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Kultur

O disco não parou de rodar

por Fernanda Carvalho

Saudosismo e paixão por música fazem com que o passado nunca seja deixado para trás (Foto: Stock.xchng)

A pré-venda iniciou, mas não durou muito tempo. Os long plays acabaram antes que começassem a ser vendidos "de verdade". Depois de quinze anos de carreira e muitos intervalos, a banda Los Hermanos lançou, no início deste mês, a discografia completa em vinil. O que não se esperava era que o formato fizesse tanto sucesso entre os fãs, predominantemente jovens.

O chiado da agulha: muitos consideram esse o motivo da paixão por LPs. Mas é mais que isso. Ao contrário do MP3, o disco demanda tempo e atenção. É preciso tirá-lo da capa com cuidado, manuseá-lo, ligar o toca-discos de agulha nova e colocar o álbum. Depois de ouvir um lado, é necessário se levantar da cadeira e virar o long play para escutar as outras faixas. As músicas, então, são realmente apreciadas.

Por todo esse fetiche, o bolachão, como também é chamado, nunca foi deixado de lado. Nem mesmo quando os compact discs ou CDs começaram a ser comercializados em 1982. Ao redor do mundo, vários musicistas, estudiosos e amantes guardam coleções que de muito serviriam para contar a história da humanidade.

A maior coleção de vinis do mundo está alojada em uma grande sala na cidade de Pittsburgh, no sudoeste do estado americano da Pensilvânia. O dono dela é Paul Mawhinney, um apaixonado por música desde os 12 anos de idade. O "número 1" foi um disco de Frankie Laine lançado em 1951 pela Columbia Records. Desde então, o colecionador não parou mais.

De acordo com Mawhinney, hoje a coletânea soma 2 milhões de vinis, todos juntados ao longo de 60 anos. A saúde de Paul e a idade avançada forçaram o colecionador a passar os discos adiante. Depois de quase duas décadas de tentativas e muita frustração, ele finalmente parece ter conseguido. Paul revelou à Vox Objetiva que os LPs estão em processo de venda para um museu. Mas enquanto a negociação não for concluída, ele prefere não dar detalhes sobre o destino da gigante coleção.

A história inteira da música do século XX pode ser encontrada na grande sala ambientada de Paul Mawhinney. Uma enorme quantidade de álbuns raríssimos ocupa essas prateleiras. E até mesmo o primeiro disco do mundo, segundo ele datado de 1881, está no meio da coleção. Todos mantidos intocados, em perfeito estado.

Fernanda Carvalho
Em Belo Horizonte, uma sala um pouco menor guarda outra coleção com "ar" de exclusiva. Numa rua habitacional do bairro Floresta, um cartaz colocado em frente a uma porta de vidro indica: "Discoteca Pública". São cerca de 13 mil long plays só de música brasileira. A coleção veio do acervo do pesquisador Edu Pampani e foi colocada em um espaço para estudiosos e apaixonados por qualquer estilo de música nacional poderem apreciar.

Do clássico e erudito às escolas de samba e forró. O conjunto de discos representa 60 anos da história da música popular brasileira gravada em vinil. Para Pampani, as mais primorosas lembranças de todo esse tempo são da década de 70. "Eu acho que as melhores datam de 1973, 1974 e vão até 1977. Não sei por que eu tenho esse ano de 1977 na cabeça. Acho que é porque todos os discos que eu descobri dessa data são ótimos", analisa rindo.

O período preferido da música para Pampani parece ser o mesmo de muitos estudiosos e amantes. No Brasil foi uma fase efervescente. Com o início da ditadura, em 1964, a lei da censura impedia que todos se expressassem livremente. A música servia de válvula de escape.

Para Carlos Augusto Alves, bacharel em história e coordenador de programação da TV Uni BH, a década de 80
foi a mais marcante. Na época, a MPB se mesclou com as causas políticas e sociais. "Isso mexeu com os jovens de uma forma incrível. Não havia acesso aos fatos como hoje. Os cantores eram os arautos das ‘grandes novidades'. Além de superpolitizados, Caetano e Gil vinham com um comportamento andrógino que gerava grandes debates. Chico, cult, com referências na grande tradição da música, nos forçava a aprender. De repente, todo mundo esqueceu a Jovem Guarda".

Edu Pampani pondera que a música mudou bastante, depois da ditadura. "Essa foi uma época muito boa! Para driblar a censura, o compositor tinha que ser bom de verdade; tinha que ser fera". Foi justamente na década de 70 que o colecionador começou a escutar "música boa". Antes disso, ele se dizia da turma do rock n' roll, "como a maioria dos jovens nessa época". Os primeiros discos, naturalmente, vieram do gênero. "O número um foi o The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. É o único que eu guardo", conta.

Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, Yes, Genesis e Pink Floyd: esses são apenas alguns dos nomes do hard rock e do rock progressivo que marcaram internacionalmente a década de 70. De acordo com o amante e estudioso do gênero, Tiago Meneses, esse foi o período em que várias bandas dessas subdivisões do rock tiveram seu auge criativo, "ainda que os estilos tenham sido moldados nos anos 60", elucida.

Na década de 70, o mundo perdia o denominado Rei do Rock, Elvis Presley, morto em 1977. Mas, ao mesmo tempo, ganhava o fortalecimento da psicodelia, as distorções do blues mesclado ao rock e o auge da disco music. The Dark Side of the Moon "enlouquecia" os adoradores, com filosofia e experimentações musicais, e John Travolta, em Os Embalos de Sábado à Noite, fazia as pistas de dança ferverem.

Nessa época, Tiago nem "sonhava" em nascer. "Eu gostaria de ter vivido a juventude nesses anos, mas só se eu morasse na Inglaterra. Minha maior vontade em relação a esse período era de ter estado presente nos festivais", conta rindo. Enquanto isso, Edu Pampani trabalhava de office boy em São Paulo e usava o tempo do almoço para andar pelas ruas comprando discos em promoção. Foi então que ele iniciou o que hoje ocupa o espaço de uma sala na rua Itaúna. Os discos estão começando a ser catalogados. Sete mil foram cadastrados.

Antes de chegar a Belo Horizonte, a coleção de Pampani ‘morou' em Salvador. Lá ele montou uma loja onde só vendia discos importados usados. Segundo o colecionador, o mercado de compras de "segunda mão" era forte.

Pampani viajava pelo Brasil em busca de bandas brasileiras independentes. "Na época, quase todo estado tinha o próprio selo e a gravadora. As distribuições eram bem regionais. Não se espalhavam pelo país. Antigamente era muito mais difícil. Telefone e correio eram mais caros. Depois que eu abri a loja dessa coleção, começou a aparecer de tudo, mas era bastante filtrado", diz.

Hoje a realidade é outra. As músicas circulam em alta velocidade. E sempre em larga escala. Distância não é mais um limite. Não dá tempo de levantar para trocar o lado do disco, porque existem outros milhões de músicas esperando para serem "digeridas" a ligeiras garfadas. Também não é fácil para um artista chegar aos altos patamares dos reis da década de 70: logo aparece outro e toma os holofotes. Mas não dura muito. Logo, logo "a fila anda" novamente.

E mesmo com tanta facilidade, muitas pessoas costumam viver no saudosismo de outras épocas da música, até mesmo das que não viveram. Carlos Augusto Alves acredita que todo mundo esteja inclinado a considerar a própria juventude como a melhor. E não é por acaso que o retrô está tão em evidência em todos os aspectos da vida.

Tiago Meneses aponta outro fator: "acho que o maior mal seja a mania das pessoas de comparar o que tinha de melhor antigamente com o que tem de pior hoje. Antes também existiam músicas ruins e hoje existem boas", analisa. Talvez essa sim seja a solução da charada.

                                                                                                                                                                                  Fabrício Araújo
De acordo com Tiago, o público "da minoria" é culpado por bandas boas não aparecerem e as músicas "de povão" estarem sempre em evidência. "Muitas vezes, bandas que estão no começo, buscando espaço, fazem shows e o pessoal não vai. Infelizmente esse é o mesmo povo que vive reclamando que não tem show na sua cidade, que não há bandas legais no Brasil", avalia.

No final de maio, um festival trouxe ao município de Nova Lima o original jazz e blues de New Orleans. De acordo com a prefeitura, cerca de dez mil pessoas passaram pelo evento em cada um dos dois dias. Foram mais de vinte nomes regionais e internacionais do mundo da música improvisada. A multi-instrumentista Gunhild Carling foi um desses representantes.

Nascida em família de músicos, a história de Gunhild com as melodias começou desde muito cedo. É quase como se os instrumentos fossem partes do corpo dela. O jazz, o swing e o blues parecem circular no sangue da família Carling. De cor muito branca, como uma típica sueca, sua voz se assemelha às originais cantoras negras do blues. Quem a viu no palco de Nova Lima sentiu como se tivesse sido transportado para uma década muito longínqua.

As influências de todos os tempos são evidentes em várias das bandas atuais. O que foi criado será sempre reproduzido até que alguém consiga reinventar. No palco de uma praça que poderia ser de New Orleans, Gunhild tocou jazz, dançou swing e cantou. Soltou a voz com um megafone e fez relembrar as antigas cantoras de rádio. O festival em Nova Lima deu a certeza de que o tempo não é estático. O presente traz muito do passado e ainda dá indícios do que está por vir.


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