O Brasil é o novo queridinho da América. E nao é difícil entender os motivos desse encanto. Com os bolsos cheios de dólares, favorecidos pelo bom momento econômico que o país vive, os brasileiros estão fazendo a festa nos Estados Unidos. E a diversão não se limita a passeios pelos disputados parques da Disney. Eles agora estão comprando casas, apartamentos e condomínios de luxo em regiões nobres no Sul da Flórida (EUA). A maioria em Miami e a preços bem abaixo dos encontrados em cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro.
Sai em média por US$ 250 mil (cerca de R$ 428 mil) um apartamento ou uma casa com bom espaço e em ótima localização. Está tão em conta, que a maior parte dos compradores paga à vista. O volume de negócios feitos por brasileiros nos EUA é tão expressivo que o Brasil ocupa a segunda posicão no ranking dos principais compradores internacionais, superando Inglaterra, França e Alemanha.
E o rítmo das vendas continua acelerado. Dados da Miami Association of Realtors (MAR), a Associação de Corretores de Imóveis de Miami, atestam esse fenômeno. Em 2010, 9% das vendas internacionais foram para brasileiros. Em 2011, a participação do Brasil no mercado aumentou para 12%, superando o Canadá.
"A expansão da economia brasileira e a valorização da moeda têm favorecido esses investimentos. E a escolha por Miami nao é casual. Além da acessibilidade em relação ao mercado mundial e da beleza e do clima sempre agradável, a cidade oferece uma diversidade cultural que propicia um estilo de vida emocionante para quem aqui vive", afirma Martha Pomares, presidente da Miami Association of Realtors.
Isto, sem se esquecer, é claro, de benefícios importantes. A segurança pública é um deles. A sensação de proteção permite às pessoas usufruírem de seus bens de forma plena. Ninguém aqui precisa se preocupar, por exemplo, em blindar seus carros ou deixar de usar o Rolex, por medo de assaltos. Os efeitos dessas vendas têm deixado empresários e profissionais que atuam no mercado imobiliário americano bem otimistas. Pelo menos na Flórida. "Aqui o mercado vem se recuperando mais rápido, por causa dessas vendas. O volume negociado estabeleceu um novo recorde. São números que superam o boom imobiliário de 2005. Cerca de 60% dos negócios fechados em 2011 foram com compradores estrangeiros", afirma Martha Pomares. "Em 2011 foram vendidos 24.929 imóveis, contra 24.025 negociados em 2005".
O corretor de imóveis Luciano Tedesco trabalha há sete anos nesse mercado. O profissional contabiliza bons resultados. Ano passado ele vendia até três imóveis por mês para clientes do Brasil. Uma dessas vendas foi uma casa com sete quartos ao preço de US$ 4 milhões (R$ 6,84 milhões), em Golden Beach. A outra, um apartamento com três dormitórios por US$1,6 mihão (R$ 2,73 milhões), em Sunny Isles. São duas privilegiadas regiões da Flórida. E Luciano cita um novo empreendimento em Cooper City: um condomínio fechado, com estrutura de resort e toda segurança. "Ideal para quem mora no Brasil e precisa deixar o imóvel fechado por longos períodos", diz Tedesco.
Dois brasileiros "agradaram" do projeto. Um comprou uma casa com quatro quartos por US$ 450 mil (R$ 769,5 mil). O outro, uma residência menor, de três dormitórios, por US$ 280 mil (R$ 478,8 mil). Otimista, o corretor prevê um ano ainda melhor. "Só em janeiro e até a metade de fevereiro, ultrapassei a marca dos três imóveis por mês", comemora. Para Laerte Temple, diretor-superintendente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi-SP) e membro do Comitê Executivo do Consórcio Internacional de Associações Imobiliárias (Icrea), o mercado americano começa a viver um novo momento de euforia. "Hoje excelentes imóveis são comprados na Flórida a preços mais baixos que nas principais cidades ou praias brasileiras", afirma Temple.
De fato, a diferença é significativa. É possível adquirir um imóvel com vista para o mar por até US$ 4 mil (R$ 6,84 mil) o metro quadrado. "Por esse preço, em cidades como Rio ou São Paulo, encontram-se imóveis só em bairros periféricos; longe, muito longe do mar", afirma Temple. No início de fevereiro, o Fipe- Zap (índice nacional da Fipe que mede preços de imóveis) divulgou um indicador que avalia as alterações no mercado imobiliário brasileiro. O índice evidenciou esse contraste.
São Paulo e o Rio de Janeiro, os dois mercados imobiliários mais importantes do Brasil, têm o metro quadrado mais caro. No Rio, o custo médio é de R$7,589 mil. Em São Paulo, R$6,135 mil. Mas se for em regiões nobres, como o Leblon (RJ) ou no eixo Ibirapuera- Vila Nova Conceição (SP), o preço dispara. No bairro carioca, o valor chega a R$17,328 mil, ou seja, quase três vezes mais. Na região paulistana, salta para R$ 9,644 mil. De acordo com o estudo da FipeZap, o custo médio do metro quadrado em sete capitais pesquisadas, incluindo Belo Horizonte, é de R$6,267 mil.
O "repentino" interesse dos brasileiros pelo mercado imobiliário americano se deve ao baixo preço dos imóveis. A desvalorização é consequência da crise econômica. Desde 2007, o problema afeta o mercado imobiliário americano. O aumento da inadimplência provocado pelas altas taxas de juros e pela dificuldade de refinanciamento dos contratos hipotecários levou milhares de americanos a perderem suas casas.
A situação também afetou construtoras, que tiveram centenas de contratos com clientes cancelados. Além disso, dezenas de projetos de novos empreendimentos foram engavetados. A avalanche de eventos desfavoráveis elevou o estoque de imóveis no mercado. A consequência direta foi uma drástica queda nos precos. "Com isso, casas que valiam US$ 500 mil, por exemplo, passaram a ser vendidas pela metade do preço. Em alguns casos, o 'desconto' foi de até 70% do valor", afirma Frank Gomes, diretor da Ironbound Realty Professionals - uma agência de imóveis em New Jersey (EUA). Para Gomes, ainda não há motivos para comemorar. "O estoque de imóveis permanece muito alto. Há volume para os próximos cinco anos. Este é o tempo estimado para durar essa crise", diz.
RISCOS DO INVESTIMENTO
Investir no mercado externo é um negócio que também envolve riscos. Mas, no caso americano, é a expectativa por dias melhores que tem atraído investidores de várias partes do mundo. Na avaliação de Temple, do Secovi, muitos desses compradores entendem que a economia americana vai se recuperar em poucos anos. Inclusive, a relação entre o dólar e o real. "É um país tradicionalmente estável e com inflação baixa. As possibilidades de ganhos no mercado imobiliário americano para quem comprou 'na baixa' são enormes".
Mas ele recomenda cautela: "é importante procurar ajuda jurídica e de uma empresa especializada. Há muitas regras que devem ser conhecidas, como taxas e impostos altos que devem ser pagos. Para o comprador brasileiro é melhor adquirir imóveis como pessoa jurídica", esclarece. Uma coisa é clara: o interesse dos americanos em manter as portas escancaradas para os brasileros é inquestionável. Quase todas as empresas de vendas de imóveis agora têm funcionários com o português na ponta da língua, prontos para atender os brasileiros. Fenômeno semelhante ocorre nos shoppings, os chamados Malls, de Miami. Em muitos deles, as vendedoras estão estudando língua portuguesa para atrair e atender melhor a essa clientela, que é cada vez maior no Balneário. Por lá, o popular "hi" vem sendo trocado pelo "oi", assim mesmo, em bom português. Pelo que se vê, agora só falta o red carpet, ou melhor, o tapete vermelho!