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Salutaris

Arte para a vida

por André Martins

Especialistas discutem a importância das expressões artísticas para o desenvolvimento infantil (Foto: Felipe Pereira)

As minúcias impressas nas obras do pintor e escultor italiano Leonardo da Vinci e a precisão dos passos da bailarina russa Anna Pavlova; o cinema pungente do sueco Ingmar Bergman e a ousadia da moda da francesa Coco Chanel: a perfeição de formas, cores, movimentos e sons associados aos protagonistas da história da arte impressiona de tal forma que chega a ser estranho imaginar que esses e outros artistas visionários não tenham nascido prontos. Mas a arte, assim como a vida, obedece a fases impossíveis de ser transpostas. A infância é, talvez, a mais importante delas. As construções feitas ao longo dessa etapa do desenvolvimento têm fundamental importância para o exercício da arte e para a vida como um todo.

Os gênios artísticos da humanidade e a imensurável importância de seus legados suscitam uma longa discussão que não tem prazo para terminar: a arte é inata a algumas pessoas ou tudo não passa de vontade aliada a estímulos na infância? A psicopedagoga Cecília Mata explica que existe, sim, uma predisposição para as artes. "Cada um de nós traz uma carga bem grande de possibilidades motoras e intelectuais para serem desenvolvidas no decorrer de nossa vida. Buscar estímulos é muito importante para desenvolver o nosso autoconhecimento, descobrindo, assim, a nossa verdadeira vocação", opina.

Muitas vezes, no entanto, a vocação artística pode estar escondida, necessitando de um estímulo para vir à tona. É o que explica a pedagoga especialista em Psicopedagogia Gláucia Dutra dos Santos. Descoberto o talento e estimulado de forma correta, a relação passa a ser simples. Quanto maior o esforço, mais surpreendentes tendem a ser os resultados.

O estímulo ao contato com a arte não é recomendado apenas a quem deseja que o(a) filho(a) descubra uma aptidão que venha a se tornar mais que um hobby no futuro. O envolvimento com algum tipo de manifestação artística é fundamental para o desenvolvimento infantil. "Isso é essencial para a construção social, afetiva e cognitiva da criança. Quando interagimos com as diferentes formas de expressão artística em um espaço lúdico de experimentação, criação e mediação, contribuímos para a transformação da aprendizagem infantil, possibilitando uma interação do mundo interno com o externo", explica Gláucia.

O rendimento escolar se dilata ainda mais quando as artes são ferramentas utilizadas em sala de aula. Cecília explica que cada tipo de arte guarda potencialidades e contribui de forma distinta. Enquanto a música estimula o desenvolvimento cognitivo, a memória e a leitura, o aprendizado de um instrumento musical leva a uma maior facilidade com os números. A pintura contribui para as capacidades motoras, a alfabetização e o desenvolvimento da autoestima. As atividades de recorte e colagem, por sua vez, estão ligadas à criatividade e às noções de espaço e superfície. Já o teatro contribui para a formação da personalidade da criança e a descoberta da vida de forma lúdica e criativa.

Júlia Vitória, de 7 anos, cursa a primeira série em uma escola municipal de Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Agitada, a menina apresentava sérias dificuldades de concentração, o que vinha se refletindo no desenvolvimento escolar. A história começou a mudar a partir de março, quando a menina iniciou aulas de pintura. "A Júlia sempre gostou de pintar. Então decidi unir o útil ao agradável. Além disso, as minhas paredes agradecem", conta humorada a mãe da menina, a técnica em Radiologia Graciela Costa de Sousa.

Os resultados das aulas que acontecem uma vez por semana começam a surgir. Segundo Graciela, Júlia se sente mais segura e autoconfiante. Na escola, as professoras relatam que a menina está mais sociável e apresenta melhoras significativas na concentração. A evolução de Júlia pode ser vista ainda em uma parede da casa de Graciela onde a filha expõe um novo trabalho a cada semana. "Ela adora ser elogiada! Eu a incentivo muito. Quando percebo que ela desenvolveu algo diferente, é muito gratificante. Os traços dela estão mais finos, a coordenação motora melhorou, o uso das cores é mais adequado,... Então é possível ver a evolução artística e em relação ao aprendizado", conta orgulhosa a mãe.

O interesse de Graciela pelo que a filha produz faz toda a diferença, como garantem os especialistas. Ao longo da infância, os pequenos necessitam de se sentir validados pelos pais. Dessa forma, é de fundamental importância que as crianças tenham uma resposta encorajadora de quem está por perto. "Fomos educados para apreciar a obra de arte, a estética, o belo e a não dar a devida importância ao ato e à capacidade de criar. Mas é isso que deve ser considerado pelos pais. Para a criança, arte é o prazer de realizar", sugere Cecília. A especialista explica que não é razoável que os pais forcem a criança a desenvolver uma atividade na qual ela não sinta prazer.

O pequeno Lucas, de 4 anos, foi introduzido no universo da música pelo interesse da mãe, a bióloga Luciana Fernandes Meyer. Desde a idade de 1 ano, o menino faz atividades com musicoterapia. "Sempre li muito sobre o processo de desenvolvimento de crianças e a importância da música. Tinha vontade de contribuir com a socialização dele, de dar outro estímulo, já que ele não ia à escolinha. Então a música surgiu da necessidade disso e é algo de que sempre gostei muito", conta Luciana.

O que inicialmente foi escolhido para o Lucas, tornou-se algo prazeroso para o menino. A mãe conta que o filho demonstra grande interesse por instrumentos, é afinado e tem uma noção de ritmo ressaltada por quem entende do assunto. A bióloga revela também que o filho a surpreende a cada dia, demonstrando desinibição e carisma, o que ela associa ao contato com a música.

Quando completou 2 anos, Lucas começou a frequentar uma escola. A mãe optou por uma instituição que prezasse pelo contato dos alunos com as artes. Lá, Lucas também tem aulas de musicalização, além de atividades de cunho artístico. Quando está em família, a festa continua. "Aqui em casa é superlegal porque o avô paterno dele toca piano e gaita. Então toda vez que nos encontramos é uma festa! Um pega a gaita, o Lucas pega uma flauta, o meu marido também toca piano,... Então já tem um pouquinho da veia artística do pai", conta.

Luciana espera que Lucas continue interessado em música e, quem sabe?, dedique ao estudo de um instrumento. Mas tudo deve ser a seu tempo, com respeito e liberdade ao que o filho realmente se sentir satisfeito em fazer. "Gostaria de algo a que ele se adapte melhor. Se ele quiser, vou investir. Eu acho que isso faz bem para qualquer pessoa. Ter um momento de tranquilidade, de concentração... A música nos desliga dos problemas. Acho que levar uma atividade como essa para a vida é superpositivo", arremata Luciana.


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