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Kultur

Livre para ousar

por Camila França

Misturar peças masculinas e femininas está na “moda”. O conceito de “gender-bender” propőe quebrar preconceitos e tabus (Foto: Matheus Couto)

Faz tempo que é considerada ultrapassada a ideia de categorizar roupas entre masculinas ou femininas. O termo "gender-bender", que em tradução literal significa além-gênero, é tendência no mundo da moda. Ele propõe que as roupas sejam entendidas simplesmente como peças, não existindo distinção entre os guarda-roupas masculino e feminino. Saias, por exemplo, podem ser usadas também por homens assim como os ternos estão liberados para as mulheres.

O gender-bender traduz o ideal de liberdade de escolha e quebra das definições de masculino e feminino, mas a discussão é bem maior e vai além, como sugere o termo. Para o designer Raphael Ribeiro, essa é uma proposta que veio para ficar. "Os conceitos de gênero estão sendo muito questionados. Acredito que o papel da moda seja subverter esses padrões e auxiliar na profusão de ideias", destaca.

Este ano, Raphael lançou a Cacete Company, uma marca idealizada para o público masculino que vem conquistando também as mulheres. "Nosso foco era produzir roupas para homens, mas como temos peças que funcionam para ambos os sexos, desde o início algumas meninas se interessaram. Inicialmente as consumidoras da marca foram minhas amigas e agora atingimos um público maior que se identifica com a nossa identidade", conta.

Para o designer, as roupas devem ser cada vez mais independentes dos conceitos de gêneros nos armários de homens e mulheres. "Há alguns anos tivemos o boom de calças boyfriends. Agora os meninos estão usando saias. Acho que não existe roupa de menino nem de menina; existe roupa", acrescenta.

Embora pareça um assunto recente, a mistura de peças femininas e masculinas está presente há muito tempo no mundo da moda. Este ano, o assunto voltou à pauta com o primeiro desfile da marca internacional Gucci. No entanto, em 1920, a estilista Coco Chanel propunha que as mulheres se apropriassem de roupas vistas como exclusivas do universo masculino.

Outros ícones da moda e da cultura pop de diferentes décadas também levantaram o debate sobre a questão de gêneros ao se vestir. Nos anos 80, por exemplo, o cantor e compositor britânico Boy George inspirou uma geração embalada pelo estilo musical new wave com roupas que transmitiam um ar de androginia e excentricidade. Nessa mesma década, a modelo e cantora Grace Jones marcou época com o seu disco Nightclubbing. A capa, concebida pelo fotógrafo Jean-Paul Goude, mostra Jones vestida em uma jaqueta Armani e segurando um cigarro na boca. A imagem se tornou icônica e símbolo de uma artista que representou a androginia.

No Brasil, diversas personalidades também se apropriaram dessas misturas de peças. Entre elas, o grupo de teatro e dança Dzi Croquettes, que celebrava a alegria, a androginia e a liberdade nos anos 60, usando nos palcos cílios postiços, purpurina, plumas e saias em pleno período da ditadura militar.

Segundo Matheus Couto, estilista na AMDO, galeria de moda que reúne designers de Belo Horizonte, as tendências na moda estão sempre indo e vindo. "Existe hoje uma discussão de gênero na sociedade, fator que influencia diretamente no comportamento das pessoas. Essas distinções entre o feminino e o masculino estão sendo quebradas, mas ainda há muito o que fazer", explica.

Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Couto entrou no universo da moda quando começou a produzir as próprias roupas. De acordo com o estilista, ele não encontrava nas lojas peças que traduzissem o seu gosto e a sua personalidade. Hoje, além de produzir as próprias roupas, o estilista produz para outras pessoas. "Costumo trabalhar com uma palheta de cores mais neutra e com a malha, um tecido que permita várias possibilidades de criação. O resultado são peças para qualquer corpo e pessoa", explica.

Coisa de menino

Sabe aquela história de que azul é cor para meninos e rosa para meninas? Então, o "gender-bender" propõe deixar isso para trás e misturar cores, peças, acessórios e formas. Para algumas pessoas, isso é bem natural e faz parte do guarda-roupa e do estilo de vida há bastante tempo. O artista Edmar Pereira, conhecido como Ed Marte, busca nas roupas o mesmo colorido e a leveza com que leva a vida.

Para Ed, a grande questão é ter liberdade de usar o que quiser e desmitificar essa questão de que existem roupas exclusivas para homens e para mulheres. "Para mim, é muito natural sair de casa usando uma saia, por exemplo. Precisamos quebrar paradigmas e preconceitos e usar essa liberdade de escolher o que vestir no nosso dia a dia".

Presença constante na cena cultural de Belo Horizonte, Ed Marte é ator, performer e arte-educador. O artista descreve como os ideais se refletem na sua maneira de se vestir. "Exercito minha criatividade também por meio das roupas. Existe uma coisa de corpo político que deve ocupar e circular pela cidade. Quando andamos pelos espaços, criamos uma relação com ele e com as pessoas. Quanto mais levarmos essa liberdade para as ruas, mais as pessoas vão perceber com naturalidade", descreve.

Assim como Ed, o artista modernista Flávio de Carvalho circulava de saia pelas ruas de uma capital nos anos 50, causando questionamentos e polêmicas em torno da peça. Hoje a saia retorna para o universo masculino e rompe com os conceitos de que existem roupas destinadas para homens e para as mulheres.

Prezando pelo conforto, o ator Arthur Arock também incluiu a peça no vestuário. Para ele, o ideal é usar sempre roupas confortáveis e que lhe tragam a sensação de bem-estar. "Essa apropriação de peças do guarda-roupa feminino pelos homens, assim como o contrário, é um processo de desconstrução da regra social em prol do que faz você se sentir melhor. É como diz aquela frase que ficou famosa na internet: ‘coisas que são unissex: todas!'", acrescenta Arthur.

As peças consideradas masculinas são vistas com mais frequência nos armários das mulheres. Para o estilista fortalezense Cacau Francisco, existe, sim, uma naturalidade maior nesse uso desde que essas peças não desconstruam a feminilidade da mulher. "Quando o uso dessas peças foge à regra, também é visto com estranheza e preconceito pela sociedade. No entanto, a moda sem gênero está ganhando cada vez mais espaço", explica.

A ideia de aplicar às peças o conceito "gender-bender" surgiu ainda na faculdade, quando Cacau estava desenvolvendo o trabalho de conclusão de curso. "Comecei a desenvolver roupas que dialogassem com qualquer indivíduo, misturava elementos de modelagem dos universos masculino e feminino, mas não se identificava como moda unissex, termo que era comumente utilizado para definir esse modo de fazer roupa sem gênero", descreve.

Para Cacau, o processo de criar roupas sem gênero definido está diretamente relacionado ao próprio processo de amadurecimento profissional e pessoal. "Quando comecei a levar essas questões para o meu trabalho, queria me comunicar com as pessoas que passavam pelas mesmas descobertas que eu. Naquele momento, era uma verdade que eu trazia em mim e consegui transpor para as roupas que criei. O que vejo hoje é que o uso de roupas não masculinas pelos homens, por exemplo, muitas vezes se restringe a editoriais, desfiles e campanhas. No dia a dia, o uso ainda é cercado por tabus. Para desconstruir essa questão, acredito que as marcas, as revistas e as pessoas de uma forma geral devam construir um diálogo mais político sobre o uso dessa moda não binária", finaliza.


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