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Vanguarda

Mais do que ideias, soluções

por Haydêe Sant'Ana

Invençőes mineiras tem aplicaçőes práticas para o dia a dia e podem ajudar a salvar vidas (Foto: Felipe Pereira)

Quando o assunto são invenções e novas tecnologias, EUA, Japão e alguns países europeus se destacam por suas memoráveis contribuições. A lâmpada elétrica, de Thomas Edison, o automóvel de motor a quatro tempos, de Siegfried Markus, e o primeiro computador desenvolvido há 65 anos pelos americanos John Eckert e John Mauchly estão entre as invenções que redefiniram a vida do homem na Terra.

Mas,... e as invenções brasileiras? Onde ficam nessa história? Para os brasileiros, invenção é sinônimo de polêmica desde a criação do avião. Ainda existem muitas dúvidas se o veículo teria sido criado pelos irmãos americanos Wright ou por Santos Dumont. De acordo com a Associação Nacional de Inventores (ANI), o mineiro foi o grande responsável pelo surgimento do avião. Foi Santos Dumont que projetou e construiu os primeiros balões dirigíveis com motor a gasolina, vindo a ser mundialmente conhecido pela conquista do Prêmio Deutsch, em 1901, quando contornou a Torre Eiffel com o dirigível n°6.

Bina, cartão telefônico, balão, discagem a cobrar, radiografia, urna eletrônica. Todas estas são coisas comumente usadas em nosso cotidiano. O que muita gente não sabe é que todas elas são criações legitimamente brasileiras. Além dessas, muitas inovações são desenvolvidas e testadas em faculdades, universidades, laboratórios e institutos de pesquisa. É uma pena que nem tudo que é produzido chega ao conhecimento público.

Para uma invenção se transformar em um produto de utilidade pública e ser comercializada, um longo processo se desenrola. Testes e experimentações são necessários para avaliação, aprimoramento e validação das qualidades da invenção. Depois disso, o registro do invento é fundamental para garantir ao autor a proteção e o direito exclusivo sobre a exploração dele. Existem duas formas de proteção às invenções: o modelo de utilidade e a patente.

Apesar das dificuldades enfrentadas pelos inventores autônomos, como a burocracia, a falta de incentivos e de recursos, segundo dados da ANI, 60% dos produtos nacionais idealizados foram desenvolvidos por pessoas sem ligação com empresas nem institutos de pesquisa. A ANI auxilia os inventores independentes que têm uma ideia a patentear e ofertar o projeto ao mercado objetivando venda ou licenciamento de tecnologia.

O presidente da ANI, Carlos Mazzei, explica que a associação tem a capacidade de assessorar os inventores. "Hoje temos uma grande estrutura. São mais de 50 pessoas que atuam direta e indiretamente auxiliando o inventor em todas as áreas", conta. O presidente revela também que a associação recebe muitas pessoas que não estão necessariamente ligadas aos institutos de pesquisa nem a universidades do país. "Atendemos muitos ‘inventores' que são pessoas comuns - gente como a gente -, que inventam algo a partir de uma necessidade. Atendo pedreiros autodidatas que inventam coisas maravilhosas, mesmo sem terem instrução", afirma.

Engenheiro civil sanitarista aposentado pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), Ciro Amaral é dono de mais de 20 patentes na área de construção civil - a maioria com enfoque em saneamento básico e soluções sustentáveis. Ele observa que uma das grandes dificuldades que os inventores enfrentam para conseguir a patente do produto são os custos. "Normalmente o inventor é um cara pobre. Ele não tem dinheiro para ficar custeando. Você tem que fazer um relatório bem-feito de acordo com as regras do Instituto Nacional de Pesquisas Industriais (INPI). Se você não sabe fazer o relatório nem entrar com o pedido da patente, você pode contratar uma firma para fazer o projeto e acompanhar o pedido, mas isso não sai por menos de R$ 5 mil, em média. Então é trabalhoso", desabafa.

O inventor revela como começou a trabalhar com a criatividade. "A minha primeira patente foi uma torneira de filtro com dupla finalidade. Eu observava as torneiras de geladeiras que você empurra o acionador e ela abre. Então eu pensei em criar uma torneira que tivesse a dupla finalidade: empurrar e girar", explica.

Em 1996, Ciro fundou uma empresa especializada na fabricação de artefatos em concreto pré-moldado e prestadora de consultoria na área hidrossanitária - para desenvolver as patentes dos próprios produtos. Um dos artefatos considerados carro-chefe da empresa é o separador de sólidos, água e óleo (SAO), utilizado em postos de gasolina, oficinas mecânicas, lava a jatos e estacionamentos.

Ciro explica que a eficiência da caixa se deve à criação de um dispositivo que retém micropartículas de óleo da água. "Separar o óleo puro da água é fácil. Qualquer caixa separa. Agora as micropartículas que são oriundas da lavagem de carro são muito difíceis de retirar. Então eu criei um dispositivo que retém as micropartículas no meu sistema. Além disso, ele atende às exigências dos órgãos ambientais, pois proporciona uma concentração de resíduos menor que a permitida por lei após o tratamento", explica. A quantidade prevista pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) é de 20 mg de óleo por litro de água. As análises nas caixas que têm o separador de sólidos, água e óleo da empresa registram índices entre 8 mg e 15 mg.

Outra peça desenvolvida pela empresa com aplicação prática é utilizada em vias públicas. Trata-se de anéis extensores que promovem a elevação dos tampões de rua. "Eu acho que é o meu principal invento, o que traz mais benefícios para o povo. Com os anéis, você alteia os tampões; com o recapeamento ele fica perfeito, sem nenhum desnível. Evita remendos e previne acidentes causados por tampas rebaixadas, soltas", argumenta. Esse tipo de procedimento vem sendo adotado nas vias públicas em vários trechos da capital, de cidades da Região Metropolitana, como Betim, e em alguns municípios do Interior.

Dos laboratórios para o mercado

Na faculdade de Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), um grupo de pesquisa formado por oito pessoas, entre alunos, professores, doutores e pós--doutores, criou um tipo de tijolinho capaz de combater as larvas do mosquito Aedes Aegypti, transmissor da dengue. Com baixa densidade, o tijolinho flutua na água. Ao ter contato com a radiação solar, o objeto impede o desenvolvimento da fase larvária do mosquito.

Coordenador do projeto, o químico Jadson Belchior relata que, antes de ser utilizado no projeto da dengue, o dispositivo era usado em uma pesquisa envolvendo o petróleo. "O tijolinho era utilizado num projeto do petróleo por ter uma densidade menor que a da água. Como a dengue é uma doença de origem larvária, forma-se o ovo, a larva eclode e sobe à superfície da água. Nós percebemos que se criássemos uma barreira na superfície, poderíamos dificultar a sobrevivência da larva", detalha.

Para que a larva surja, é necessário um ambiente com condições favoráveis, com água limpa, material orgânico e oxigênio. Tratado quimicamente para ser uma barreira tóxica para larva, o tijolo impede o desenvolvimento. "Nós desenvolvemos um material catalítico na superfície do tijolo que reage com a água na presença de luz e mata as larvas, criando assim uma região tóxica para elas. Embora seja tóxico para as larvas do mosquito, o material não faz mal à saúde humana, sendo, inclusive, possível ingerir um copo de água no qual flutue um tijolinho", garante Belchior.

Além de enfraquecer as larvas do Aedes Aegypti até matá-las, o tijolo serve para o combate a outras doenças também transmitidas por mosquitos, como a febre Zika, a febre Chikungunya, a febre amarela - essas duas transmitidas pelo mesmo mosquito. Com baixo custo de produção, aproximadamente R$ 4, e uma durabilidade em torno de cinco meses, segundo testes realizados em laboratório, o tijolo é um elemento eficaz e barato para ser produzido no nível de consumo pela população.

Outro produto desenvolvido pelo grupo de pesquisa do professor é uma manta flexível, de tecido sintético, que apresenta as mesmas propriedades químicas do tijolo. A vantagem da manta é que ela se adapta à superfície em que é colocada, adquirindo assim um novo formato. A manta é ideal para ser utilizada em calhas e superfícies maiores onde a utilização do tijolo é inviável. Toda a pesquisa foi financiada pela empresa mineira Vértica Serviços e Tecnologia Eireli, que detém os direitos de exploração do produto.

Mesmo com a relevância da pesquisa para a área de saúde, a tecnologia ainda não foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A dengue é uma das doenças que mais matam no Brasil e, no primeiro quadrimestre de 2015, registrou crescimento de casos de 234,2% em comparação com o mesmo período do ano passado. O Brasil tem um novo caso de dengue a cada cinco minutos, o que reflete um quadro de epidemia. A Região Sudeste é a que registra o maior número de casos, com 489.636 registros, sendo 575,3 para cada 100 mil habitantes. São Paulo é o estado com maior foco de ocorrência da doença. São 401.564 casos da doença - 911,9 para cada 100 mil habitantes.

Diante do quadro crítico, investimentos e a viabilização dos produtos como o tijolinho e a manta são urgentes e necessários para o uso popular. No entanto, falta interesse governamental em disponibilizar a tecnologia. "Não temos apoio. A metodologia está pronta, pode salvar vidas, mas o que não está colaborando é o lado burocrático, o poder público. Ninguém do governo, do Ministério da Saúde, entrou em contato com a gente ainda", revela Belchior.

Enquanto o governo não manifesta interesse em tornar a metodologia acessível para a população, a equipe do professor trabalha na terceira fase do projeto, que promete dar origem a mais duas patentes complementares ao processo. A previsão é de que fiquem prontas no início de 2016.


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