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Verbo

Perícia histórica

por André Martins

Mary Del Priore lança livro sobre triângulo amoroso envolvendo D. Pedro I e revela a razão do interesse pelos singelos vestígios da história (Foto: André Martins)

Ela é a historiadora brasileira de maior destaque na atualidade. E todas as razões que justificam essa marca são conhecidas. Além dos diversos prêmios conquistados, Mary Del Priore consegue o que muitos gostariam: ela vende. "O príncipe maldito" e "Histórias íntimas" renderam à professora carioca as primeiras colocações entre os mais vendidos nas livrarias brasileiras. A posição foi sustentada semanas a fio.

A história poderia ser outra, caso Mary não optasse por se desvincular da Academia, há 13 anos, para começar a fazer o que realmente gosta: escrever para o grande público, com liberdade, estilo e zelo.

Um segredo do sucesso é a descrição clínica que se equipara à de um grande romanceador. Outro, o faro investigativo como pouco se vê. É dessa forma que Mary tem apresentado aos brasileiros, personagens e momentos marcantes para a história nacional, desfazendo os muitos mitos que rondam o imaginário popular.

Com mais de 30 livros publicados, boa parte sobre o Império, a intelectual passa a impressão de ter vasculhado tudo que podia: lugares, cartas, bilhetes e mimos. Mas ela confessa que se surpreende a cada nova investida pela história.

Por incorporar elementos do romance à escrita - todos baseados na documentação histórica, Mary sofre do mal que um dia acometeu o grande escritor Gilberto Freyre, autor de "Casa Grande & Senzala". Na Academia há quem "torça o bico" ao ouvir o nome dela. Mas assim como a história, entendida como um processo, isso tende a ser revisto em determinado momento.

Em entrevista à VOX OBJETIVA, Mary fala sobre a grande paixão e revela detalhes do livro que veio lançar em Belo Horizonte, no projeto Sempre um Papo: "A carne e o Sangue". A obra descortina a frustração da imperatriz, D. Leopoldina, diante da relação extraconjugal do marido, D. Pedro I, com a marquesa de Santos.   


 Foto: André Martins
Em seus livros você revela interesse pela intimidade de determinados personagens da história do Brasil. Por que desvendar o que acontece dentro dos palácios, dos confessionários, dos quartos?

Porque acho que é um tema apaixonante para a história. A partir da intimidade, a gente consegue dar carne e sangue - se você me permite repetir o título do novo livro - aos personagens históricos que muitas vezes são tão mitificados.

Eu acho que os pequenos gestos, a repetição de certos hábitos, as formas de vestir, falar, de se comunicar, das palavras de amor ou de ódio, tudo nos ajuda a construir esses personagens do passado de uma forma mais humana. O que eu faço é despojar essas figuras de todo o mito, inseri-las, inscrevê-las em determinada temporalidade e transformar a intimidade e a vida privada numa janela para ver também a vida pública. Então eu sempre tenho essa preocupação de estar olhando o pano de fundo. A intimidade, a sensibilidade e os sentimentos também são uma maneira de a gente olhar para fora.

É interessante notar como você consegue subverter a condição de coadjuvante de algumas figuras que são tidas como tal: um possível terceiro imperador do Brasil, uma amante fogosa, uma condessa dividida entre o desejo e a fé. Na história não figuram os chamados coadjuvantes?

Eu diria que só existem coadjuvantes. Os protagonistas são criados por determinados momentos históricos. Eu acho que os bons personagens são esses que a gente consegue ver nas sombras. São aqueles que conseguimos ver passar atrás, digamos, do cenário histórico reconstituído por meio da documentação com a qual tenho grande compromisso.

Grande parte dos seus livros estende olhar sobre personagens e eventos do século XIX. Há algo de especial nesse período histórico?

O meu foco na família imperial se justifica pelo fato de a documentação ser riquíssima. Eu trabalhei durante muitos anos com a colônia. Estava entre aqueles intelectuais que tinham que ir a Portugal descobrir a voz dessa gente que viveu aqui na colônia. Os processos estavam todos lá, assim como os tribunais da inquisição ou jurídicos. Já as vozes do século XIX estão nos nossos arquivos. A gente pode "conversar" com esses mortos aqui. É possível cruzar essas vozes com imagens - as iconografias dos viajantes ou a fotografia, que está sendo inventada naquele momento -, toda literatura e todo jornal produzido nessa época. Então procuro extrair dos documentos a voz de determinados personagens e tento observar como eles são vistos por essas outras vozes que os demais documentos oferecem.

Como se dá a preparação para escrever um livro?

Confesso que a primeira coisa que faço é uma seleção de literatura do período. Aí eu me sinto assim, banhando naquele ambiente. Convenhamos: os autores do século XIX são muito descritivos. Tanto os românticos quanto os realistas têm um compromisso muito grande com a reconstituição. Por isso, a literatura é importante. Ainda assim, sou muito fiel à documentação, com a qual eu converso posteriormente. Por exemplo: se eu digo que a Leopoldina cruzava alamedas de bougainvilles e lantanas para ir de São Cristóvão ao Centro, é porque num viajante eu li que, ao ir a São Cristóvão, ele cruzava essa série de flores. São detalhes, mas detalhes absolutamente fiéis à documentação.

"A carne e o sangue" é o seu mais novo livro. Entre D. Pedro I, duas mulheres muito distintas: a imperatriz D. Leopoldina e Domitila. O que no perfil de cada uma a surpreendeu mais?

A Leopoldina sempre foi pintada pela historiografia como uma mulher que deu o braço pela independência do Brasil. Mas a verdade não é essa. Em toda correspondência que mantinha com o pai, ela se revelava uma mulher com verdadeiro horror ao que vinha acontecendo no Brasil. De todos os documentos com que eu trabalhei em toda a minha vida (e olha que não foram poucos), eu nunca ouvi uma voz de dor feminina como eu ouvi na documentação dessa mulher. Ela falava do seu isolamento, da sua depressão, da solidão e do abandono em que vivia. Embora fosse bem-educada, ela não sabia o elementar, que é navegar na cultura do outro. Então a  Leopoldina não se relacionava nem com brasileiros nem com portugueses. E esse fosso cultural vai aumentando. Então eu diria que essa é uma faceta inteiramente nova dessa mulher, que era uma perfeita desconhecida.  

E a Domitila, ninguém sabia nada sobre ela. Ela era um mito, né?

O mito da grande paixão. Conhecia-se apenas as cartas do D. Pedro para ela, em que ele assina Fogo Foguinho, Demonão, diz que quer ir aos "cofres" [sexo feminino], que quer ser o mico dela. Em algumas correspondências, ele pede que ela tome banho antes de irem para a cama. Enfim, tem todo esse lado. Mas o que eu procurei demonstrar é que ela era uma mulher totalmente dona do seu destino. Domitila também vai oferecer a D. Pedro I, de maneira muito inteligente e habilidosa, a corte que ele não tinha, porque a Leopoldina não sabia fazer. Ela vai oferecer na casa dela um espaço de sociabilidade para esse imperador. E eu lembro sempre que dormir com a Domitila nessa época era dormir com o Brasil. Ela era uma brasileira. Então eu acho que isso, de certa maneira, tinha uma implicação simbólica. Ele tinha uma favorita, que era uma brasileira.

O seu próximo projeto é sobre a princesa Isabel. O que você pode nos adiantar em relação a essa personagem que os brasileiros desconhecem?

Ao escrever o "A carne e o sangue", tive acesso a uma documentação nova sobre a princesa Isabel, no Instituto Histórico Geográfico. Os registros mostram que de abolicionista a Isabel não tinha nada. No último minuto, ao apagar das luzes, ela se toca, depois de ter ido a São Paulo - quando o oeste da cidade era varrido por rebeliões escravas, fugas em massa, os caifazes assolando as senzalas. Até então ela não via nada. Achava tudo muito bonitinho. Só em abril de 1887 que ela percebe o que estava acontecendo. Em maio de 1888, nós temos a abolição e em novembro de 1889, a Proclamação da República. Então o castelo, como eu digo, era de papel. O título do próximo livro é "O castelo de papel".

Mary, você se desligou da USP há 13 anos. Em entrevistas, você revela que se sentia um pouco oprimida pela lógica imposta no meio acadêmico: o "publique ou pereça". O seu processo de escrita mudou em que sentido, depois que você tomou essa decisão?

Primeiro: hoje eu tenho uma relação muito estreita com meus leitores. Tão logo eles sabem que estou escrevendo alguma coisa, eu passo a receber deles documentos, opiniões,... Eles participam do que eu faço. Segundo: hoje eu tenho uma liberdade muito grande de narrativa. Eu adoro o que eu faço! Eu até brinco que esse livro é uma história de amor do D. Pedro com a Leopoldina, dele com a Domitila e minha com a história. Porque realmente eu adoro escrever e cada vez procuro corresponder às expectativas dos meus leitores. Mais do que isso: procuro conquistar leitores para a história.

Quais são os maiores desafios do pesquisador de história no Brasil? É difícil ter acesso às fontes?

Não é difícil ter acesso. É difícil ser historiador. Isso implica a pessoa ter uma liberdade, sobretudo econômica. Eu lembro sempre esse aspecto. Os professores são muito mal pagos; não são valorizados. A memória no Brasil não é valorizada. Vocês estão em um estado maravilhoso, que possui uma memória patrimonial esplêndida. Em Minas Gerais, tudo é história. Mas rapidamente as igrejas se transformam em estacionamentos de supermercado, e as praças são demolidas. Acho que é como se o país conspirasse contra a história, porque é muito fácil a gente imaginar que ela está acontecendo agora e desconhecer que história é um processo. E esse processo tem que ser valorizado. Os professores de história têm que ser valorizados. E eles, sobretudo, têm que gostar do que fazem. É preciso paixão. Mas como você se apaixona, se ganha mal, não tem dinheiro para viajar, não tem dinheiro para comprar livros, se as pessoas estranham quando você fala que é historiador e perguntam se é com H ou sem H? Então eu diria que é muito duro. Mas quem gosta não deve hesitar; deve ir fundo, porque é apaixonante. Eu não me arrependo nem um minuto.


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