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Salutaris

Da prevenção à terapia

por André Martins

Por que rir é o melhor remédio? (Foto: Everton Lopes)

Regularmente seguidores e praticantes da religião Seicho-No-Iê, em Belo Horizonte, encontram-se para um propósito intrigante. Em roda e com as mãos no ventre, os participantes fazem uma oração, inclinam o tronco e soltam um sonoro "Ua há, há, há, há". Basta algumas repetições para que as gargalhadas inicialmente forçadas se tornem uma manifestação espontânea que contagia todos.

Criada em 1930, no Japão, pelo líder religioso Masaharu Taniguchi, a filosofia Seicho-No-Iê propõe uma visão abrangente de Deus, que tem por um dos atributos a alegria. Por meio da terapia do riso, a alegria (ou o próprio Deus) se manifesta ao homem sendo esboçada por meio desse prazeroso ato que, segundo religiosos e até mesmo cientistas, tem muitas potencialidades.

"Quando você chega perto de uma pessoa mal-humorada, você sente uma barreira, não tem vontade nem prazer de estar com ela. Mas quando uma pessoa recebe você com um sorriso, toda a sua face se transforma, os seus olhos brilham, você sente um bem-estar e uma satisfação que começa partindo do coração", explica a seguidora da Seicho-No-Iê e psicóloga Wany Galinari.

Especializada na psicologia transpessoal, Wany acredita que o homem seja o que ele pensa. A positividade mental e o riso fácil teriam a contribuir, de formas irrefutáveis, para uma vida de mais qualidade. "O riso e a gargalhada trazem tudo de bom: saúde da mente, saúde do corpo, bem-estar. Além disso, as pessoas que sorriem atraem pessoas alegres e situações mais felizes. As pessoas são pontos de atração", indica.

Até mesmo parte da comunidade científica já se rendeu ao riso. Em 2011, pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, associaram as gargalhadas à produção de endorfinas - hormônio ligado ao prazer e ao bem-estar. Essas substâncias teriam o poder de atenuar a dor e seriam liberadas a partir do desconforto abdominal causado pelo ato de gargalhar por um período longo.

A terapeuta holística Fabiana Barbosa explica que o riso sempre foi objeto de estudo por parte dos homens. Desde o século IV a.C., quando Hipócrates utilizava animações e brincadeiras na recuperação de seus pacientes, o riso é alvo de investigação. "Na antiguidade, o riso começou a ser estudado de forma sistemática. Já no século XIX, Darwin classificou o riso e o sorriso como movimentos expressivos inatos e universais e, no século seguinte, Freud apresentou o riso como uma forma de exteriorizar uma defesa psíquica em relação à dor", conta.

Na década de 60, o médico americano Hunter Adams começou a utilizar o riso como uma ferramenta terapêutica e de cura. A história do palhaço que percorria hospitais levando alegria às crianças internadas ficou conhecida por meio do filme "Patch Adams - O Amor é Contagioso", estrelado por Robin Williams.

Na opinião de Fabiana, manter-se longe dos transtornos de humor passa por uma vida em que o rir e gargalhar é prática constante. "O riso controla o estresse do dia a dia, fortalece relacionamentos interpessoais e intrapessoais, aumenta a produtividade e as oportunidades no trabalho, impulsiona a criatividade, além de ser um excelente exercício para o coração, intestino, estômago, garganta, expressão facial e todo o organismo. Ele fortalece o sistema imunológico, suaviza ou diminui a dor e é divertido!", aponta.

Rir de si mesmo, relembrar situações engraçadas e fazer palhaçadas diante do espelho são dicas para que o riso se incorpore naturalmente na rotina diária. Fabiana garante que se feito todos os dias, de cinco a dez minutos, o exercício pode render alguns anos a mais de vida. "Eu sempre sugiro que a pessoa se olhe no espelho, preferencialmente de corpo inteiro, e sorria para si, dê "bom dia, boa tarde e boa noite", converse consigo, conte algo engraçado, faça caretas, lembre de que lá na infância isso era simples e natural. E nunca, jamais, denigra a própria imagem!", sugere Fabiana.

O interior

Já pensou em purificar o corpo por meio do riso? Isso é possível segundo a linha do Tao da Cura. Associada à medicina chinesa, o Tao da Cura é uma técnica milenar muito utilizada em religiões, como o Taoísmo e o Budismo. O sorriso interior é um tipo de meditação prevista na técnica. A psicóloga e professora de meditação Sandra Goulart Trópia desenvolve esse trabalho desde 1995. Ela garante que, ao sorrir interiormente, energias estagnadas são liberadas e todos os órgãos podem ser fortalecidos e, por que não?!, sarados.

Sandra explica que o sorriso interior requer uma vivência com a prática da meditação. Ela ilustra como a técnica é posta em prática. "Vou dar um exemplo: você põe a mão no coração e o sente bater. Fecha os olhos e pensa que o seu coração é do tamanho do seu punho fechado. Então você pensa no formato, nas artérias, nos músculos, nos batimentos. Daí a pouco, você lembra do seu sorriso, inspira ele, como se o tivesse engolido, e sente esse sorriso colar no órgão. Então você respira, inspira, solta o sorriso e ele vai para o pulmão. Dessa forma, vamos percorrendo cada parte do corpo", detalha.

Como todas as outras técnicas do Tao da Cura, o sorriso interior emprega todo o conhecimento da medicina chinesa. Segundo Sandra, pensar positivamente, inspirar-se de coisas boas e manter-se distante das energias negativas tem importância fundamental para o equilíbrio interno e para manter sadios, tanto o corpo quanto a mente.

A tristeza

Assim como a alegria contribui para uma vida mais harmônica e equilibrada, o seu oposto, a tristeza, tende a desencadear efeitos reversos. De acordo com a psicanalista e professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) Aline Aguiar, a tristeza pode ser entendida como uma reação psicológica a uma perda. "Nem sempre é uma perda de uma pessoa. Pode ser uma perda de um ideal, algo que você esperava muito que fosse acontecer e não se concretizou: a perda de um relacionamento, de uma imagem que você tinha de você e não tem mais com o passar do tempo", exemplifica.

Quando a tristeza se instala, surgem os perigos à saúde física e dos relacionamentos cultivados. Aline alerta para diversos prejuízos a quem se mantém mal-humorado e carrancudo todo tempo. "O corpo vai sentindo isso. A pessoa vai tendo a musculatura travada e aí vêm as dores musculares e nas articulações que podem levar a outros males. Isso pode também fazer a pessoa perder oportunidades. Sendo muito negativa, as outras pessoas perdem o interesse nela", aponta.

No entanto, Aline chama a atenção para o fato de que o sentimento de tristeza pode ser benéfico e rico, se ele favorecer uma reformulação pessoal. "Esse sentimento pode proporcionar uma reelaboração em que a pessoa passa por um momento difícil e volta mais fortalecida, alegra-se com muito mais coisas do que antes,... então a tristeza pode ser um tempo importante, necessário e dar bons frutos", aponta.

Palhaços doutores

É por meio da arte de fazer sorrir que muitos grupos espalhados pelo país levam alento a quem precisa. Abrigos e hospitais são visitados regularmente por palhaços que carregam a missão de fazer pacientes e abrigados imergirem em um mundo lúdico capaz de fazê-los esquecer, ainda que por alguns instantes, a dor e o abandono.

Thaís Castro ou Dra. Thora Lasquita, como é conhecida, começou a atuar como palhaça em hospitais e instituições de caridade aos 17 anos, seguindo os passos do pai, Marco Castro, o Dr. Quinho Estefanu Figanu. "Antes de ter idade apropriada, eu sonhava em um dia poder participar e conseguir, com a minha alma, levar felicidade para as pessoas que precisam. Sempre ouvi histórias que meu pai contava, e era evidente a felicidade dos pacientes dos hospitais e dos próprios palhaços que participavam das intervenções", conta.

Pai e filha fazem parte do Grupo Terapia do Riso. Atuante desde 2007, o grupo desenvolve trabalhos em quatro hospitais de Sorocaba, interior paulista, além de se apresentar em orfanatos, abrigos e comunidades carentes em datas comemorativas. Todas as sextas-feiras à noite, uma trupe de dez palhaços trajada de coletes brancos, muita maquiagem e adereços coloridos vai ao encontro dos hospitalizados.

As potencialidades do riso são sempre discutidas entre os palhaços do grupo. "O riso, que transparece pelos lábios ou pelo olhar, está associado não somente ao alívio da tensão, mas à expressão de emoções positivas. Além disso, essa terapia é mundialmente reconhecida como o melhor remédio, porque ela traz a esperança, e a sensação da felicidade irradia pelo corpo", entende Thaís.

Está mais do que comprovado que dar gargalhadas sinceras e sorrisos largos tem poder de alterar o estado emocional, aumentar a autoestima e tornar lugares de atmosfera densa, mais confortáveis para pacientes, acompanhantes e equipes médicas. Em 2006, uma pesquisa feita pela Escola de Medicina da Universidade Lima Linda, na Califórnia, foi além das constatações de vivência hospitalar. A instituição comprovou que o riso contribui para o aumento da produção e da atividade de células capazes de destruir vírus e até tumores.
Em Belo Horizonte, o Instituto HaHaHa tem como foco o trabalho voltado para crianças hospitalizadas. O instituto começou a ganhar forma em 2007, a partir do apoio do grupo Doutores da Alegria - referência nesse tipo de trabalho no país. Hoje o HaHaHa conta com 14 palhaços e sete pessoas no apoio. Cinco hospitais, dentre eles, a Santa Casa de Belo Horizonte, abrem as portas a dois palhaços duas vezes por semana ao longo de todo o ano.

O ator e coordenador artístico do Instituto HaHaHa, Eliseu Custódio, o Dr. Custódio, observa que o trabalho com as crianças está baseado no que ele chama de ‘dramaturgia do encontro'. Nada é planejado. A intervenção acontece de acordo com o que os palhaços encontram no quarto. "A própria realidade é um disparo para a gente construir criativamente a cena, e aí a gente vai com a criança. O trabalho exige de nós profissionalismo, criatividade, o uso do espaço, do improviso, das técnicas, da dança, da mágica,... então a gente aciona todos os nossos ferramentais para que, naquele momento, a realidade tenha um sentido fortíssimo para a vida da criança e de quem está vendo. Naquele momento estamos segurando a vida com a sua complexidade, força, latência, pulsação", conta.

Diante de tanta bagunça e diversão, os pequenos se fortalecem sem se darem conta. "O que temos percebido, com a ajuda de enfermeiros e médicos é que, após esse trabalho, as crianças têm aceitado mais os procedimentos, têm sido mais colaborativas e deixado pequenos medos de lado. Elas se alimentam melhor e se comunicam mais. O riso proporciona tudo isso: ativa glândulas, e o sangue corre de maneira diferente".

O retorno do trabalho não vem apenas das crianças, seduzidas pela simpatia e pelo cuidado dos palhaços. Eliseu revela que os pais demonstram imensa gratidão pelos palhaços fazerem o(a) filho(a) sorrir em momentos adversos. Os profissionais que lidam a todo momento com a dor e a morte também se sentem mais descontraídos, com o espírito renovado. "Quando a gente encontra as pessoas, falamos dos ‘encontros potentes'. Por meio do riso, você ativa a energia do ambiente. É física quântica mesmo! O riso aumenta a onda vibracional. Você modifica a energia do ambiente e das pessoas", opina.

Ainda que tenham por princípio proporcionar alegria e bem-estar ao público atendido, os palhaços parecem combinar ao dizer que são eles os maiores beneficiados com o trabalho. "Muitas vezes buscamos fazer uma pessoa feliz e somos surpreendidos ao nos perceber mais felizes ainda, com a sensação de dever cumprido e um gostinho de quero-mais. Diria que realizar esse trabalho já é essencial para mim", acrescenta Thaís.


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