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Podium

O time do povo

por Thalvanes Guimarães

Torcedores rivais em Minas medem forças em nova disputa: qual é o time mais popular do estado? (Foto: Bruno Cantini)

Em 1894, o brasileiro Charles Miller voltava da Inglaterra com duas bolas, dois uniformes, uma agulha e uma bomba de ar na bagagem. Depois do sucesso com a bola dos pés na terra da rainha, Miller ficou decepcionado quando descobriu que no Brasil não se sabia ainda o que era futebol. Ele resolveu, então, catequizar os companheiros. Depois disso, haja história - e coração - para tanto grito de gol. O esporte inglês ganhou conotações brasileiras com Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, dentre tantos outros.

Em Minas Gerais, estudantes, em 1908, e imigrantes italianos, em 1921, criaram os times que se tornaram as duas maiores instituições esportivas do estado. Atlético e Cruzeiro começam, de fato, a se enfrentar como principais rivais a partir da década de 60, quando o Cruzeiro derrubou o melhor time do mundo, o Santos de Pelé, numa final histórica na Taça Brasil, em 1966.

Até então, o clube celeste não dividia o posto de protagonista com o Atlético. "Em 1959, quando fui jogar no Cruzeiro, o clube era a quinta força em Minas. Fomos tricampeões do estadual e tivemos um time fantástico em 1966, que deixou um nome muito bom. Assim o clube iniciou uma ascensão muito forte", explica Procópio Cardoso, ex-jogador e treinador, com 641 partidas pelo Galo e pela Raposa nas duas funções.

Com o acirramento da rivalidade entre os times, várias disputas foram surgindo: quem tem os melhores jogadores, os principais títulos, a maior torcida, a camisa mais bonita ou a melhor estrutura? Recentemente uma nova discussão ganhou as mídias sociais dos torcedores de ambos os clubes: qual é o time do povo em Minas?

A polêmica começou quando um áudio do aplicativo do Whatsapp do vice-presidente de futebol do Cruzeiro, Bruno Vicintin, vazou entre os torcedores. No material, ele dizia que o Atlético sempre foi o time da elite mineira, enquanto o Cruzeiro foi um clube formado por operários e imigrantes, e que, por isso, enaltece mais as origens do time celeste.

O vazamento do áudio foi o estopim para uma longa discussão entre os rivais sobre quem é o verdadeiro time do povo em Minas. Argumentos de torcedores de ambos times não faltam na discussão que permanece nas redes sociais, em blogs e sites. Embasados em números, experiências, histórias e emoções, diversos formadores de opinião apresentam os porquês de o time do povo ser Atlético ou Cruzeiro.

No futebol, no qual o torcedor vive praticamente num mundo paralelo, o espaço mais desejado dos estádios não é o dos camarotes, mas onde mais se canta, pula e vibra. A partir dessas peculiaridades, o professor e sociólogo Maurício Murad diz que a disputa pelo título de "time do povo" se dá pelo interesse em ter uma identidade coletiva que reforce a simbologia do futebol, que é o mais popular dos esportes. "A disputa por essa primazia e por essa representação na comunidade, esse reconhecimento social e cultural, é a grande competição que se joga fora das quatro linhas, especialmente em regiões onde a rivalidade é muito forte, como em Minas", afirma o especialista.

A parte alvinegra se sustenta pela força e mística da ‘massa'. A blogueira atleticana Elen Campos acredita que ambos os clubes tenham na história a participação de gente pobre e trabalhadora. Por outro lado, ela afirma que o Galo consolidou a expressão ‘massa' como sinônimo de torcida popular há décadas de forma espontânea, não por uso de hashtags. "Alguns times evocam mais esse sentimento social, de pertencimento de grupo, que outros. Em Minas, o Atlético soube construir espontaneamente essa narrativa de ‘força da massa'", afirma.

Elen destaca que houve uma época em que a torcida do Cruzeiro ridicularizava o Atlético por cobrar apenas R$ 5 da entrada no estádio. "O problema é que recentemente o Galo ganhou dois títulos importantes seguidos. E então, o grande trunfo cruzeirense (os títulos) caiu por terra. Se o Atlético agora é a soma de torcida massiva e títulos importantes, o Cruzeiro não pode se dar ao luxo de ficar com apenas a segunda parte. A rivalidade continua, com cada um buscando as forças e tentando diminuir as fraquezas", argumenta.

Para Elen, a torcida atleticana é vista, até pelos registros da imprensa, como a mais fanática e apaixonada. "O mesmo não se costuma notar nas imagens captadas da torcida azul, salvo exceções. Claro que estou generalizando, mas essa é a imagem geral que nós temos ao pensar nos típicos torcedores atleticanos e nos cruzeirenses", explica.

O historiador cruzeirense João Henrique Castro entende que a polêmica é pautada por impressões diferentes sobre a história do futebol e sobre a realidade dos clubes. "Pela perspectiva cruzeirense, é uma consequência natural da campanha que nomeia a loja Maior de Minas e do fato de 95% das pesquisas comprovarem que a maior torcida do estado é a do Cruzeiro. Pela ótica atleticana, tem um vínculo muito maior ao passado, quando até a década de 80 havia mais torcedores", pondera.

João argumenta que a discussão é infrutífera, já que a origem do futebol no Brasil está diretamente ligada às elites e que apenas com o decorrer do tempo o esporte se tornou realmente popular. No entanto, ele utiliza dados publicados no blog Teoria dos Jogos, referência sobre pesquisas de torcida, para traçar diferenças nos perfis das torcidas rivais. "Conforme vai se distanciando da pirâmide social, a torcida do Cruzeiro ganha em representatividade, enquanto a do Atlético tem percentuais mais expressivos no número de torcedores nas classes A e B", explica o historiador.

Para João, a discussão não tem tantos impactos reais. Ele observa que poucas pessoas entendem que por critérios socioeconômicos, o futebol veta a presença de parcela significativa da população nos estádios, em jogos do Cruzeiro e do Atlético. "Acho que falta mais engajamento para tornar o futebol um evento mais popular. Na Alemanha existe a obrigação de que os clubes reservem uma cota popular de ingressos. Se a discussão caminhar nesse sentido, aí, sim, teremos algum impacto na vida dos torcedores".

Em jogos decisivos, aumentam as dificuldades para que os torcedores de baixa renda possam ir aos estádios. Na final da Copa do Brasil, no ano passado, em que o Galo e a Raposa se enfrentaram, no primeiro jogo, o preço do ingresso foi de R$ 200 a RS 700, com venda exclusiva para sócios. No jogo no Mineirão, o preço dos ingressos chegou até R$ 1 mil, sendo que o mais barato custava R$ 140, mas apenas para torcedores associados.

Com a modernização das arenas e a necessidade de os times faturarem cada vez mais, e assim ganharem em competitividade, o povo fica apenas no discurso? Maurício Murad concorda que seja possível o risco de uma elitização ainda maior, mas que, pela força e representação simbólica do futebol, o esporte pode resistir às modernidades. "Como dizia o mineiríssimo Carlos Drummond de Andrade - que adorava futebol, era vascaíno e praticou o esporte jogando futebol de areia em Copacabana, ‘como ficou chato ser moderno, eu quero ser mesmo é eterno, e ser eterno é se abrir para as novidades sem perder as identidades'", relembra.


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