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Verbo

O prisioneiro do passado

por Fernanda Carvalho

Cansado de carregar o peso da vida conturbada e de ver o próprio nome vinculado ao terrorismo, o escritor Cesare Battisti busca a simplicidade, uma vida tradicional no país que ele escolheu chamar de seu (Foto: Fernanda Carvalho)

O sotaque reforça as origens italianas. No Brasil há aproximadamente oito anos, ele veio para viver no país do Carnaval, mas viu os anos passarem na monotonia, quase o tempo todo preso a sete chaves. Na Península Itálica teria sido pior. Com o futuro determinado por uma condenação, Cesare Battisti teria apenas passado pela vida: estaria para sempre atrás das grades e sem sentir o calor do sol italiano. Mas ele fugiu e, depois de residir na França e no México, atracou os pés nas terras equatoriais brasileiras para ficar.

O nome Cesare Battisti foi, por muito tempo, sinônimo de terrorista. Ele foi acusado de ter cometido quatro assassinatos na época em que era um dos membros do grupo de extrema esquerda Proletários Armados pelo Comunismo. Apesar de 70 ter sido uma década de muito terrorismo político para a história italiana, Battisti viu o próprio rosto estampado em jornais mais vezes do que qualquer ativista político italiano da época.

Pouca gente parece notar, porém, que "outro homem" surgiu de Cesare. Há cerca de vinte anos ele publica livros: são quase vinte obras. Neste ano, Battisti lançou Ao pé do muro na 3ª Bienal do Livro de Minas. Em um bate-papo com a VOX OBJETIVA, o escritor falou sobre o Brasil, os livros e sobre sua história de vida, que tanto se confunde nas narrativas que as próprias mãos redigem.

Você está lançando o livro "Ao pé do muro", que mostra realidades brasileiras sob o olhar do protagonista Augusto, um foragido internacional que vem para o Brasil em busca de proteção. Como ex-ativista político, como você enxerga o Brasil?

O Brasil é uma nação que não se pode considerar nem desenvolvida, nem menos desenvolvida; nem à frente, nem atrás. É uma nação diferente, que tem algo que eu ainda não consigo entender. E isso é o que faz com que eu grude aqui. É um país jovem que, mesmo passando por diversas dificuldades, tem um gesto de viver o drama com alegria. É um país que faz inveja a muitos outros do chamado "primeiro mundo". Hoje todos gostariam de viver aqui. O Brasil é um país que acolheu todo mundo. A história do Brasil é essa. Então o povo brasileiro está acostumado a receber, a ser tolerante, a entender e a compreender as ideias e as culturas dos outros povos. E essa tolerância não existe nos outros continentes, nos outros países. Isso é o que faz do Brasil um país bom para viver, porque cultura gera economia também. E a economia pode gerar cultura, se for uma economia justa. Este país está gerando muita cultura. É por isso que a economia está se desenvolvendo muito. Agora esperamos que isso seja distribuído para todo mundo e que não existam dois Brasis.

 Divulgação
É por esses motivos que, depois de ter se exilado na França e no México, você resolveu vir para o Brasil?

Eu vim, porque me interessava o Brasil. Eu poderia ir para outros países onde talvez não ficasse quatro anos e meio na prisão. O Brasil me interessava pela situação política e pela, digamos, indústria cultural. Claro que eu não imaginava que ia passar parte desses dez anos na cadeia.

Você não tem vontade de voltar para a Itália?

Não. Itália de jeito nenhum. Faz muito tempo que estou fora e não tenho nenhuma relação com o país. Na França, sim: tenho duas filhas lá. Sou divorciado. Voltaria à Europa para visitar, mas para viver, nunca.

Você acha que algum dia os italianos que "querem sua cabeça" vão te esquecer?

Eles não vão esquecer, porque esse é um bom pretexto para esconder outras coisas. Eu sou como uma cobertura, uma ótima cobertura para muitas coisas. Quando evidenciam o Cesare Battisti, não se fala de toda a podridão que existe no poder; não se fala da crise; não se fala da Itália que está em falência. Durante todos os anos, eles encobriram tudo: corrupção, máfia no governo, falência da economia italiana por uma administração mafiosa, operações eleitorais. É bom pegar Cesare Battisti, quando falta um mês para as eleições, né?!

Você deu uma entrevista à TV Folha na qual disse que a sua principal intenção é deixar de ser o Cesare Battisti terrorista. Você já alcançou o seu objetivo?

Estou perto de alcançar. Acho que essa mídia brasileira, a grande mídia, que foi cooptada pela Itália de maneira manifesta, flagrante, não tem mais motivos, talvez não haja mais recursos para continuar falando o que a Itália quer. Então, por exemplo, trocaram a palavra terrorista por ativista político, já se fala em livro, escritor,... Eu sou escritor há 30 anos e, quando falam de mim, falam como se a atividade política tivesse acontecido ontem. Aconteceu há 32 anos. Nesse período, eu vivi no México, na França e escrevi quase 20 livros, escrevi roteiros para filmes, fiz voluntariado de atividade social,... Eu sou isso aí. Não sou o que falaram de mim. Nunca se falou, durante essa campanha imunda, durante todo esse massacre midiático, que isso era dos anos 70. Sempre deixavam de citar esse fato importante. Não posso falar da política brasileira. Essa é uma das condições... Mas é como se falássemos das coisas da Dilma durante a ditadura como se tivessem acontecido hoje. Foi um pandemônio. O jornalismo não sabe mais o que é a ética profissional. Ele se vendeu.

Assim como você disse, na época da ditadura brasileira existiram vários movimentos, inclusive armados, de esquerda, dos quais a atual presidente fez parte. Existia alguma relação entre grupos brasileiros e os Proletários Armados pelo Comunismo?

Relação ideológica, com certeza. Porque era uma luta pela liberdade, pela igualdade e contra as autoridades e os abusos de poder. Agora organizativa não.

Após muita luta, esses grupos conseguiram chegar à liderança no Brasil, como o PT, que foi criado como um partido para representar o povo e lutar por ele. Os Proletários também conseguiram chegar ao poder na Itália assim como no Brasil?

Não. Nós perdemos e não existe mais nenhum partido, nenhuma organização, mesmo porque a organização da qual eu fazia parte não aceitava a forma de partido. Não nos considerávamos um partido. Nós não queríamos tomar o poder. Nós só queríamos abrir espaços de contrapoder; só queríamos lutar contra a corrupção e os abusos. Mas perdemos. Ainda estamos pagando, porque existem presos políticos na Itália, mesmo tendo se passado 40 anos. Não sei quem disse que não tem nada pior para um revolucionário do que tomar o poder. O revolucionário que toma o poder começa a ser reacionário. Então nós perdemos sim. Mas ficamos revolucionários, né?!

Na época em que Lula negou a sua extradição para a Itália, especialistas em relações internacionais afirmaram que o país só tinha a perder. Por que você acha que o Lula resolveu acolher você?

O Lula cumpriu o seu governo. Ele não deu presente a ninguém. Não nos conhecemos. Com certeza, não compartilhamos os mesmos ideais. O Lula era, e ainda é, eu acho, um grande estadista, um "animal político", uma espécie que está desaparecendo. Ele é um estadista que tomou uma decisão que pode ser impopular. Mas ele não arriscou nada. Ninguém poderia dizer que ele tomou uma decisão errada. Mas ele pode, com provas na mão, dizer que tomou uma decisão justa. O Lula se informou, mandou pessoas para se informar. Ele sabe que eu sou um militante político e que na Itália existiu uma guerrilha. O Lula não é bobo. E ele não correu nenhum risco. Podem passar mil anos e ninguém vai conseguir provar que o Lula tomou uma decisão errada. Quem tomou a decisão errada foi o STF, quando tirou o recurso político. O Supremo invadiu o Poder Executivo e quebrou uma norma constitucional...

Voltando aos seus trabalhos, o que seus livros representam para você?

Sem livros eu não tinha o que tenho. São uma forma de continuar a luta, um combate por meio da crítica, de sublimar o desejo de ação, os ressentimentos, as ilusões. É um pretexto para denunciar injustiças, inverdades. É um sonho e uma maneira de continuar sonhando, sem passar pela cadeia.

Seus livros parecem um tanto quanto autobiográficos. Por que dar nomes a personagens que "são você"?

Porque eu escrevo romances, e todo escritor sempre escreve só um livro, continua escrevendo o mesmo livro e está sempre falando dele mesmo. Ele inventa a história, mas o tema é sempre o mesmo. Um autor honesto para de escrever quando acha que escreveu O livro, que escreveu, enfim, o que queria dizer. Eu ainda não fiz O livro. Vou continuar a escrever. Mas é claro que a ficção é um recurso para diluir a realidade. Se você faz um romance escrevendo sobre a realidade tal como é, não é um bom romance, porque a realidade é tão forte que ninguém quer engolir.

Qual é a sua intenção a partir de agora? Já tem alguma nova história em mente?

Minha principal preocupação é me integrar com as ideias, com as imagens, as expressões, o jeito, o jeitinho do povo daqui. Por exemplo: eu começo a sonhar que teria que escrever, eu não diria em português, diria em brasileiro mesmo. Quero escrever sim. Há ideias, mas não vou desenvolver isso antes de estar certo do que estou dizendo exatamente e de saber por que gosto deste país, de saber por que há pessoas que têm um charme particular, uma coisa nos olhos, uma expressão. Não é fácil escrever sobre esse mistério. Você pode parecer muito fútil, superficial, como um turista que diz: "Ah, que bonito!". Para não cair nisso, estou dando um tempo.

Como você enxerga o seu futuro?

(Risos) O meu futuro? Nesse momento da minha vida a única coisa que passa pela minha cabeça é me casar (risos). Quero ter filhos, formar uma família,...

E isso tudo no Brasil?

Sim, claro! Não quero sair daqui de jeito nenhum. Nem se me dessem a cidadania japonesa. (risos).

 


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