ‘Onde você vai, menino?'. E o filho respondeu: ‘Ah, eu tô indo ali fechar o portão para eu não fugir' (Risos). Essa história já é quase que uma crônica.

Um contador de histórias muito bom é o Humberto Werneck. Ele me contou que o Viaduto Santa Tereza foi utilizado como um rito de passagem. Carlos Drummond de Andrade e integrantes de outras gerações, como a do Fernando Sabino, escalaram os arcos do viaduto. O Humberto falou que, quando chegou a vez dele, ele não ‘teve peito'. Então tem a geração dos que subiram e a dos que não subiram. Hoje essa história de subir os arcos fica um pouco caricatural.

Tem um livro do Darcy Ribeiro que se chama ‘Migo', como se fosse ‘comigo', que se passa em Belo Horizonte. Há também um livro mais recente do Marcus Freitas, que é um professor da UFMG, que se chama ‘Peixe morto' e que trata de um crime que aconteceu lá na Lagoa da Pampulha. Então estou citando histórias que aconteceram com os escritores, como o Fernando Sabino, e histórias ficcionais que envolvem Beagá.

É importante também falar uma coisa: no meu livro é possível notar a ausência de autores importantes, como o Bartolomeu Campos de Queirós. O Bartolomeu é um autor importantíssimo, mas ele não está presente por não falar de Belo Horizonte na obra dele. O meu critério foi escolher autores que falam de Belo Horizonte.

Sobre esse rito de passagem, envolvendo o Drummond, tinha toda uma questão da transgressão, certo?

Sim, sim. O Otto Lara Resende falava que a Belo Horizonte dos anos 40 era uma cidade ‘lerda e acolhedora' (Risos). Uma cidade paradona, pacata. O capítulo que fala dos anos 40 se chama exatamente ‘No limite do sonho dourado' porque, a partir dos anos 50, a cidade começa a crescer muito e passa a perder esse aspecto mais de residência, de interior, de província. Ela não deixa de ter essas características, mas vai virando uma metrópole, uma cidade mais complexa e com mais problemas: especulação imobiliária, problemas sociais,... tudo isso vai crescendo em progressão geométrica.

Quais as peculiaridades que nunca deixaram de existir nesta cidade?

Eu penso que uma coisa comum em todo esse tempo é que Belo Horizonte, desde o seu nascimento, teve escritores. É diferente de outras cidades que desenvolveram a literatura depois. Mesmo antes de 1897, quando a cidade foi inaugurada, já havia um cronista português que se chamava Alfredo Camarate. Ele fazia crônicas sobre a construção de Beagá.

Toda cidade tem atrativos. E eu acho que o aspecto que esse livro tenta mostrar é o seguinte: tão importante quanto estudar a história da literatura e dos escritores, é estudar a geografia: a geografia territorial, a relação dos escritores com os locais em si e uma geografia das pessoas. Belo Horizonte sempre teve grupos que eram muito fortes artisticamente. Grupos sempre existem, mas nem sempre eles têm tanto poder individual. Às vezes, o grupo só fica forte com a soma de seus integrantes. E os grupos literários de Belo Horizonte tinham, e eventualmente têm, essa característica. Depois de Drummond e seus amigos, tem a geração dos chamados vintanistas, que é a geração que nasceu nos anos 20 - Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos -, depois a geração do Complemento, em seguida à do Suplemento Literário,... Em todas essas gerações, em maior ou menor grau, existia essa geografia de pessoas; essa paisagem humana muito forte.

Você mapeia os locais e pontos de encontro dos autores. Para você, quais são os locais mais importantes em Beagá?

Para mim, a redação do Suplemento Literário, na Imprensa Oficial, na avenida Augusto de Lima, tem um valor afetivo grande. É um local cuja história sempre me fascinou desde jovem e no qual eu tive a oportunidade de trabalhar em dois momentos. Outro local é a Pampulha, região onde moro há oito anos. Gosto muito de ir à Lagoa. E o terceiro local de que gosto muito é a Lagoinha, região histórica que revelou um dos maiores escritores do Brasil, o Wander Piroli. Trabalhei por 13 anos como professor no Uni-BH. Então é uma região especial. Claro que essa Lagoinha não é mais a mesma, porque em meados dos anos 80 a Praça Vaz de Melo foi destruída e houve a construção daquele complexo. Então é outra Lagoinha. Mas por ser a Lagoinha do Wander Piroli é importante pra mim. Gosto de fazer um passeio cotidiano e um passeio imaginativo por esses locais, pensando no que os escritores que por esses locais transitaram pensavam.

Você citou a descaracterização da Lagoinha. Acredita que Beagá seja uma cidade que preserva minimamente a memória?

A forma como eu fechei o livro faz uma crítica sobre isso. O último capítulo, ‘De Canudos a metrópole', começa justamente falando sobre a Casa Guimarães Rosa que está abandonada e foi vendida para a iniciativa privada. A gente não sabe o que vai acontecer com ela. O Guimarães Rosa é um dos escritores mais importantes da língua portuguesa. Ali poderia ser feito o museu Guimarães Rosa.

Eu nem abordei isso no livro, não usei a palavra turismo, mas eu acho que há um potencial turístico desses locais em Belo Horizonte. Poderia ser feito um roteiro literário para as pessoas que vêm de fora. Tem muita gente interessada nisso, em conhecer onde o Drummond gostava de passear, onde ele morou, onde o Guimarães Rosa morou, onde os autores se encontravam. Tudo bem: o Bar do Ponto, onde o Drummond se encontrava com o Pedro Nava, não existe mais. Hoje o local é o Othon Palace, na Afonso Pena com Bahia. Mas as pessoas precisam saber que ali eles se encontravam.

O poder público, tanto o municipal quanto o estadual, podia criar esse roteiro. Em Belo Horizonte existem essas histórias se encontrando. Na música, tem o Clube da Esquina; na dança, tem o Grupo Corpo, e o Klauss Vianna, citado no livro e pertencente à geração do Complemento. E tem toda essa riqueza da literatura. São vários diálogos acontecendo aqui ao mesmo tempo. E eu acho que isso está um pouco abandonado. Precisava ter um olhar mais profundo do poder público para manter essa riqueza, que é simbólica, mas é material. Há os lugares que devem ser preservados.

Muitos autores falam que não reconhecem mais Belo Horizonte. Exemplo do Humberto Werneck e Alberto Villas. A cidade perdeu o encanto?

Outro autor que fala sobre isso é o Silviano Santiago. Ele critica muito a cidade. Outros também criticam. O Ivan Ângelo, um dos meus entrevistados, disse que o meu livro aborda da fundação à afundação da cidade. Bem parecido com o Drummond quando fala que ‘Itabira é apenas um retrato na parede',.. e ele nunca mais voltou a Itabira. Em ‘O mundo acabou', o Alberto Villas trata de coisas que acabaram no mundo, não só em Belo Horizonte, mas ele fala do ponto de vista de Beagá. Entendo que os escritores que criticam amam a cidade e a querem bem.

Essa Belo Horizonte do passado não existe mais. Mas, evidentemente, a cidade, assim como as pessoas, envelhece. Agora ela pode escolher envelhecer com dignidade e saúde ou envelhecer desleixadamente. Se ela for cuidada e se cuidar, vai viver bem, bonita. Não precisa colocar botox. A cidade tem que ter as rugas; tem que ter as marcas do tempo, mas ela pode respirar bem e ser respirada.

O seu livro liquida essa história ou há coisas que, ao longo do processo, você viu potencialidade para desdobrar em outro projeto?

O meu livro avança até as novas gerações. Ele foi publicado em 2015 e fala de autores de 2015. Então a coisa está quente. Eu fiquei com medo, quando estava escrevendo, que quando passasse dos anos 80 ia diminuir a produção. No entanto, há uma produção e existe muita coisa boa. Hoje há muitos bons autores. Eles estão produzindo na cidade, falam sobre a cidade. Isso está no meu livro, mas é algo que poderia ser aprofundado: falar sobre essa produção, a relação dessa nova geração de escritores com a cidade,...

E o livro tem dois capítulos que falam de antes dos anos 40. No entanto, eu começo a pesquisa mesmo depois da década de 40. Então poderia haver ‘Uma cidade se inventa 2' falando sobre o início da cidade até aquele momento. Mas o livro ia ficar muito grande. Ele ficou com 350 páginas. Se eu fizesse isso, iria ter o dobro.


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