Buscar

Metropolis

Na onda verde

por Haydêe Sant'Ana

Escassez de água e de energia força indústria da construção civil a aliar potencial de reaproveitamento a economia em projetos sustentáveis (Foto: Divulgação)

Ao passear pelas grandes cidades, é possível se deparar com construções que mais se assemelham a obras de arte. Elas destoam da paisagem habitual dos centros urbanos. Com foco na sustentabilidade, design diferenciado, eficiência e qualidade, essas edificações se definem como exemplos da arquitetura sustentável. A arquitetura verde, como também é conhecida, busca diminuir os impactos ambientais e economizar os recursos naturais. Além disso, há uma preocupação com o uso de materiais que sejam certificados como ecologicamente corretos ou recicláveis.

Nos projetos sustentáveis, o uso da água e da energia é pensado para promover uma melhor utilização e economia. O arquiteto Alexandre Nagazawa destaca algumas das facetas desse novo momento da construção civil. "Preza-se pela utilização pelo reúso da água pluvial, muros verdes, espelhos d'água que melhoram a umidificação dos ambientes, vidros que protegem da insolação dos raios ultravioletas e que melhoram o desempenho técnico", destaca.

Em relação ao consumo de energia, a disponibilização das janelas conforme a orientação do sol e a direção do vento garante um ambiente iluminado e fresco durante o dia. Outra estratégia simples é o uso de vidros duplos que aproveitam a luz solar ao mesmo tempo que servem como excelentes isolantes térmicos.

O arquiteto Gustavo Penna, observa que as preocupações com a agenda ambiental entraram na pauta da construção civil recentemente. "Agora esse tema está mais recorrente porque é algo urgente. Se não tomarmos alguma atitude, frearmos um pouco essa ocupação caótica, vamos sofrer com a escassez dos recursos naturais, tão necessários à vida. É uma pena que só nos movemos quando somos obrigados", opina.

Os empreendimentos que seguem os padrões de sustentabilidade são avaliados pela Organização Green BuildingCouncil, nos Estados Unidos, responsável pelo selo internacional Leadership in Energy and Environmental Design (LEED). De acordo com a organização Green BuildingCouncil, o Brasil ocupa o terceiro lugar no ranking dos países com o maior número de empreendimentos certificados, perdendo apenas para os Estados Unidos e a China. Por aqui, há 248 prédios certificados e mais de 988 em processo de certificação.

BH mais sustentável

Na capital mineira, o primeiro edifício a receber a certificação LEED na categoria Gold foi a Fundação Forluminas de Seguridade Social (Forluz). Com 58 mil metros quadrados, 30 andares e capacidade para abrigar até 2,85 mil pessoas, o edifício se impõe como símbolo da arquitetura moderna no bairro Santo Agostinho.

Projetado pela Gustavo Penna Arquiteto e Associados e de autoria dos arquitetos Gustavo Penna e Alexandre Bragança, o prédio tem ventilação noturna para resfriamento da estrutura, controle automático de iluminação e sistema de aproveitamento da água da chuva. Essas técnicas garantem uma economia de 19% de energia e 40% de água. Além disso, o edifício conta um sistema de automação que controla o tráfego dos elevadores até o sistema de irrigação. "Criamos um edifício verde com a utilização de sistemas especiais para as esquadrias, vidros e brises-soleil, uso da água de chuva e do lençol freático, e o emprego de células fotovoltaicas para a cogeração de energia", explica Penna.

Para o arquiteto, mais do que um assunto em pauta, a sustentabilidade sempre foi algo intrínseco às próprias cidades. "As cidades são lugares onde o sistema viário não enfrenta a topografia, mas se molda a ela. A cidade é onde você pode caminhar com segurança e prazer, onde o trabalho fica perto da sua casa. São cidades misturadas, não cidades segregadas, onde se tem uma área especial para moradia, outra para escritórios, diferente do comércio e do lazer. A cidade é uma coisa viva", conclui.

Assim como a Forluz, o edifício Veredas Empresarial e o Jardim Casa Mall são destaques em sustentabilidade. O primeiro é um empreendimento comercial do grupo Engenharia e Planejamento e Obras (EPO), projetado pela Bloc Arquitetura e Empreendimentos. Localizado no bairro Estoril, em uma região próxima à Serra do Curral, a implantação da edificação seguiu as diretrizes para a preservação do bem natural e adotou estratégias para minimizar o impacto da edificação sobre o entorno.

Nagazawa explica como ocorreu a implantação do empreendimento. "Buscamos respeitar a paisagem, gerando impacto visual reduzido aliado a terraços jardins, à medida que o prédio vai se escalonando e acompanhando o perfil natural do terreno".

A estrutura do edifício se abre em visadas de 360°, o que possibilita um olhar diferenciado a quem está no exterior do prédio. Além disso, a abertura de uma imensa escadaria, um tipo de ‘praça vertical' que acompanha os patamares do terreno, forma áreas de lazer e de descanso.

Formado por três blocos, o Jardim Casa Mall, localizado no Bairro Jardim Canadá, em Nova Lima, é referência como um empreendimento comercial em estruturação. Planejado para abrigar lojas, objetos de decoração e de design, a arquitetura da construção formada por um conjunto de brises que cobre o edifício chama a atenção.

Utilizado para barrar os raios solares e melhorar o desempenho técnico da edificação, o uso dos brises conferiu um aspecto escultórico ao design do empreendimento, o que melhorou inclusive a percepção que as pessoas tinham do lugar. "É muito bom ver o poder que a arquitetura tem para conseguir mudar a percepção das pessoas de determinado local. As pessoas param, olham e acham bonito. Isso é muito gratificante", expõe Nagazawa.

Conciliar sustentabilidade com eficiência, design e beleza não é uma tarefa fácil. No entanto, a escolha do design do projeto passa pela questão da viabilidade, da sustentabilidade. Um design bonito por si só não se justifica. É preciso ter uma aplicação prática. "O design pela forma não é o legal, o correto. Obrigatoriamente um bom design passa pela viabilidade. Ele tem que ser capaz de sustentar a produção e ser bonito", define Nagazawa.

Da mesma forma que o design não se sustenta só pela beleza, o projeto de iluminação deve considerar a decoração e a distribuição do mobiliário e do adorno. Designer de interiores e fotógrafa, Priscila Prado explica que todos os detalhes são previamente pensados. "Existe todo um propósito por trás da iluminação, pensando em ajustar coisas distintas, iluminar uma parede com uma textura ou um quadro. Primeiramente pensamos no layout do local, o que vai ser inserido ou permanecer no local; alguma peça do cliente, às vezes", explica.

Na escolha da iluminação adequada para cada ambiente, a designer enfatiza a importância do uso da luz natural e analisa o uso recorrente do Light Emitter Diode LED (Diodo Emissor de Luz), que alia durabilidade e economia, segundo Priscila. "O LED é a melhor invenção, pois é uma lâmpada pequena, que ilumina muito e pode ser usada em todo tipo de ambiente. Ela tem todas as cores, é supereconômica e é dimerizável também. Em projetos na área urbana ou na rural há grande utilização, pois é uma energia eficiente e muito boa. Ela pode substituir todas as lâmpadas", conclui a designer de interiores.

Apesar de encarecer um pouco obra, a adoção das práticas sustentáveis garante benefícios em longo prazo, como a longevidade do imóvel e os menores custos de manutenção. "Hoje os empreendedores têm uma preocupação com o meio ambiente, o futuro e os recursos. Eles colocam isso como uma estratégia de venda, e todo mundo ganha. Ele ganha com a diferenciação do produto; nós, porque trabalhamos com uma questão que é do cerne da arquitetura, e o consumidor, porque recebe um benefício operacional, redução de custos, de condomínio, de luz, de água. São várias as questões que melhoram o desempenho", conclui Nagazawa.


Outras notícias

» Na ponta do dedo » O preço da inércia » Negócios do morro » Aberta a negociações » Entre a cruz e a espada
Vox Objetiva

© 2012 Vox Objetiva e seus colaboradores. Todos os direitos reservados.
É expressamente proibida a cópia ou reprodução do conteúdo do site sem autorização.

Lazuli Studio