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Kultur

Rio, avant-garde

por Leo Pinheiro

Livro sobre o Rio nos anos 20 revela as inovaçőes que garantiram o ineditismo do povo carioca naquela época (Foto: Babélica Urbe)

Quando Ruy Castro foi convidado para fazer a orelha do livro ‘Babélica Urbe', que versa sobre o Rio de Janeiro dos anos 20, observou: "A cidade não precisou esperar aquela década para ser modernista". Antes do governador de São Paulo, Washington Luís, trazer artistas cariocas para a Semana de Arte Moderna em 1922, cronistas como Álvaro Moreyra, Théo-Filho, Ribeiro Couto já descreviam o Rio, àquela época capital do Brasil, como um lugar à frente do tempo. A arquiteta e pesquisadora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Jane Santucci, resgata, por meio do olhar desses cronistas, aspectos da cidade no primeiro grande momento de afirmação cultural e urbanística.

Foi, por exemplo, no dia 7 de setembro de 1922, durante a Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, inaugurada pelo Presidente Epitácio Pessoa, que a transmissão de rádio estreou no país. Simultaneamente foi testada pela primeira vez a iluminação elétrica em profusão num espaço público, no Centro do Rio. A iluminação elétrica tinha sido instalada antes. Primeiro nas residências e, em 1906, na Avenida Rio Branco. Mas era novidade, além dos postes, funcionarem os holofotes que varriam com luz as fachadas, as ruas, o céu e até as águas da baía. Como se dizia na época: "o Rio entrou na era da cidade-luz", explica a autora.

A data foi marcada por uma série de outros ineditismos. Nunca antes na história do país, tínhamos recebido tantos chefes de Estado e figuras proeminentes da política internacional. Vieram à Exposição Internacional os Presidentes de Portugal, da Argentina e do Uruguai; embaixadores dos Estados Unidos, da Inglaterra, da França, da Itália, da Espanha, da Alemanha, da Noruega, do México, do Chile, do Peru, da China e do Japão; jornalistas de todo o mundo e milhares de marinheiros dos navios estrangeiros ancorados no Cais do Porto.

Em 1920, a visita do Rei Alberto da Bélgica e de sua comitiva gerou polêmica entre os cariocas. As críticas às ‘obras de maquiagem' promovidas por políticos para esconder as mazelas da cidade e ressaltar apenas as qualidades, deu origem ao ditado popular "obras para o Rei ver".

Para a escritora, episódios como esse mostram que os nascimentos da classe média e de uma ‘elite intelectual' em oposição às oligarquias que dominavam a chamada República Velha influenciaria de forma definitiva o contexto cultural da cidade assim como o resto do país. "Seja na cultura, no urbanismo, na moda, seja nos costumes, ao olharmos o Rio de Janeiro dos anos 20 estamos diante de uma metrópole. Não só em seu sentido conceitual, mas como a capital do país com ruas e avenidas onde circulavam milhares de automóveis e várias linhas de bonde, um centro comercial e financeiro com bancos e companhias de navegação, hotéis internacionais, cinemas, teatros, cassinos, e vários jornais diários. A urbe não devia nada às imagens cosmopolitas de qualquer lugar do mundo. É uma verdadeira babélica urbe", descreve Jane.

"Estávamos a par de tudo que acontecia em Nova Iorque e Paris! Cada vapor que atracava no porto trazia na bagagem as últimas fitas de Hollywood, discos de jazz, fonógrafos, modas e revistas ilustradas. A avenida Rio Branco completava duas décadas. Com a maioridade, perdia os ares provincianos e ganhava os primeiros arranha-céus, despertando a curiosidade de cariocas e turistas brasileiros, fascinados com a arquitetura, os bondes, as luzes elétricas e os automóveis", completa.

Centro da cidade e Praça Mauá

A pesquisadora destaca que todas essas novidades fizeram crescer a intimidade do carioca com o Centro da cidade fora do horário comercial, despertando a vocação democrática que o Rio de Janeiro tem até os dias atuais. A região fervia nos finais de semana, quando reunia nas ruas pessoas de toda parte em busca de diversão - que havia para todos os gostos e bolsos. À noite, o movimento prosseguia com um público ávido por diversões que lotava os cinemas da avenida, os bares da Galeria Cruzeiro e se estendia para os teatros e cabarés da Praça Tiradentes e Lapa.

Um dos símbolos daquele novo Rio antigo era a Praça Mauá. Criada em 1910 para abrir os braços aos viajantes que desembarcavam na cidade, o velho ancoradouro foi reformado e recebeu status de porto. E foi nos anos 20 que o local exerceu maior sedução sobre cariocas e turistas. "A Praça lotava não só de pessoas que iam se despedir ou receber parentes e amigos, mas daqueles que iam para ver de perto as celebridades que chegavam ao, até então, maior porto do país", conta a escritora.

Em 1929, o lugar abriu espaço para mais um ícone da modernidade: o prédio do Jornal A Noite. Com 22 andares debruçados sobre a Baía de Guanabara, o edifício foi o primeiro arranha-céu da América Latina. Para erguê-lo, os construtores usaram uma tecnologia inédita na época: o concreto armado.

Tombado desde 2013 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o prédio, com 102 metros de altura, destacou-se numa época em que as construções na avenida Central chegavam a no máximo oito pavimentos. Do alto do terraço, os visitantes contemplavam de um mirante um ângulo amplo e diferenciado da então despoluída Baía de Guanabara.

Um fenômeno dessa época foi a explosão de cartões-postais que tinham o Centro do Rio como tema. O turista, principalmente de outras regiões do país, ao chegar à cidade, encantava-se de tal forma com aquela modernidade que optava por enviar aos familiares imagens de ruas e avenidas, em vez de registros das já famosas praias de Copacabana e do Flamengo.

Rio contemporâneo

Depois de anos de deterioração, a região que foi o coração do Rio na década de 20 começa a renascer. Recentemente inaugurada, depois de quatro anos fechada para obras do Porto Maravilha, a Praça Mauá foi escolhida um século depois como o símbolo da segunda grande revitalização urbanística do Rio de Janeiro. Seis vezes maior, hoje o local tem 25 mil metros quadrados no lugar dos 4 mil da configuração original. Além disso, saiu da sombra do Elevado Perimetral, voltando a ser um dos pontos mais importantes e movimentados da cidade.

De acordo com Jane, a revitalização da Praça Mauá e da avenida Rio Branco, assim como a inauguração do Museu do Amanhã, que deve ficar pronto até o final do ano, resgata a importância histórica do Centro do Rio. "A inauguração da praça hoje vai mudar a imagem antiga do local, que pertencia praticamente na totalidade aos automóveis, e agora vai permitir que os pedestres voltem a ocupá-la. É uma integração do Centro com o restante da cidade, pois recupera um ponto fundamental e histórico do sistema viário do Centro do Rio: a ligação entre o Porto e a Praia do Flamengo feita pela avenida Rio Branco".

A pesquisadora enfatiza que restaurar o Centro é muito mais do que dar novas vias à população. A obra recupera os caminhos históricos da cidade e devolve ao Rio um lugar antes evitado pelos cariocas e turistas devido à violência e ao abandono. "É preciso olhar com carinho para o centro porque uma cidade sem Centro é uma cidade sem alma", finaliza a autora.


Causos dos 20

Além dos muitos ineditismos, nas páginas dessa história figuram acontecimentos, no mínimo, curiosos. Confira!

O prefeito e o delegado

Em 1917, o Prefeito Amaro Cavalcanti baixou um decreto regulamentando o uso do banho de mar. "O banho só será permitido de 2 de abril a 30 de novembro, das 6h às 9h, e das 16h às 18h. De 1º de dezembro a 31 de março, das 5h às 8h, e das 17h às 19h. Nos domingos e feriados haverá uma tolerância de mais uma hora em cada período". Sobre os trajes de banho, a medida era ainda mais rígida: nas palavras do alcaide "Deveria guardar a compostura". "Não permitir o trânsito de banhistas nas ruas que dão acesso às praias, sem uso de roupão ou paletós suficientemente longos, os quais deverão ser fechados ou abotoados e que só poderão ser retirados nas praias". Aos infratores, multa e prisão.

Com o passar dos anos, o policiamento deu lugar a certo afrouxamento de vigilância, intensificando-se novamente, no verão de 1923 para 1924, quando o delegado do 6º Distrito, atendendo às queixas da liga conservadora, regulamentou o trajes e um "código de posturas praianas". O delegado colocou os guardas-civis com metro na mão e um apito na boca. O metro era para conferir as medidas do traje de banho, e o apito, para tocar a cada irregularidade que surgisse.

Depois de muito alarido, a polícia abandonou seu posto de vigilância. Em 1926, os trajes de banho diminuíram ainda mais para se adaptarem à prática da natação. Nesse embate, o maiô o foi vencedor.

Os jangadeiros, Orson Welles e a falsa Ipanema

A Rua Jangadeiros, em Ipanema, ganhou esse nome na década de 20 por ser o porto de chegada de jangadeiros que migravam do Nordeste brasileiro - sobretudo do Ceará. Anos mais tarde, o ator e diretor de Cinema Orson Welles veio ao Brasil para filmar a saga de quatro pescadores que saíram de jangada, sem bússola nem carta náutica, do Ceará em direção ao Rio de Janeiro, para reivindicar seus direitos trabalhistas diretamente com o presidente Getúlio Vargas. Porém, um acidente fatal de um dos jangadeiros na Barra da Tijuca (locação da falsa Ipanema) interrompeu as filmagens, e a película nunca foi concluída.

Ipanema e a bossa-novíssima

Paralamas retirados, rodas modificadas, suspensões rebaixadas... Embora se pense que o tuning seja um fenômeno recente, a personalização de carros e motos foi iniciada nos Estados Unidos logo após à Segunda Guerra Mundial. E meio século depois estava amplamente difundida na Europa e no Japão, onde a modalidade conquista cada vez mais adeptos. Porém, muito antes disso, no início da década de 20, jovens cariocas já preparavam o visual e a mecânica dos primeiros automóveis importados para o Brasil para torná-los mais agradáveis aos seus gostos e chegarem a lugares, até então, inóspitos, ainda sem asfalto.

Possantes como o Ford modelo T, com carroceria modificada (tipo baquet, aliviada e bem esportiva) e rodas ‘disco' em vez das originais com raios de madeira são reflexo do comportamento dos playboys daquela época. A fotografia foi tirada entre 1921 e 1925, na praia de Ipanema.


Curiosidades da urbe

Arquiteta e professora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Jane Santucci é considerada uma das maiores autoridades do país na área de História e Cultura Urbana com ênfase em Rio de Janeiro. Ela é autora dos livros ‘Os Pavilhões do Passeio Público' e ‘Cidade Rebelde'.

- A ideia de escrever ‘Babélica Urbe' - expressão tomada emprestada do escritor Théo-Filho - nasceu durante o trabalho de pesquisas de seu primeiro livro, ‘Os Pavilhões do Passeio Público', quando a arquiteta teve o primeiro contato com autores, como Benjamim Costallat e Álvaro Moreyra.

- Voraz colecionador de arte - especialmente art déco, período que abrange o início da década de 20 até os anos 40 -, o novelista Aguinaldo Silva cedeu fotos de seu acervo particular que serviram para ilustrar várias das 285 páginas do livro.


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