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Podium

Para errar menos

por Thalvanes Guimarães

Com o desenvolvimento da tecnologia, informaçőes e dados estatísticos passam a ser indispensáveis para os clubes (Foto: Sports Training Analysis)

O futebol é uma caixinha de surpresas! É bem possível que você tenha lido essa expressão em um jornal ou escutado no rádio ou na TV. Apesar de ser um retumbante clichê, é difícil não concordar com ele. Muitas pessoas apontam essa imprevisibilidade como um dos maiores atrativos de um jogo de futebol e um dos grandes diferenciais em relação a outros esportes.

Logo no início de um torneio, questiona-se quem vai ser o campeão. Na Libertadores, principal competição entre clubes da América, 23 clubes, de 32 possíveis, estiveram nas 16 finais deste milênio. Na Copa do Brasil, 18 equipes. Na Liga dos Campeões da Europa, 16 times do continente estiveram em finais desde 2000. O nível de profissionalismo dos grandes clubes em relação aos demais aumenta ao passo que diminuem as probabilidades de surpresas.

O resultado da seleção alemã em 2014, na Copa do Mundo no Brasil, por exemplo, foi fruto de um trabalho iniciado em 2000. A confederação de futebol do país desenvolveu um planejamento de longo prazo, com metodologia, objetivos e ferramentas. Quem assistiu ao massacre em cima da seleção canarinho na semifinal pode não acreditar que a seleção alemã necessitou de uma prorrogação para vencer a inexpressiva seleção da Argélia nas oitavas de final por 2 a 1.

Os caminhos para o sucesso no futebol são complexos, e vários fatores interferem no resultado final. Mas com o desenvolvimento de novas tecnologias, fica claro que é cada vez mais essencial que os clubes se preparem e planejem. Durante a Copa de 2014, os alemães utilizaram uma tecnologia chamada Match Insights: um software que consegue coletar números e estatísticas do jogo por meio de imagens e vídeos. O programa é capaz de identificar os movimentos dos jogadores, melhorando a eficiência na rodagem da bola por parte da equipe.

O Match Insights permite que detalhes envolvendo o time sejam captados e armazenados, contribuindo para uma análise em tempo real. O programa apresenta 1,6 mil lances de uma partida apenas quatro minutos após o apito final. Pelo celular, os jogadores conseguem ter acesso a informações estratégicas e, assim, acabam se envolvendo mais com a parte tática.

A aplicação avalia também buracos nas defesas adversárias, de acordo com as características dos jogadores adversários. Se o treinador alemão Joachim Löw desejasse passar informações específicas que pudessem contribuir para a performance de determinado atleta, o jogador receberia as orientações no próprio celular ou em outros tipos de dispositivos eletrônicos.

Após os retornos positivos a partir do uso do programa pelos alemães, a SAP, empresa responsável pela aplicação, apresentou em 2015 o SAP Sports One para clubes de futebol. Mais completo que o anterior, o sistema oferece também a gestão do clube como um todo, incluindo as categorias de base. É possível que os treinadores planejem o treinamento com base em características diferentes das dos atletas. Se há jogadores com deficiências táticas - de habilidade, controle de bola ou marcação -, tudo é quantificado e armazenado, e o técnico tem informações suficientes para tomar decisões acertadas.

O programa auxilia também em questões-chave para que o jogador se mantenha saudável. Todas as lesões, os medicamentos tomados, as proibições por doping e exames são documentados a fim de evitar problemas. O objetivo básico é preparar a tomada de decisão de todos os agentes do esporte. Envolvendo mais pessoas no processo, as chances de êxito aumentam, pois os atletas passam a conhecer mais atalhos dentro das próprias táticas e suas possibilidades de jogo de acordo com os adversários.

Segundo o líder de Inovação e Experiência do Cliente da SAP Labs Latin America, Daniel Duarte, o programa é usado pelo Bayern de Munique, campeão do mundo em 2012. "Mesmo com o sucesso com a Alemanha no ano passado, não somos tão novos assim. O sistema começou a ser implantando no Hoffenheim (clube alemão) do qual um dos sócios da SAP é proprietário. Lá ele foi sendo aprimorado e testado," afirma.

No Brasil, apenas o Grêmio adquiriu o sistema. O investimento feito pelos gaúchos foi de R$ 3,5 milhões. Segundo o representante da empresa, cinco clubes do país negociam a aquisição. Um deles pode ser o Cruzeiro, que recentemente reforçou o departamento de análise com mais um profissional da área, Rafael Vieira, que trabalhou com Mano Menezes na seleção brasileira.

O maior interesse pela área pode deixar o cruzeirense Rodrigo Corleone mais aliviado. Ele se decepcionou com um pênalti desperdiçado por Willian aos 46 minutos do segundo tempo contra o Atlético, no jogo que terminou empatado em 1 a 1. No twitter, o torcedor postou imagens de algumas das 15 cobranças de pênalti em cima do Victor analisadas por ele no Youtube, em 11 ele pulou no canto direito. "Na hora que o Willian foi bater o pênalti eu já imaginava que o Victor fosse pular naquele canto. Ele sempre pula ali. Fiquei pensando: ‘O Willian deve saber disso. Afinal ele é jogador profissional. Quando eu cheguei em casa, fui tirar a prova e olhei pênaltis contra ele. Lembrei também do 7 a 1, que o Neuer (goleiro da seleção alemã) deixou uns papéis no vestiário com o estudo de onde os jogadores brasileiros costumavam bater pênaltis", contou.

No Atlético, o analista de desempenho Alexandre Ceolin diz que um projeto de desenvolvimento de um centro de informações e análise de desempenho está em fase de análise pela diretoria. Ele deve ser construído em conjunto com o Departamento de Base do Clube. Por enquanto, Ceolin trabalha sozinho, mas não reclama. "Tem clubes que contam com mais de dez profissionais nessa área. No entanto, nossos resultados nos últimos anos me fazem crer que a ferramenta de informações contribui muito, porém nada tira do futebol a magia do desempenho individual do jogador", acredita.

Nos últimos compromissos do Atlético pelo Brasileirão, Alexandre se manteve atento às notícias diárias de treinamentos dos adversários do Carijó com o objetivo de prever as escalações. "Depois disso, faço a análise individual de cada atleta e o comparativo de scout entre as equipes acompanhada da edição de vídeo específico para a preleção," comenta.

A tecnologia e a ciência podem preparar os jogadores da melhor forma possível para lidar com todos os tipos de cenário. "É 50% de preparação e 50% do que acontece no jogo. O que acontece no momento da partida é do calor do jogo. Ninguém poderia, por exemplo, prever que o Suárez iria morder alguém (no jogo contra a Itália, na Copa do Mundo)," pondera Daniel Duarte.

Para o gerente da SAP, as alterações podem ser muitas, caso a Fifa se abra ainda mais ao uso da tecnologia durante os jogos. "No futuro, com os jogadores e treinadores tendo acesso às informações estratégicas durante os jogos, as alterações, sem dúvidas, serão muito mais bem-sucedidas", acredita.


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