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Estendendo a mão

por André Martins e Gisele Almeida

Milhões de pessoas deixam a Síria e enfrentam uma longa jornada em busca da sobrevivência. Distante da Suécia, imbatível no auxílio aos exilados na Europa, Belo Horizonte abriu as portas a uma centena de refugiados sírios desde o início dos confli

"Fui baleado nas manifestações, mas tive sorte: não acertaram o coração. A bala atravessou o meu peito e saiu do corpo". Para Khaled Al Khader, a cicatriz e a perda de familiares e de amigos são algumas das lembranças da Síria que ele deixou para trás. Ex-estudante de Direito, o jovem de 26 anos chegou à Suécia em 2012, tendo sido um dos primeiros beneficiados pela mudança na imigração sueca, que passou a autorizar a residência permanente no país aos refugiados sírios. "Meu maior medo era o de ter que voltar ao fim dos três anos, período que o governo sueco concedia asilo. E voltar não era uma opção! Não sei o que aconteceria comigo", comenta o jovem que foi militante nos protestos e decidiu deixar o país ainda no início dos conflitos, depois que o primo, um médico que atendia os feridos, foi brutalmente assassinado no hospital onde trabalhava.

Em outubro, o governo sueco voltou atrás e decidiu conceder a residência permanente apenas àqueles que comprovarem estar ativos no mercado de trabalho. A medida tem por objetivo conter o crescimento de pedidos de asilo ao país escandinavo e evitar a criação de um contingente dependente de auxílio público.

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam a Suécia, a Alemanha, os Estados Unidos, a Turquia e a Itália como os principais países receptores de refugiados sírios. Juntos eles têm recebido 60% dos novos pedidos de asilo. Na Europa, Suécia e Alemanha se destacam entre os países que concedem autorização de residência a quem foge da Síria. De acordo com o Migrationsverket (Departamento de Imigração Sueco), o país já recebeu mais de 75 mil pedidos de asilo nos últimos anos.

O relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) aponta que, levando em conta o tamanho da população, a Suécia é o país com o maior número de requerentes de asilo per capita. Foram, em média, 24,4 requerentes por mil habitantes ao longo dos últimos cinco anos.

O Primeiro-Ministro da Suécia, Stefan Lövfen, afirma que o país vai continuar aceitando refugiados, mas defende que os demais países da Europa também façam sua parte. "Caso contrário, pode ser necessário exigir uma indenização à União Europeia", disse Lövfen ao jornal sueco Expressen. "É hora de trazer essa discussão à tona, pois não podemos ter apenas alguns prestando solidariedade", completou.

Brasil

Por aqui, os refugiados sírios já são a maioria dentre as pessoas que deixam seus países por problemas políticos, sociais e até mesmo econômicos. Segundo dados do Ministério da Justiça, dos 8,53 mil refugiados que escolheram o Brasil como segundo lar, 2.097 são sírios. As instabilidades no país governado pelo presidente Bashar al-Assad contribuiu para que o número de refugiados por aqui mais do que dobrasse.

O governo brasileiro entende como urgente a situação dos sírios e está fazendo investimentos. Segundo o relatório ‘Tendências Globais', divulgado em 2014 pela Acnur, nos últimos cinco anos o Comitê Nacional para Refugiados (Conare) vem conseguindo dar celeridade às solicitações recebidas. Se em 2010 o comitê foi capaz de processar apenas 323 solicitações de permanência, em 2013, o número saltou para 6.067 pedidos concluídos e 1.585 encaminhados para o Conselho Nacional de Imigração (CNIg). Até setembro de 2014, 2.206 casos tinham sido analisados. Os dados não levam em consideração os pedidos de asilo de haitianos.

Sensível ao drama dos sírios que, amedrontados, têm deixado tudo para trás, o Conare estendeu o prazo para a concessão de visto especial para imigrantes sírios por mais dois anos. O processo tem se tornado cada vez mais simplificado, assim como acontece para a expedição de documentos de identidade civil e carteira de trabalho, fundamentais para a construção de uma vida longe da terra natal.

Mesmo com os esforços do governo brasileiro, a política de auxílio do país não é o que se pode chamar de exemplar. Sem um programa específico que atenda os refugiados em todas as necessidades, o governo encontrou no Bolsa Família uma alternativa para atender esse público. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social e de Combate à Fome, em julho, cerca de 400 imigrantes sírios foram cadastrados no programa. Não se sabe, no entanto, qual é o valor recebido por eles.

Recentemente uma linha de crédito de R$ 15 milhões foi aberta pelo governo brasileiro para ampliar o atendimento aos refugiados. Os recursos serão usados para aumentar a rede de abrigamento, assistência jurídica, social e psicológica, além de aulas de português, necessárias para a inserção dos refugiados no mercado de trabalho.

Fogo cruzado

Em março de 2011, adolescentes foram presos e torturados por escreverem citações revolucionárias no muro de uma escola na cidade de Deraa, no Sul da Síria. O episódio, ligado à chamada Primavera Árabe, gerou uma série de manifestações antiditadura que foram duramente reprimidas pelo governo. Desde então, cogita-se que o conflito tenha dizimado mais de 90 mil pessoas.

A Síria é governada por Bashar Al-Assad desde julho de 2000. Ele é o sucessor do pai, Hafez Al-Assad, que presidiu o país por 30 anos, período em que foi proibida a criação de partidos de oposição e a participação de qualquer candidato opositor em uma eleição.

Em 2013, a ONU classificou o conflito na Síria como guerra civil e denunciou casos de crimes de guerra cometidos pelo governo de Assad, incluindo uso de armas químicas. A presença de grupos extremistas do Estado Islâmico (EI), que já dominam enormes extensões no Norte e no Leste da Síria, agrava a situação.

Em setembro, a Rússia, aliada de Assad, iniciou ataques ao país justificando os atos como uma proteção contra o EI. A decisão gerou insatisfação por parte da Casa Branca e da União Europeia, uma vez que os aviões russos estão atingindo territórios não dominadas pelo EI.

Em visita à Suécia, em outubro, a presidente Dilma Rousseff criticou a atuação da Rússia na Síria. "Não vemos soluções adequadas com invasão e destruição de Estados Nacionais. Os conflitos têm que ser resolvidos de forma predominantemente diplomática. A intervenção russa é justificada pela luta contra o EI, mas eu não acredito em uma solução militar no conflito sírio", afirmou.

De acordo com Dilma, a solução para o conflito deve ser encontrada em uma discussão entre as principais potências. "Nós somos contra grupos terroristas, como o Estado Islâmico, e não acreditamos que apenas invadir e bombardear um país resolverá tudo. Não está resolvendo, como temos visto", afirmou.

A intervenção da Rússia fez aumentar o número de refugiados que se arriscam na jornada até a Europa. De acordo com dados da Acnur, mais de 420 mil pedidos de asilo foram registrados em países europeus desde 2011. A organização também afirma que os refugiados que chegaram recentemente não foram inscritos.

Mais de 11 milhões de pessoas foram obrigadas a se deslocar de suas casas, mas a maioria ainda permanece na Síria, em locais distantes das zonas de conflitos. Mais de 4 milhões fugiram para os países vizinhos e para o Norte da África. Mais de 1 milhão de sírios pediram asilo no Líbano, país onde se concentra o maior número de refugiados. Desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo não presencia uma onda migratória como a que tem acontecido.

Contraponto

Para o cônsul da Síria em Belo Horizonte, Emir Cadar, há vários aspectos que devem ser observados no conflito. Para ele, a motivação da guerra é religiosa, tendo em vista que é a minoria muçulmana, alauíta, que hoje governa o país. Ainda segundo o cônsul, a guerra teria sido "incrementada" pelos Estados Unidos. "Na verdade, os americanos ambicionam dominar o Oriente. Os Estados Unidos têm uma relação muito próxima a Israel, que depende deles. A Síria é um perigo constante para Israel porque, dentro do cenário político daquela região, a Síria é o país mais forte sob todos os aspectos. A economia e o exército eram muito fortes. E isso incomodava os EUA em função de Israel. Então eles incrementaram essa guerra para tirar o Bashar ", opina.

A intervenção da Rússia é um suporte, acredita Cadar. Ao combater o Estado Islâmico e os rebeldes, a Rússia teria proporcionado um "equilíbrio de forças". Na opinião do cônsul, a guerra civil, que dura cerca de quatro anos e meio, deve ter um desfecho em breve devido à constante tensão envolvendo Washington e Moscou em território sírio. "Acredito que os países que estão por trás desse conflito estejam pensando em uma forma de acabar com a guerra. Às vezes não termina em um mês ou dois meses, mas começa a ter uma luz no fim do túnel. Eu acho que tirar o Bashar não é a solução porque a Rússia não deixa ele sair agora. Eu acho que eles vão negociar a saída dele, fazer uma eleição para daqui a um ano, dois e eleger outra pessoa. Essa é a saída da guerra", finaliza o cônsul que teme que a queda do presidente leve a Síria a se tornar uma "terra de ninguém".

Esperança

Na estação central de Estocolmo, voluntários, membros da Cruz Vermelha e funcionários do Migrationsverket trabalham 24 horas por dia para receber aqueles que chegam ao país em busca de uma nova vida. No local, os refugiados recebem água, lanches, roupas de inverno e até mesmo brinquedos. Eles também recebem informações de como proceder no processo de legalização no país e ajuda médica, quando necessária.

Além do respaldo garantido pelo governo da Suécia, a solidariedade dos cidadãos tem sido componente importante no acolhimento das pessoas que pedem asilo no país. A Igreja de Santa Clara, localizada na região central de Estocolmo, é uma das instituições que abrigam refugiados temporariamente.

Todas as noites, cerca de 30 pessoas dormem no local. "Os refugiados chegam necessitados de comida, casa, roupas, mas o que eles mais precisam é de calor humano. Eles precisam de afeto e amor", comenta Per Svensson, aposentado que doa algumas das suas noites trabalhando como voluntário para dar assistência e apoio aos que se dirigem ao local.

A crise na Síria e o crescente aumento de refugiados na Suécia é assunto constante na mídia do país. Reuniões sobre o tema têm lugar em prefeituras como sinal do envolvimento da população em busca de resoluções que sejam viáveis para todos. Um dos grandes desafios para a Suécia no momento é a falta de moradia para abrigar os asilados.

Recepcionada pelos voluntários na estação central, a família de Amar, de 18 anos, sente-se aliviada. Ao lado dos pais, de um primo e da irmã, de 2 anos, ele fez um longa viagem. A família esteve em trânsito por mais de um mês até chegarem à sonhada Suécia. "Quando estávamos no mar, achávamos que não iríamos sobreviver. Estávamos preparados para o pior. É um milagre termos chegado todos bem", revela.

Eles sobreviveram a uma guerra e a uma viagem cheia de obstáculos. Agora apresentam o semblante da esperança. "Hoje começaremos todos juntos uma nova vida", comenta Amar, enquanto se aquece tomando café e sorrindo para a irmã que demonstrava encantamento com os brinquedos que acabara de receber.

Vida nova

Na capital mineira, a Arquidiocese de Belo Horizonte é a instituição que tem organizado a recepção aos sírios e dado condições para eles reestruturarem a vida por aqui. Desde 2011, cerca de 90 pessoas chegaram à cidade procurando apagar as memórias que a guerra deixou. Grande parte dos refugiados são jovens de 19 a 27 anos que interromperam as carreiras profissionais e deixaram as famílias em um país que se tornou um verdadeiro barril de pólvora.

A serviço da Igreja em Belo Horizonte há 12 anos, o padre sírio George Rateb Massis tem uma opinião contundente sobre a situação na Síria. "Eu acredito que o que está acontecendo na minha terra não seja obra dos sírios. Infelizmente o território está sendo emprestado para realizar um projeto manipulado internacionalmente. E quem está perdendo é a Síria. Já foi comprovado que mais de 80 nacionalidades estão guerreando no país, em nome de jihadistas, de grupos armados, de terroristas; pessoas agindo pela atividade, pelo resultado. Acho que as pessoas começam a perceber que o que está acontecendo lá seja muito mais do que está sendo propagado", acredita.

A ajuda oferecida pela Igreja em BH começou em 2011. Os dois primeiros refugiados que desembarcaram na capital mineira foram abrigados em uma casa paroquial, mas, com a vinda de outras pessoas, a instituição alugou um apartamento no qual os refugiados se abrigavam até adquirir tato com a realidade brasileira, com o português e até poderem viver por conta própria. Atualmente 16 imóveis são ocupados pelo grupo que cresce a cada dia. A Igreja dá um suporte financeiro sempre que necessário, além de orientar sobre a retirada de documentos, providenciar o contato dos estrangeiros com a língua portuguesa e buscar oportunidades profissionais para eles. A sociedade belo-horizontina também tem se envolvido como pode, ora doando roupas, alimentos, ora força de trabalho.

Quem tem empreendido viagem rumo a Belo Horizonte, a países da Europa e a outros cantos do mundo em busca de paz, muitas vezes, chega a seus destinos sem condições financeiras de reestruturar a vida de forma autônoma. Para essas pessoas, as privações de hoje em dia não lembram em nada a realidade vivenciada na Síria antes da guerra. O casal Nadeen Zakour e Alaa Kassab chegou a Belo Horizonte há seis meses. Professora de canto, Nadeen está desempregada. O marido, que é advogado, se ocupa como vigia na Igreja de São José. "Quando penso na Síria, lembro de meus amigos, minha família que ficou para trás. Gosto de pensar que um dia iremos voltar e retomar a nossa vida", comenta esperançosa Nadeen.

Flayeh Flatch desembarcou na capital mineira com o irmão em maio de 2014. Aos poucos, a dificuldade com a língua vai deixando de ser um problema. Em português, Flayeh conta que, graças à internet, mantém contato com a família diariamente. "Eles me dizem que a situação não está muito boa, mas a Síria vai ficar forte de novo. Quero voltar para o meu país", revela o tecnólogo em informática que hoje trabalha em uma padaria.

Padre George conta que apesar das dificuldades, os refugiados têm demonstrado gratidão à vida e pelas oportunidades que eles têm recebido em um país culturalmente estranho para a realidade síria. "A minha alegria no fim do dia é quando eles chegam com uma página de novas palavras para serem traduzidas, cheios de histórias e novidades. Isso tudo dá a eles alegria e os encaixa na sociedade. Eles estão trabalhando e ganhando pouco, mas por meio do trabalho dá para eles começarem uma vida. Isso também mostra a eles que a vida dá valor àqueles que lutam", finaliza o padre.


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