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A tal felicidade

por Haydêe Sant'Ana

Bem maior desejado por todos, a felicidade é tema central de estudos e de reflexões científicas (Foto: Shutterstock)

Ela está presente em expressões, músicas, poesias, filmes, histórias. Felicidade é um tema recorrente no curso da vida em geral. O desejo de vivenciar esse sentimento move pessoas em todo o mundo. Mas o que é a felicidade? Por que o ser humano a almeja tanto?

As primeiras reflexões sobre o tema nasceram no âmbito das investigações filosóficas acerca da natureza humana. A referência mais antiga aparece no trecho do filósofo grego Tales de Mileto, entre 623 - 546 a.C. "Ser feliz é ter corpo forte e são, boa sorte e alma formada", disse. Para os gregos, a felicidade era chamada, entre outros nomes, de eudaimonia, que traduzido ao pé da letra seria ‘estar habitado por um bom daimôn'. A professora e filósofa Miriam Campolina destrincha o termo. "Os daimones seriam divindades menores no Panteão grego, privadas de individualidade, responsáveis por zelar para que os homens evitem ações funestas e realizem ações boas. A felicidade seria, assim, um estado descrito por algo como a posse do divino em seu interior", detalha.

Posteriormente outros filósofos incrementaram essa visão e apresentaram novos aspectos que insistiram na ideia do homem como agente responsável pela busca da felicidade. Para Demócrito de Abdera (460 a.C e 370 a.C.), a felicidade consiste em estar de "bom ânimo" (euthymia), que surge do equilíbrio entre os excessos e as deficiências na vida. Para ser feliz, o homem deveria procurar a moderação dos desejos e reconhecer o primado dos bens da alma sobre os bens do corpo.

Na contemporaneidade, a definição de felicidade se assemelha ao ideal socrático. Ser feliz é atingir um estado interior de bem-estar e equilíbrio; de harmonia. Para cada indivíduo, a felicidade se concebe de maneira diferente: é algo relativo, subjetivo, não existindo fórmula universal para alcançá-la.

A propósito da associação da felicidade à paz, ao amor, à saúde ou ao sucesso, recorrente no senso comum, Miriam pensa que limitá-la a isso seria um equívoco: "Cada uma dessas coisas pode, sim, ser indício de uma vida boa e concorrer para a felicidade. Mas não passam de meios para experimentá-la; não a própria felicidade. A partir do momento em que nos damos conta do que realmente ela seja, calibramos nosso desejo sob a égide da razão, animamos a razão pela força do nosso desejo e assumimos o desafio de nos fazer artesãos da nossa felicidade'', enfatiza.

A ideia de associar a felicidade também a fatores e elementos externos, como bens materiais, sucesso, poder e riqueza revela-se frustrante, pois quando o indivíduo alcança o bem almejado, não dá mais tanta importância nem valor a essa conquista. Miriam destaca que isso ocorre porque o ser humano se ilude ao pensar que a felicidade seja algo exterior. "Isso ocorre, a meu ver, precisamente porque nos iludimos ao julgar que a felicidade esteja fora de nós e que possa ser alcançada de uma vez por todas. Não há uma felicidade vitalícia! A felicidade é e permanece sempre efêmera. A única forma de permanecer na felicidade é fazer com que se sucedam, um após outro, os momentos felizes, isto é, os momentos em que nos mantemos lúcidos e determinados, quando temos a necessidade de perseverar na disposição de reflexão e cálculo diante de cada uma das nossas ações e atitudes", afirma.

Outra ciência que se dedica ao estudo da felicidade é a psicologia. Desenvolvida nos anos 80 pelos psicólogos Martin Seligman e Mihaly Csikszentmihalyia, a Psicologia Positiva busca compreender as origens da felicidade. Para isso, volta-se para o estudo das emoções consideradas positivas (alegria, prazer, felicidade), das experiências e dos relacionamentos positivos.

Nesse caso, em vez de trabalhar com os pontos negativos, como ocorre na psicologia tradicional, a Psicologia Positiva foca o estudo das forças humanas em vez de considerar as fraquezas. O objetivo é reforçar os pontos positivos para promover uma qualidade de vida maior.

Na Psicologia Positiva, o conceito de felicidade proposto por Martin Seligman é analisado por fatores diferentes: emoções positivas, engajamento e significado. As emoções positivas estão associadas à boa vida, realçar o positivo e minimizar o que é negativo. Já o engajamento está relacionado ao conceito de fluxo. O fluxo caracteriza o estágio de estar imerso e engajado naquilo que se faz. E o significado é o processo de ter um propósito maior na vida.

Psicóloga especializada no estudo da felicidade e no desenvolvimento de adultos, Angelita Scardua explica como cada elemento contribui para atingir a felicidade autêntica e estável definida pela psicologia positiva. "A boa vida está relacionada com o investimento que um indivíduo faz de suas forças pessoais e virtudes em seus relacionamentos, no trabalho e no lazer. A vida engajada está ligada ao envolvimento cognitivo e emocional que um indivíduo tem com as atividades desafiadoras que resultam em crescimento e em sentimento de competência e satisfação. A vida significativa como a boa vida depende de o indivíduo aplicar as forças pessoais em atividades, mas a diferença é que essas atividades são percebidas como algo que pode contribuir para um bem maior", detalha.

De acordo com essa corrente de pensamento, sentir-se feliz ou não se refere principalmente à maneira como o indivíduo percebe a vida e não com o que está vivendo. "A avaliação que fazemos dos eventos e dos fatos da nossa vida é parte essencial da capacidade de nos sentirmos felizes. A situação vivida não é tão importante quanto a forma como avaliamos cognitiva e emocionalmente", destaca Angelita.

Dessa forma, os fatores engajamento e significado contribuem muito mais para a felicidade do que o prazer. "O prazer se associa aos estados de euforia, satisfação e alegria. O engajamento e o significado se associam a sentimentos mais duradouros, como plenitude, realização e contentamento. Na vida engajada e significativa, a fonte da felicidade é muito mais interna do que externa, ao passo que, na boa vida, a felicidade está muito mais associada ao prazer extraído do mundo externo. Sendo assim, pode-se dizer que o alcance da felicidade depende, em grande parte, de vivermos uma vida na qual o que pensamos, o que sentimos e o que fazemos estejam em harmonia", explica a psicóloga.

A felicidade é herança genética?

Segundo a Psicologia Positiva, estudos realizados com gêmeos univitelinos criados em lares diferentes mostram indícios de que até 50% da nossa predisposição para sermos felizes pode vir de herança genética. Algumas características da personalidade herdadas dos nossos familiares como, o otimismo, a resiliência e a criatividade favorecem uma percepção positiva da vida.

No entanto, ter essas características não é garantia de felicidade. "Se 50% dependem da genética, os outros 50% estão divididos entre 10% de circunstâncias da vida das quais não se pode controlar, como doença, saúde, riqueza e pobreza, e 40% que estão em nossas mãos, como a forma de lidar com a vida: como avaliamos o que vivemos, como interpretamos as experiências pelas quais passamos e como nos vemos uns aos outros", reflete Angelita.

Para a Psicologia Positiva, a mensuração desse tipo de sentimento pode ser feita por meio de parâmetros e indicadores. "Por exemplo: se os resultados de pesquisas indicam que as pessoas com um propósito de vida claro se percebem como mais felizes do que quem não tem, eu posso utilizar esse parâmetro (propósito de vida) como um indicador de felicidade", explica a psicóloga. A partir dos parâmetros, são definidos os índices de felicidade.


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