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Kultur

No espaço comum

por Tati Barros

Por meio de intervenções na teia urbana, artistas levam reflexão e um colorido especial aos grandes centros (Foto: Meio FilmesB)

Quem nunca teve o coração partido e sofreu por amor? Ao ouvir relatos de amores frustrados e relembrar os próprios, a jornalista Sabrina Abreu teve a ideia de criar um lembrete para que as pessoas não se esqueçam de que o coração requer cuidados. Assim decidiu espalhar por algumas cidades imagens de um coração humano com a palavra "frágil", em diversos idiomas. O material pode ser visto em Belo Horizonte, Ouro Preto, Tel Aviv e Belém, nos territórios sob o domínio da Autoridade Nacional Palestina. O resultado do trabalho ficou ao estilo das etiquetas vistas em embalagens, indicando cuidado ao manusear determinado produto.

Para Sabrina, a iniciativa procura mostrar a universalidade do tema: o coração de todo mundo é frágil no mundo todo. "Percebi que há uma diferença entre sofrer por amor, saudade ou qualquer coisa e sofrer por negligência do outro, porque alguém foi sacana, irresponsável com seus sentimentos. Talvez uma boa porcentagem de corações pudesse ser poupada se as pessoas tivessem mais cuidado umas com as outras. E é essa a mensagem que desejo passar", explica.

A ideia pode parecer incomum no primeiro momento, mas basta atentar o olhar nos grandes centros que será possível perceber diversas mensagens no caótico espaço urbano. De folhetos pregados em postes a muros desenhados, as manifestações artísticas, tão presentes em cidades cosmopolitas, como Nova Iorque e Berlim, mostram-se parte da paisagem de cidades brasileiras e trazem a proposta de vivenciar o espaço urbano sob outro olhar.

No Brasil, as primeiras intervenções datam da década de 60, época de efervescência cultural e política, em meio às manifestações contra a ditadura embaladas pelo som do rock e do tropicalismo. O artista Hélio Oiticica é tido como pioneiro desse tipo de arte por ter colocado seus ‘parangolés' em frente ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1965. Era uma forma de protestar pelo MAM ter expulsado músicos da Estação Primeira de Mangueira.

Para o presidente da Fundação Municipal de Cultura (FMC) de Belo Horizonte, Leônidas Oliveira, a arte tem papel essencial na transformação das pessoas e da cidade, e as intervenções urbanas têm o poder de unir essas duas vertentes. "Uma cidade viva, cosmopolita, atenta aos movimentos locais e internacionais da arte a coloca em outro patamar: o de valorização. E mais do que isso: reconhecimento de que a arte e a pintura em especial não são somente para os museus. São para os povos, para recriar a vida, seja ela pela contemplação, seja pela criação de conhecimento", acredita.

Segundo o Mestre em Arte e Tecnologia pela Universidade de Brasília e Notório Saber em Plástica, Teoria e História da Arte, Wagner Barja, a linguagem da intervenção urbana é capaz de ultrapassar as fronteiras da arte, projetando-se na vida cotidiana e ampliando o pensamento contemporâneo. "A linguagem das intervenções se instala como instrumento crítico para a elaboração de valores e identidades das sociedades. É uma alternativa aos circuitos oficiais capaz de proporcionar o acesso direto e de promover um corpo a corpo da obra de arte com o público, independentemente de mercados consumidores ou de complexas e burocratizantes instituições culturais", analisa no artigo "Intervenção/Terinvenção - A arte de inventar e intervir diretamente sobre o urbano, suas categorias e o impacto no cotidiano".

E quando uma intervenção nasce de forma despretensiosa na internet e depois ganha as ruas? Foi assim que a artista plástica Rita Wainer viu a sua ilustração pró-feminismo viralizar na rede e se tornar um dos símbolos de luta pela igualdade feminina, que ganhou força em 2015. A ilustração de uma mulher sem blusa, com a frase "Respeita as mina, porra" sobre o corpo, foi postada no perfil pessoal da artista em uma rede social e, poucas horas depois, milhares de compartilhamentos se seguiram. A imagem ganhou os perfis de diversos usuários, sendo inclusive repostada por celebridades, sempre acompanhadas de frases pró-feminismo. O desenho foi baixado por muitas pessoas. Elas o imprimiram e levaram às ruas, na manifestação contra o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e a favor do direito das mulheres na Cinelândia, em São Paulo, em outubro passado.

Para Rita, a repercussão foi uma surpresa que representa a necessidade de falar sobre a causa e de lutar por ela. "Fui totalmente surpreendida, pois tive uma resposta maior do que eu imaginava. Se bem que eu não imaginava nada. Isso foi apenas minha colaboração como ‘mina' a um movimento que se faz necessário. Fico feliz e orgulhosa de poder ter desenhado o que todo mundo quis falar", diz.

Rita reconhece o papel da internet na propagação das intervenções, mas ressalta a importância das manifestações saírem dos limites da web e invadirem as ruas. "A internet é apenas uma edição da vida. Eu acredito muito no que vai para a rua e no que vem dela. Ela é nossa e temos que ocupá-la com coisas bonitas, com coisas importantes. Eu amo a arte de rua", declara.

Telas urbanas

Quem circula pela região da Pampulha, em Belo Horizonte, provavelmente já percebeu que a capital mineira está ganhando um colorido especial. Isso porque, em novembro passado, a FMC, por meio do Museu de Arte da Pampulha (MAP) e em parceria com a Associação Cultural dos Amigos do Museu de Arte da Pampulha (Amap), iniciou a execução do projeto "Telas Urbanas".

Foram selecionados 83 artistas de todo o Brasil, sendo 68 por meio de edital público e 15 convidados pela Curadoria e Comissão Organizadora do projeto, para levarem vida a espaços urbanos, públicos ou privados da cidade, por meio de grafite, pinturas, murais e técnicas contemporâneas da arte urbana.

Segundo Oliveira, o projeto tem como estratégia requalificar áreas degradadas da cidade por meio da arte. O tema escolhido para a primeira edição do "Telas Urbanas" foi "Cidade que Vibra". A escolha, segundo o presidente, vem do objetivo de provocar o debate e promover o acolhimento da cidade a esses artistas e suas expressões. "Vibrar significa dar energia, força. É preciso vibrar, e nada melhor do que a arte em todas as suas manifestações para fazer e transformar uma cidade em diversas dimensões", explica.

A artista Criola foi uma das convidadas para levar arte aos muros da capital. Para a graffiteira mineira, que traz em sua arte a mensagem do empoderamento da mulher negra, o principal papel do artista de rua reside no fato de promover o diálogo entre a sua temática e a rua. "Temos a missão de chamar a atenção das pessoas para além da sua rotina casa - trabalho e de mostrar que a rua pode, sim, ser palco de intervenções e ocupações. É importante que os cidadãos ocupem a rua e a transformem em uma extensão da própria casa, em um lugar agradável e melhor sempre", acredita.

Em fevereiro acontece a segunda etapa do projeto, quando outros sete artistas convidados e 34 selecionados via edital vão executar obras nos espaços públicos da Avenida Pedro I e no entorno da Pampulha.

Além dos muros da cidade

Uma urna em algum canto da cidade, caneta, papel e a pergunta: "O que você gostaria de fazer AGORA, se pudesse fazer qualquer coisa?". É dessa forma que a jornalista Sabrina Abreu cria sua segunda intervenção. Ela aborda pessoas de diferentes centros com o objetivo de fazê-las refletir sobre o presente. "Nas redes sociais, é normal lermos pessoas reclamando da segunda-feira ou suspirando o ano todo à espera das férias. Comecei a me perguntar se estamos todos sacrificando o presente em prol de alguma coisa no futuro, que talvez nem saibamos muito bem o que seja. Então eu tive a ideia de colocar uma urna na rua e fazer essa pergunta", explica.

É dessa forma simples, mas que convida à reflexão das pessoas, que Sabrina desenvolve um novo projeto. "Queria propor essa reflexão. Parece uma pergunta tão boba, mas as pessoas se assustam. É bem mais raro alguém perguntar o que você gostaria de fazer agora do que quais são seus planos para a Páscoa do ano que vem. Abrimos mão do agora com muita facilidade, mas, no fundo, ele é tudo o que temos", filosofa.
E no caso de você cruzar com a urna e um papel com a pergunta proposta por Sabrina? "O que VOCÊ gostaria de fazer agora, se pudesse fazer qualquer coisa?". É provável que só você tenha a resposta. Quem sabe não é possível começar 2016 colocando-a em prática?


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