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Salutaris

Cedo demais

por Érica Fernandes

Derrame, pressão alta, trombose - males comuns na terceira idade, tornam-se dramas também para jovens e crianças (Foto: Felipe Pereira)

A festa com os amigos passava da meia-noite. Típicos das ‘baladas', drogas, bebidas alcoólicas e energéticos eram substâncias consumidas sem moderação pelos convidados. Na ocasião, o vendedor Tiago Jaime, de 26 anos, resolveu extravasar. Sozinho, ele consumiu uma garrafa de uísque, 20 latas de energético e várias garrafas de cerveja, além de outras bebidas alcoólicas. A combinação excessiva elevou os batimentos cardíacos a 140 por minuto, o dobro do que deveria.

Efeitos típicos da overdose de álcool, dores no peito e tonturas apareceram rapidamente. "Tive a sensação de que meu coração ia explodir. Chorei de dor. Imaginei que não fosse sobreviver. Foi a sensação mais intensa da minha vida", lembra. Ao perceber os sintomas, a esposa de Tiago não teve dúvidas de que o marido estava sofrendo um infarto. Tiago, então, foi levado às pressas para o hospital. Os médicos eram enfáticos ao dizer que, caso o atendimento não fosse feito às pressas, o jovem vendedor poderia não ter resistido.

Nos últimos anos, casos como o de Tiago, infarto antes dos 30 anos de idade, tornaram-se cada vez mais comuns. Em maio, dois jogadores belgas, Tim Nicot, de 23 anos, e Gregory Mertens, de 24 anos, infartaram durante uma partida de futebol. Os incidentes aconteceram com intervalo inferior a 15 dias. Gregory morreu. No Brasil, episódios similares fazem parte da história do esporte. O ex-zagueiro Serginho, do São Caetano, morreu uma hora depois de sofrer uma parada cardiorrespiratória durante o jogo contra o São Paulo, em 2004. Outros jogadores, como o goleiro Doni, do Botafogo, e o atacante Everton Costa, do Santos, penduraram as chuteiras prematuramente devido ao risco cardíaco.

O cardiologista e presidente do Comitê de Miocardiopatias da Sociedade Mineira de Cardiologia, Estêvão Lanna, afirma que nos últimos cinco anos, o índice de doenças do coração cresceu de forma vertiginosa entre o público jovem e infantil. "Só nas últimas três semanas, atendi a três pacientes com doenças cardiovasculares, sendo que o mais velho tinha 33 anos. Um deles veio a óbito", conta. Um dos motivos do aumento do número de casos entre a parcela jovem da população é o estilo de vida que as pessoas têm adotado.

Causas

Considerado ‘o mal do século', o estresse é apontado pelo cardiologista como um dos fatores preponderantes para as doenças do coração. Em um mundo extremamente competitivo, 24 horas não são o bastante para o número de tarefas que as pessoas se propõem a cumprir no dia. Além disso, o cenário econômico intensificou o sentimento de competitividade. "A crise, sem muitas perspectivas de solução, leva o jovem a fazer dezenas de cursos e especializações para não correr o risco de ser demitido. Além disso, ele tem o futebol, a namorada e os compromissos extras na agenda. Nessa direção, a saúde fica para trás", elucida. Toda essa agitação promove o aumento da pressão, a arritmia cardíaca e outros males.

A má alimentação vem na sequência dos vilões do coração. As comidas rápidas (fast foods), o excesso de sal presente nos alimentos e a gordura compõem a alimentação irregular da maioria dos brasileiros. "Todo jovem adora um churrasco no final de semana, que combinado à bebida alcoólica, formam uma bomba relógio para o coração. O excesso de sal colabora para a pressão alta, e a gordura, para o entupimento das artérias. Sem contar os malefícios do álcool", detalha.

A falta de exercício físico também é outro perigo. Breno Renato Gentil, de 29 anos, é um exemplo típico. Sedentário e avesso a vegetais e frutas no cardápio, o técnico de áudio tem histórico familiar de problemas cardíacos, tanto por parte de mãe quanto de pai. Relutante em alterar os hábitos, Breno sofreu um ataque cardíaco em janeiro deste ano. Após o incidente, e sob as advertências médicas, ele resolveu mudar drasticamente a rotina. Passou a se alimentar de forma mais saudável e a praticar natação periodicamente.

Os problemas de ordem cardíaca não surgem apenas com a ausência dos exercícios físicos. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia, uma em cada 500 pessoas tem anormalidade congênita. Para dar uma ideia, em Belo Horizonte, cerca de 6 mil pessoas têm a doença. No entanto, a maioria desconhece o problema. Nesse sentido, a prática intensa e incorreta de exercícios sem o acompanhamento profissional pode provocar a morte súbita nos doentes. As pesquisas mostram que a cardiomiopatia hipertrófica, doença congênita do miocárdio, é a maior causa de morte repentina de jovens.

Outro fator que preocupa os cardiologistas é o uso indiscriminado de anabolizantes. A substância acelera o metabolismo, podendo causar fibroses que impactam a irrigação no órgão. O corpo escultural passou a ser um tipo de fixação. "O indivíduo que frequenta a academia quer ter a mesma forma dos lutadores e de outros atletas. Como é praticamente impossível atingir aquele padrão, acabam recorrendo aos anabolizantes", esclarece Lanna.

Já nas mulheres adultas, são comuns a trombose venosa e a embolia pulmonar, atreladas ao uso do anticoncepcional. De acordo com Lanna, as estatísticas revelam que 3% a 5% das mulheres podem ter alterações genéticas relacionadas à coagulação, e algumas combinações de anticoncepcional levam a esses problemas, principalmente se combinadas ao tabagismo.

As drogas e a automedicação estão na lista de causadores de doenças cardiovasculares no público de faixa etária até 30 anos. No entanto, um dos maiores perigos é o desconhecimento das doenças. "Quem é jovem nunca acha que vai infartar. Por isso, quando os sintomas surgem, não tomam medidas necessárias para antever as sequelas", alerta o cardiologista.

Lanna orienta que quanto antes for identificado o quadro de infarto, maiores as chances de a pessoa não apresentar sequela. "Infarto é uma obstrução da circulação. Se a artéria fica entupida, tudo que está depois fica sem circulação. Quanto mais tardio o atendimento, mais regiões do corpo são afetadas", esmiúça o especialista.

Menores acima do peso

Embora jovens sejam precoces quanto às doenças cardíacas, eles não são únicos. Crianças e adolescentes têm sofrido o mesmo dilema. A transição nutricional que o país está vivendo, com queda nos casos de desnutrição e aumento nas taxas da obesidade, tem ocorrido também entre o público infantil, refletindo diretamente no aumento das doenças crônicas. "O câncer, o diabetes, as doenças cardiovasculares e respiratórias são exemplos de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) que podem ter como causa a obesidade", explica a nutricionista que atua como coordenadora Estadual de Alimentação e Nutrição do estado de Minas Gerais, Joyce Mara Xavier. As doenças citadas pela especialista são consideradas um grave problema de saúde pública, já que são responsáveis por 63% das mortes no mundo, segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS). A nutricionista alerta também para a obesidade manifestada na infância que, na maioria dos casos, é prolongada por toda a vida adulta, resultando numa série de malefícios.

Quem sai à frente como um dos principais responsáveis pelos altos índices de sobrepeso entre as crianças é a família. De acordo com Joyce, a ausência dos pais dentro de casa, provocada pela rotina de trabalho, tornou as crianças independentes, inclusive para as refeições. "A criança acaba ficando livre para escolher o próprio alimento e geralmente as opções não são nada saudáveis", esclarece.

A inserção da tecnologia no lazer, proporcionando a inatividade física e a má alimentação, também contribui para uma geração com problemas na balança. Dona de lanchonete, Daisylaine Neves sabe muito bem o que é isso. A filha Ana Júlia, com 5 anos, já enfrenta excesso de peso ocasionado pela alimentação desregrada. Para evitar que a criança tenha pressão alta antes da hora, os médicos pediram à Daisylaine que a dieta alimentar da filha seja alterada com urgência. "Ela passa muito tempo na frente da televisão e adora comer hambúrgueres. Também acho que ela se alimentava mais do que o normal por causa da ansiedade", relata. Seguindo orientações médicas, a mãe da menina acrescentou frutas e verduras no cardápio da filha, além de proibir idas à lanchonete da família.


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