Buscar

Capa

O "mito" da monogamia

por Bianca Nazaré

Militantes do amor e do sexo livre, os poliamoristas defendem o direito de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo (Foto: Shutterstock)

Cadinho expõe uma questão que choca e gera sofrimento ainda hoje no Ocidente: amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo e não poder viver essa experiência. O personagem do ator Alexandre Borges vive com duas mulheres concomitantemente, sem que elas saibam, e dá umas "escapulidas" com a amante Aléxia (Carolina Ferraz). É difícil esquematizar a convivência mútua com Verônica (Débora Bloch) e Noêmia (Camila Morgado), as oficiais. Para estar com a segunda, Cadinho sempre arruma uma viagem a trabalho para justificar a ausência da casa da primeira. É um verdadeiro sufoco.

Para o escritor e criador das cenas do mulherengo de Avenida Brasil, Antonio Prata, o personagem não é um cafajeste total. "O Cadinho sofre muito na mão daquelas mulheres para satisfazê-las. A gente falava, eu e o João (Emanuel Carneiro, criador da novela), que Cadinho não é um cara poligâmico e sim apaixonado pela monogamia. Tão apaixonado que repetiu três vezes", brinca o colaborador da novela, que vai ao ar na Rede Globo.

Apesar da polêmica, Prata acredita que amar três mulheres ao mesmo tempo seja coisa de novela. "Acredito que esse personagem não seja nada realista. Se fosse, esse cara seria um cafajeste: tem duas famílias, e uma não sabe da outra. Mas todo mundo entende que é brincadeirinha".

Ao contrário do que pensa o escritor, mesmo com humor, Cadinho ilustra um dilema real, muitas vezes silenciado. O problema é tão presente que inspirou a pesquisa orientada pela psicóloga e professora Noely Montes Moraes. Estudo que gerou o livro É possível amar duas pessoas ao mesmo tempo? A resposta à pergunta é sim. É possível. "Mas se relacionar depende, porque vivemos numa sociedade monogâmica, embora hipócrita. Relacionar-se com mais de uma pessoa traz uma carga imensa de sofrimento para todos, a menos que se tratem de canalhas ou cínicos. Então isso não dá direito à poligamia. Não somos escravos de nossos desejos e necessidades", completa a pesquisadora da PUC de São Paulo.

 Carlos Latuff

Os poliamoristas contestam o casamento como instituição válida


Conhecida por levantar a bandeira do amor livre no Brasil, a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins concorda com Moraes sobre a possibilidade de amar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo. Discorda, contudo, da afirmação de que esse amor não daria direito à poligamia. "Um dos pressupostos mais universalmente aceitos em nossa sociedade é o de que o casal monogâmico seja a única estrutura válida de relacionamento sexual humano. Entretanto, as sociedades que adotam a monogamia têm dificuldades para comprovar que ela funciona. Pelo contrário. Parece haver grandes evidências, expressas pelas altas taxas de relações extraconjugais, de que a monogamia não funciona muito bem para os ocidentais", rebate Lins.

A psicanalista concluiu, após anos de estudos e consultas, que aqueles que abandonam o casamento para seguir um novo amor, acabam seguindo o mesmo modelo de relacionamento. O sofrimento causado ocorreria porque, quando se depara com a "traição" do marido ou da esposa, o ser humano sente que falhou ou que o companheiro não compartilha o amor de antes. Isso é um erro e uma mentalidade herdada do século XII, época do surgimento do amor romântico - o amor cortês impossível e idealizado no Ocidente -, segundo a autora de A cama na varanda e de dez outros livros sobre relacionamento e sexualidade.

VIVENDO O AMOR

No mundo todo, cresce o número de indivíduos seguindo em sentido oposto ao dos costumes, assumindo afeição por diversas pessoas ao mesmo tempo. Essa mudança na sociedade ganha força com a bandeira levantada por alguns movimentos, como o poliamor. Ainda que temerosos pela exposição da própria imagem e de seus companheiros, é possível encontrar indivíduos satisfeitos com relacionamentos múltiplos, como a filósofa e estudante de psicologia Silvia, 36 anos.

Silvia viveu com uma pessoa durante dez anos, mas sempre teve que abafar a atração
por outros homens, amando-os platonicamente. Ela terminou o namoro após conhecer outra pessoa e não conseguir se afastar dela. Chegou a propor uma relação a três, mas eles não aceitaram. Então ela investiu no novo amor.

Com o segundo companheiro, houve os mesmos problemas: ciúmes e traições. Até que, novamente, conheceu alguém que a abalou, mas complemente diferente dos outros. "Assim que conheci o Leandro, nós nos apaixonamos. Disse a ele que me separaria por vontade própria e, se fôssemos ficar juntos, eu nunca mais repetiria os moldes de relacionamento. Ele sempre teve uma cabeça muito aberta e uma autoestima absurda. Essas duas coisas foram essenciais para o caminho que começamos a trilhar. Então, desde o início, eu sempre tive liberdade para me envolver
com outras pessoas e ele também. Mas nada é simples, claro".

Com o tempo, Silvia foi abrindo para Leandro a possibilidade de arrumar outro namorado, já que o companheiro viajava muito. Vencido o ciúme do início e juntando o acaso, a filósofa conheceu o carioca Frederico num show em Belo Horizonte, em setembro do ano passado. Durante um mês, os dois mantiveram contato por MSN. "Eu deixava claro para o Frederico que amava o Leandro e deixava claro para o Leandro que estava começando a gostar de outra pessoa. Eles ficaram amigos de Facebook, antes mesmo do meu reencontro com Frederico. Isso foi tornando a coisa mais leve".

A terceira visita de Frederico à Belo Horizonte selou o começo do triângulo amoroso. Foi o momento em que os rapazes se dedicaram a conhecer um ao outro. Segundo Silvia, tudo aconteceu naturalmente, devido à honestidade com que enfrentaram a situação. "Isso os deixa seguros de que nunca vou mentir para eles. Já passamos por cada coisa! Quase terminei com um e chorei no colo do outro. Tive discussão com um,
e o segundo defendeu não a mim, mas o primeiro", lembra.

Leandro e Frederico se tratam com cordialidade, e os encontros públicos ocorrem com naturalidade. "É engraçado quando um diz ‘amor, pega isso pra mim'. E o outro diz ‘eu também quero, pega para mim também, amor'. Em janeiro, Frederico passou parte das férias aqui, antes e depois de irmos a Porto Alegre. Esse foi o período em que convivemos os três por mais tempo em casa", conta Silvia.

RELACIONAMENTO HONESTO

A história de amor de Silvia se enquadra na filosofia de vida dos chamados poliamoristas ou poliamantes. O movimento cresce desde a década de 80 e vem se fortalecendo no Brasil com o grupo de discussões paulista Pratique Poliamor Brasil (poliamorbrasil.org) e mais radicalmente com a Rede Relações Livres (rederelacoeslivres.wordpress.com), em Porto Alegre.

Poliamor não é relacionamento aberto. Os poliamoristas permitem que o companheiro tenha relacionamentos concomitantes, caso se apaixone por outras pessoas - desde que haja honestidade mútua. Como a honestidade sugere, a fidelidade entre eles está implícita, ou melhor, polifidelidade. Mas isso não impede a possibilidade de os companheiros terem outras relações sexuais esporádicas e responsáveis.

Um dos argumentos da filosofia é que o amor não deve excluir o mundo. A crença de que um indivíduo vai amar somente uma pessoa pelo resto da vida é algo impossível para a ideologia. Para eles, um segundo amor não anula o primeiro, assim como um segundo filho não acaba com o amor dos pais pelo primeiro. Todos são amados igualmente. Os poliamoristas não aceitam o ciúme como norteador da relação. Em vez disso, sentem-se satisfeitos de verem seus companheiros amando ou sendo amados por outras pessoas. Essa sensação de contentamento é chamada de compersion, expressão que pode ser entendida como regozijo ou comprazer.

O que marca os poliamoristas não é somente o fato de se relacionarem com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, mas a contestação de várias regras que constituem o sistema ocidental: as regras patriarcais, cristãs e monogâmicas.

"Desde o meu primeiro relacionamento sério, eu ficava entre duas pessoas. Era muito doloroso. Eu sentia que estava fazendo algo errado. Hoje em dia, quando olho para trás, percebo que sempre tive essa natureza não monogâmica. Mas eu ainda não sabia do poliamor", desabafa a estudante de Design Gráfico, Vanessa, 23 anos.

Após ouvir que não tinha talento para a monogamia, impressionada, Vanessa resolveu pesquisar sobre o assunto. "Vi que fazia sentido e que eu não era anormal e promíscua. É natural você sentir atração e afeto por várias pessoas ao mesmo tempo". Vanessa namora Vinícius (nome fictício), 20, há dois anos. Desde o início do relacionamento, ela expôs para o companheiro as próprias necessidades afetivas.

Com o tempo, os dois foram criando regras para orientar o envolvimento. Hoje o casal não segue a maioria dos "protocolos", como aliança, data de namoro, além de abolirem o ciúme. Vanessa e Vinícius não se sentem obrigados a fazer tudo juntos. "Temos liberdade para ficar com outras pessoas por pura atração. Podemos escolher. É a vida, a liberdade e são as experiências dele. Eu o amo. Não quero nem posso privá-lo daquilo que o faça feliz e que pode fazê-lo crescer. Isso é recíproco. Relacionamento começa com respeito, e respeito à liberdade é fundamental".

No final de 2010, Vanessa conheceu, pela internet, a banda italiana Dead Channel que, por acaso, é militante do poliamor. Atraída pelo som e pelos ideais do grupo, a estudante iniciou contato com o vocalista Milo Silvestro. "Começamos a conversar sobre um trabalho de faculdade, mas depois ficamos amigos. Aprendi mais sobre o poliamor. Ele dizia que não havia meninas como eu por lá. Conversávamos todos os dias, até que ficou tarde para negar que estávamos apaixonados. Claro que eu conversei com meu namorado. No começo, ele achava muito louco e ficou com ciúme, mas essa fase já passou. Agora namoramos à distância. Fazer o quê?! Procuramos conversar todos os dias e nos vemos por Skype sempre que dá".

Em julho, Silvestro vem a Belo Horizonte conhecer Vanessa e o companheiro dela. Ele aproveita para fugir de Roma, coração do cristianismo. "A Itália é um dos países mais conservadores e católicos. Isso tem efeitos ruins sobre o social. Mesmo os não católicos têm uma mentalidade conservadora e clichê. Na verdade, eu nunca encontrei uma pessoa com os ideais do poliamor por aqui", confessa o músico de 24 anos.

Milo Silvestro / Arquivo Pessoal                                                          
Devido às poucas perspectivas de trabalho, cultura e relacionamentos que se encaixem naquilo que procura, Milo não vê razões para se prender ao país de origem. "Eu notei que há um grande movimento do poliamor no Brasil. Estou tão maravilhado que planejo passo a passo minha ida definitiva para o Brasil a fim de viver com Vanessa e Vinícius e construirmos a família que sempre sonhamos", planeja.

Daniel Cardoso vive uma relação poliamorosa mais avançada. O professor universitário português, de 25 anos, mora em Lisboa e vive há oito anos com Sofia. Há dois anos ele conheceu Inês. Atualmente Cardoso mora com a primeira companheira, mas o trio está prestes a morar junto em uma nova casa. Cada um terá o próprio quarto.

O português começou a contestar a monogamia após ler o livro de Robert Heinlein, Um estranho numa terra estranha. "A ideia de poder viver uma relação não possessiva e não monogâmica fez sentido àquela altura e foi algo que foi discutido entre mim e a pessoa por quem me interessei e que viria a ser minha atual companheira", explica o lusitano.

CASAMENTO

É consenso entre os militantes da nova filosofia do amor a ideia de que o casamento é uma instituição imposta pela sociedade e pela religião. Portanto, são contra. No entanto, eles pretendem formar uma família com múltiplos parceiros e filhos. Em 2006, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul reconheceu o relacionamento entre um homem casado há mais de 30 anos e outra mulher com quem manteve união estável durante 16 anos. Aparentemente a esposa era amiga da concubina.

Apesar de não ser a luta dos poliamantes no momento, esse precedente da Justiça gera discussões. "Se for oficializar o casamento poliamoroso, pode ser que eu me case. Quero que meus filhos saibam que têm dois pais sim", conta Vanessa. Os filhos são outra questão envolvida na relação múltipla. A psicanalista Regina Navarro Lins reforça que crianças com mais pais e mães ganham mais cuidados e têm menos risco de se sentirem abandonadas, caso alguém deixe a família.

A filósofa Silvia acredita que a luta política pela legalização do casamento poliamoroso seja válida. "Mais que isso: temos que pensar no modelo de casamento que temos: institucionalizado e corroborado por toda uma série de valores morais monogâmicos e patriarcais. É por essas e outras que nunca me casei e nunca vou me casar", completa.

O juiz Pablo Stolze admite que o poliamor seja um tema controverso na jurisprudência. Professor da Universidade Federal da Bahia, Stolze é coautor do Novo Curso de Direito Civil. O jurista avançou na discussão, porém, ainda está restrito às questões sobre os direitos de amantes que contribuem para o crescimento do patrimônio do companheiro.
                                                                                                                                                Inês Rôlo Martins
Contudo, Stolze acha difícil que o casamento entre mais de duas pessoas seja aprovado, porque "a monogamia é uma característica marcante do nosso sistema". Mas o professor defende que o Direito não deve restringir as famílias. "As leis devem acompanhar os valores por que se pauta a sociedade. Por isso, boas leis matrimoniais pressupõem o esperado respeito à dimensão existencial do indivíduo, ou seja, à própria dignidade humana".

Pensando o futuro, o português Daniel Cardoso imagina que talvez os relacionamentos sejam mais incertos, porém menos ligados às categorias e mais fluidos. "Parafraseando Gayle Rubin, é preciso começar a olhar para a forma como as pessoas tratam umas às outras, e não para aquilo que fazem de específico", conclui.


Outras notícias

» Forças renovadas » A tal felicidade » Estendendo a mão » Vai começar a festa! » O mentor
Vox Objetiva

© 2012 Vox Objetiva e seus colaboradores. Todos os direitos reservados.
É expressamente proibida a cópia ou reprodução do conteúdo do site sem autorização.

Lazuli Studio