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Forças renovadas

por Gisele Almeida

Como o descanso da mente e do corpo pode contribuir para a produtividade dos funcionários e das empresas? (Foto: Toyota Divulgação)

A família sueca Pékar está de malas prontas para a ensolarada Califórnia nos Estados Unidos. A exemplo de muitos que vivem na Escandinávia, o gerente de negócios Linus Pékar, a assistente de contabilidade Maria Pékar e os dois filhos do casal procuram fugir da escuridão que assombra os meses de inverno na gélida Suécia. Somente em 2015, eles já voaram para fora de Estocolmo nada menos que cinco vezes. Uma dessas viagens aconteceu exatamente uma semana após Linus ter sido admitido em uma empresa. "Nós tínhamos essa viagem para a Turquia marcada e coincidiu exatamente com minha mudança de emprego. Mas as férias estavam previstas, e eu expliquei isso para o meu novo chefe", conta Linus garantindo que, em nenhum momento, o novo empregador demonstrou descontentamento com a situação.

Na Suécia, os trabalhadores têm direito a cinco semanas ou 25 dias úteis de férias por ano. Os empregadores podem decidir, em comum acordo com os funcionários, como o período de descanso será dividido. Quatro dessas semanas podem ser usufruídas durante os meses de verão. No país, é comum que muitas empresas fechem as portas durante os meses mais quentes do ano, já que os empregados provavelmente estarão em alguma praia paradisíaca recarregando as doses de vitamina D e colocando o bronzeado em dia.

A realidade dos trabalhadores suecos está distante de parecer com a dos brasileiros, obrigados a trabalhar um ano inteiro para ter direito às merecidas férias. A situação é inconcebível para Maria. "Eu não seria capaz de trabalhar assim. As pessoas devem se sentir obrigadas a trabalhar na mesma empresa e, dessa forma, não tendem a trabalhar felizes. Ir para uma nova empresa significaria recomeçar tudo e não tirar férias por um mais de um ano", comenta. Para a economista, a sagrada pausa de cinco semanas é fundamental para o próprio rendimento no trabalho.

O renomado proprietário do Make Up Instituet de Estocolmo, Shaul Moalem, optou por dar férias coletivas aos funcionários duas vezes ao ano. "Descansamos três semanas no verão e duas em dezembro, entre o natal e o ano-novo. Dessa forma, eu também consigo me desligar do trabalho", comenta.

De viagem marcada para Israel, o empresário diz não ver vantagem em tirar férias e permanecer com as portas da empresa abertas. "Caso aconteça algum imprevisto, meus funcionários vão me contactar. Isso não é descanso verdadeiro". Para Moalem, o mais viável é que todos descansem ao mesmo tempo e voltem revigorados para os respectivos postos de trabalho. "Caso seja necessário, estou aberto a negociar férias extras. Se um dos meus funcionários precisar, eu certamente ofereço a oportunidade de ele tirar mais alguns dias de descanso em épocas do ano diferentes da prevista no nosso calendário de férias coletivas", esclarece.

Individualidade

Para o psicólogo clínico pós-graduado em Psicoterapia Analítica Ivan Costa, um modelo ideal de férias é o que respeita a necessidade particular dos funcionários, uma vez que, para o especialista, a forma de descansar é muito subjetiva. "O código do trabalho foi criado em defesa das relações de trabalho e para garantir direitos ao trabalhador. A regra das férias foi pensada para um benefício coletivo. Então ela não avalia necessidades individuais", comenta.

Segundo o psicólogo, o ditado confuciano que diz "Escolha um trabalho que você ame e nunca terá que trabalhar um dia em sua vida" é completamente aplicável a esse caso. Afinal, a produtividade está relacionada com outros fatores, como as condições de trabalho. "Se a pessoa não está satisfeita com a função que exerce ou com a empresa onde trabalha, as férias podem virar apenas válvula de escape, uma fuga daquilo que ela não gosta de fazer. Como consequência, o indivíduo volta das férias sem vontade de trabalhar", enfatiza.

Para a Diretora de Gestão da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Marise Drumond, independentemente de ser uma questão trabalhista, as férias simbolizam a manutenção da saúde física, mental e da performance do indivíduo. "Um profissional descansado, depois de um período de folga, volta com mais energia, bom humor e disposição. E isso resulta na maior produtividade. Inclusive, com o aparecimento da psicologia positiva nos Estados Unidos, vários estudos indicam que empresas que promovem o bem-estar e a qualidade de vida dos colaboradores são empresas que evoluem", comenta.

Marise considera a legislação brasileira coerente apenas para o primeiro ano de trabalho, período necessário para que o profissional novato se adapte à empresa e adquira amadurecimento. "Já para os funcionários veteranos, entendo que deveria haver uma flexibilidade maior, pois a pressão no ambiente de trabalho ao longo do tempo, com metas cada vez mais difíceis de atingir, com certeza gera mais cansaço, fadiga e estresse. Esperar um ano para parar talvez seja prejudicial", explica. Ela chama a atenção também para o estresse, a ansiedade e a depressão - males que podem surgir mediante a inexistência de pausas para o descanso.

Jornada de seis horas

Os suecos mais uma vez saem na frente quando o assunto são experimentos sociais. Atentos ao fato de que nenhum trabalhador consegue produzir da mesma forma durante oito horas de trabalho, a Toyota da cidade de Gotemburgo, segunda maior cidade da Suécia, resolveu implantar a jornada de trabalho de seis horas por dia, mantendo a remuneração. "Começamos com esse experimento em 2002 e até hoje só colhemos bons frutos. Isso pode parecer bom demais para ser verdade, mas trabalhar em uma oficina de reparação de automóveis é pesado, e nós percebemos que a equipe trabalhava de forma mais eficaz durante seis horas. Então não havia nenhuma razão para que eles ficassem aqui mais do que o necessário", explica o diretor-geral da empresa, Martin Banck.

A mudança foi adotada apenas para teste, mas logo se tornou permanente. De 103 funcionários contratados, 36 trabalham com carga horária reduzida, justamente aqueles que utilizam a força física. A partir da alteração, a empresa se surpreendeu com outro benefício: a redução da apresentação de atestados médicos.

Na oficina da Toyota, uma equipe trabalha das 6h às 12h30, com o sagrado intervalo de 30 minutos para o fika, palavra sueca que define o momento em que as pessoas tomam um café acompanhado de algum dos deliciosos doces típicos e socializam com amigos ou colegas de trabalho. A outra equipe trabalha à tarde. A cada duas semanas, os funcionários mudam de turno para que a divisão seja justa. A grade de trabalho inclui algumas horas no fim de semana, mas o salário extra é devidamente negociado. "Outra consequência dessa mudança foi um aumento no número de clientes. As pessoas perceberam mais agilidade no trabalho e, por isso, nós passamos a ter preferência," comenta o diretor, que confessa não ter esperado por isso.

Ao ser questionado sobre os custos da mudança, Banck é direto. "Isso não é algo que fazemos por diversão. Somos uma empresa com fins lucrativos. Temos que ganhar dinheiro como qualquer negócio". Ele aponta que, mesmo com o aumento da procura, a empresa não teve necessidade de investir em novas dependências, já que dois funcionários dividem o posto e as ferramentas de trabalho.

"Recebemos muitas visitas de empresários que acham os resultados impressionantes, mas, na hora de aplicar a experiência nas próprias empresas, eles se sentem receosos. No meu modo de ver, qualquer empresário que pense um pouco ‘fora da caixa' vai entender que estar atento às necessidades dos funcionários só traz benefícios", conclui.

Para Marise, a experiência promovida pela Toyota poderia ser viável no Brasil desde que houvesse uma mudança nas relações de trabalho e muita maturidade do empregador e do empregado. "A compreensão do negócio e de resultados deveria caminhar na mesma linha da qualidade de vida e da satisfação profissional e pessoal", ressalta.


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