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Kultur

Cinco graças

por André Martins

Filme explora o sufocamento da juventude por regras religiosas impostas (Foto: Divulgação)

No caminho entre a escola e a casa, cinco irmãs órfãs de pai e mãe festejam a chegada das férias de maneira ingênua com alguns colegas de escola. O comportamento delas, no entanto, tem repercussão negativa no vilarejo em que moram com a avó e um tio, a cerca de mil quilômetros de Istambul, maior cidade da Turquia. Como punição, as meninas passam a viver enclausuradas, aprendendo serviços domésticos, sendo orientadas sobre como se portar e se vestir e tendo as mãos prometidas em casamentos arranjados.

Dirigido pela cineasta turca iniciante Deniz Gamze Ergüven, "Cinco Graças" ("Mustang") não ‘reinventa a roda'. O filme lembra, em muitos momentos, "As Virgens Suicidas", da americana Sophia Coppola, pela maneira como a religião é retratada - como engrenagem que suprime e engole a juventude. Passando-se na Turquia, "Cinco Graças" critica o fanatismo islâmico. Embora seja um país cada vez mais aberto, a Turquia (ironicamente dividida também geograficamente entre Europa e o Oriente) é como uma terra que se acomoda após um terremoto, convivendo o novo e o tradicional ao mesmo tempo.

A caçula das irmãs é quem narra a história e é ela a personagem mais interessante. Curiosa, enérgica e questionadora, a garota é a única que parece ter real noção da gravidade da privação de liberdade e de escolha. Ao longo do filme, a menina elabora formas de insurgir no momento mais oportuno.

O filme acerta em cheio ao retratar o frescor da juventude, seja com takes explorando os longuíssimos cabelos da primogênita, dos corpos das irmãs amontoados e que servem de travesseiros às cabeças umas das outras, seja de quando as meninas fogem para ver um jogo de futebol - o que dá origem à cena mais humorada do filme. Em contraposição a esses signos de juventude, o sofrimento e a angústia de cada uma delas dá ao filme um tom mais pungente e extremamente delicado.

Apesar de ser um filme totalmente turco, "Cinco Graças" foi escolhido para representar a França no Oscar 2016. A justificativa está no fato de o produtor do longa ser francês. O caso relembra o de "Orfeu Negro", obra que conta uma história genuinamente brasileira, rodada em português, mas que ganhou a estatueta pela França. "Cinco Graças" aparece como um dos mais cotados para disputar o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro na festa do Oscar ao lado do húngaro "O Filho de Saul", do brasileiro "Que Horas Ela Volta", do alemão "Labirinto de Mentiras" e do taiwanês "A Assassina".


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