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Verbo

Cronista da Vida Privada

por Fernanda Carvalho

Escritor predestinado e humorista por acaso, Luis Fernando Veríssimo lança, em Belo Horizonte, o livro de crônicas “Em algum lugar do paraíso”

Tímido, sempre com poucas palavras e um curto sorriso nos lábios, ele brinda o povo brasileiro diariamente com doses de humor em páginas de jornal. Em público, é "curto e grosso", mas com uma delicadeza particular. Prefere o diálogo. "Não gosto de monólogo", é o que afirma diante de uma multidão que se reúne somente para escutá-lo. Afinal, é o escritor dos relacionamentos, sejam de qual caráter for. Luis Fernando Veríssimo é o mais famoso cronista de humor do país. O "poeta" das sátiras da vida privada.

A carreira estava predestinada. Ele só não sabia. Filho do escritor Érico Veríssimo, a leitura estava presente desde o berço. Assim como a comida, os livros eram essenciais na "mansão" Veríssimo. Mas foi apenas com aproximadamente 30 anos que ele descobriu a vocação, quando trabalhava no jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

Teve mais de 60 livros publicados em cerca de 40 anos de carreira como escritor. Além de crônicas, Veríssimo fez cartuns, traduções, roteiros para televisão, trabalhou como publicitário e revisor em jornal. E é músico: tocou saxofone em alguns grupos de jazz.

Em uma sala da Academia Mineira de Letras repleta de holofotes, Luis Fernando Veríssimo contou à Vox Objetiva um pouco da própria trajetória, como sempre, com pouca fala e alguns sorrisos que marcam a cortesia singular.

Vox: Você sempre soube que seria escritor?

Luis Fernando Veríssimo - Não. Não. Na verdade, eu até comecei a escrever muito tarde, com mais de 30 anos. Até então, não tinha nenhuma ideia; nenhuma intenção de ser escritor. Quando eu comecei a trabalhar em jornal, eventualmente, eles me deram um espaço para fazer crônicas. Foi assim que mais ou menos eu descobri minha vocação. Antes disso, eu nunca tinha escrito nada, a não ser algumas traduções do inglês. Não tinha nenhuma intenção de escrever.

Eu li que, com menos de 15 anos, você e sua irmã criaram um jornal da família chamado "O Patentino". É verdade essa história? Do que se tratava esse jornal?

(Risos) Lá no Sul a gente chama o vaso sanitário do banheiro de patente. Então minha irmã e eu tivemos a ideia de fazer um jornal que seria colado na parede, ao lado da privada, para que a pessoa, quando estivesse ocupada ali na privada, lesse o jornal.

Era diário?

Não, não. Nem lembro. Acho que era quinzenal ou semanal. Mas era pura brincadeira. Não tinha nenhuma intenção, além, é claro, de gozar com a família toda.

Como filho de Érico Veríssimo, os livros devem ter surgido muito cedo em sua vida. O gosto pela literatura veio do seu pai?

Eu acho que sim, né?! Eu me criei numa casa em que, antes de mais nada, havia livros. E livro era uma coisa importante. Eu convivi com escritores. Sempre fui leitor; sempre gostei muito de ler, justamente porque tinha livros em casa. Então, nesse sentido, a influência do meu pai foi indireta, pelo fato de ele ser escritor. Mas eu sempre fui um grande leitor. E quando eu comecei a fazer crônicas e tal, pelo menos eu já sabia como é que se fazia.

Você consegue perceber algo de Érico Veríssimo em seus textos? Há alguma influência?

O pai foi um dos primeiros escritores brasileiros a escrever de maneira mais informal. Era mais influenciado pela literatura americana do que pela europeia. E eu acho que eu também escrevo assim. Não é um texto muito profundo nem muito rebuscado. Tem a preocupação de ser claro sempre e bastante informal. Nesse sentido, eu acho que eu sou parecido com o meu pai.

Você faz todos os tipos de crônica com a mesma vontade, com o mesmo gosto? Existe uma predileção por algum tema? Futebol, por exemplo, é recorrente na sua obra.

Eh... eh... futebol é um assunto muito constante. Eu gosto muito de futebol. Também é um assunto mais ou menos pronto, né?! Quando começa a escrever, você já tem opiniões que vêm da sua admiração por jogadores ou por times. Então sempre fica mais fácil fazer uma crônica, quando o tema é tão próximo.

E a crônica se baseia justamente nas histórias do cotidiano...

Na crônica cabe tudo. Então pode ser, às vezes, um comentário, uma coisa mais profunda, pode ser uma reminiscência de infância ou o que seja. Nesse sentido, cabe tudo na crônica.

Seu personagem, o detetive Ed Mort, ganhou adaptação para os quadrinhos, para o cinema e para a TV. Como ele foi criado?

O Ed Mort nasceu como uma paródia literária; uma paródia da literatura policial americana e do cinema policial. Uma versão brasileira daquele típico detetive particular da literatura americana e do cinema. E, sendo uma versão brasileira, nada dava certo com ele. Não conseguia resolver os casos. Quando resolvia, era pago com cheque sem fundos. Então era uma versão subdesenvolvida de um típico herói americano.

Você viveu parte da infância e da adolescência nos Estados Unidos. Esse tipo de texto era o seu preferido naquela época?

De certo modo, sim. Eu sempre gostei muito de livros policiais. Antigamente lia bastante. Sempre gostei muito de quadrinhos também. Então, de vez em quando, depois que eu passei a ter espaço no jornal, em vez de textos, eu fazia quadrinhos, inventava os personagens, desenhava e tal. Nesse sentido, acho que continua sendo uma coisa da infância.

Na época da ditadura, os quadrinhos eram utilizados para fazer críticas. Você também fazia o mesmo no jornal montado na sua casa, o Pato Macho. Por que você acha que a censura não barrava essas histórias?

Pois é... Isso é curioso. O desenho tinha certa liberdade; o texto não. Pelo fato de o desenho ter essa conotação infantil e lúdica, talvez os censores não prestassem tanta atenção. Não é por nada que a grande revelação do humor daquela época no Brasil foi o Henfil - um cartunista. Foi justamente por isso: ele fazia nos desenhos e nos cartuns as críticas que no texto ninguém poderia fazer.

Quando foi que você começou a inserir humor em seu jornalismo?

Olha: quando eu comecei a ter espaço no jornal para fazer crônicas, quer dizer, para ter um espaço assinado com as coisas que eu fazia que eram mais sérias, as que iam para o lado do humor eram as que tinham mais repercussão. Então eu fui, mais ou menos, levado para esse lado, apesar de não ser, como eu disse, um humorista natural.

Depois de 43 anos escrevendo, mudou alguma coisa no ato de escrever? Na inspiração?

Não. Eu acho que não. O que me surpreende hoje, quando eu leio alguma coisa que eu escrevi há anos, é o tamanho do texto. Antigamente eu escrevia mais, com mais volume. Não sei se eu fiquei mais preguiçoso ou mais conciso. Hoje o meu texto é bem menor.

Eu fiquei curiosa em relação a esses textos que são publicados na internet com o seu nome, sem que sejam seus. Qual a sua reação, quando você encontra esses textos?

Olha: a única reação possível é a resignação, porque é uma coisa que, que eu saiba, não pode ser evitada, regulada. Eu não entendo bem o que leva uma pessoa a escrever um texto, às vezes um texto bom, e botar o nome de outro, a assinatura de outro. Mas, tudo bem. Não há o que fazer.

Em relação a seu novo livro, que vem com 41 crônicas publicadas, por que "Em algum lugar do paraíso"?

Na verdade, o título quem deu foi a editora. Tem a ver com a primeira crônica do livro que se passa no paraíso, com Adão e Eva. O conto de Adão e Eva, quando tudo começou. Inclusive os problemas matrimoniais começaram no paraíso (Sorriso). E no resto do livro, várias crônicas são sobre o relacionamento homem-mulher, com alguma referência ao primeiro texto. Então é por isso que tem esse título: "Em algum lugar do paraíso".

Você veio lançar o seu livro em Minas - um Estado que também gerou alguns grandes escritores. Carlos Drummond de Andrade e por aí vai. O que você acha da produção literária mineira?

Olha: Minas é um Estado de grandes escritores, a começar pelo Guimarães Rosa, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, o Carlos Drummond, que você falou... Então é admirável. Eu acho que nenhum Estado da federação tem essa quantidade de escritores no seu passado e no seu presente.

 


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