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Verbo

Tempos difíceis

por Bianca Nazaré

Filósofo e professor de comunicação Wilson Gomes analisa reflexos de escândalos, como o mensalão” e o caso Cachoeira na política, imprensa e democracia

O Brasil vive uma era de explosões de escândalos políticos na imprensa. Os casos mais arcantes da história recente são o julgamento do "mensalão" no Supremo Tribunal Federal previsto para o dia 2 de agosto e a CPI do Cachoeira, que culminou na cassação do Senador Demóstenes Torres/GO. A comissão parlamentar tem escancarado as práticas de políticos que trabalharam em favor dos interesses do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Com grande repercussão, esses eventos inevitavelmente transformam o cotidiano democrático.

Nesse sentido, a imprensa se tornou uma grande aliada da sociedade. Porém, como fica a população diante dos bombardeios de escândalos nas páginas impressas e em noticiários de rádio e telejornais?

Há mais de 20 anos, o pesquisador de comunicação e política da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Wilson Gomes estuda o papel da imprensa na democracia. Em entrevista à Vox Objetiva, o professor e doutor em filosofia pela Universitas a Scte. Thomae, de Roma, e graduado em Comunicação e Culturas Contemporâneas pela UFBA analisa os últimos escândalos políticos que estouraram na imprensa. Wilson explica os fatores envolvidos em vazamentos de informações políticas. Segundo ele, esses fatores fazem parte do jogo político corriqueiro.

O senhor tem uma visão polêmica sobre a política e a imprensa. Como o senhor chegou às conclusões que geraram o livro "Transformações da política na era da comunicação de massa", que virou referência para estudantes de comunicação e sociólogos?

Eu tenho uma formação que não é tipicamente da comunicação. Eu venho da filosofia. Fiz minha formação em antropologia e depois graduação e doutorado em filosofia. Daí eu entrei na área de comunicação. O material que está publicado ali no "Transformações da política na era da comunicação de massa" foi gestado durante mais ou menos uma década. Já fazem quase duas décadas de discussão com a área. Eu entrei na especialidade do campo da comunicação e política no Brasil ainda no começo dessa área no Brasil. Então, o livro reflete as discussões, os temas, as inquietações, mas com o amadurecimento de um lago de uma década. De fato, na minha opinião, ajudou bastante a corrigir os meus pontos de vista e coisas assim.

O senhor tinha alguma relação direta com a política?

Com o campo, especificamente político, eu não tinha. A política sempre foi objeto da minha preocupação, particularmente com a filosofia. Depois disso, com a comunicação política em geral de todos os pontos de vista: normativo, ética da comunicação política e questões relacionadas à comunicação política e democracia. São questões que me impactaram principalmente. Depois comecei a discutir questões relacionadas à lógica da comunicação mediada pela política.

O senhor afirma que os pesquisadores teriam certa timidez na análise e interpretação do jogo político regular, particularmente no que tange à política de negociações. Por que? Você acredita que essa visão dos pesquisadores influenciaria a visão que a esfera civil brasileira tem da política atual?

É difícil dizer, mas certamente. Eu acho que há de fato uma perspectiva mais antiga, que exagera o lugar da comunicação, sobretudo, concebendo demais a comunicação e de menos a política. A política seria alguma coisa que veio a reboque das gramáticas e das lógicas da nova comunicação de massa. Essa posição mudou um pouco. Dificilmente, no campo específico de pesquisa da comunicação e política existam autores que sustentem essa posição. Embora ainda haja autores que são de outros campos e não sabem como lidar com a comunicação para avaliá-la corretamente. Ou pessoas na política pensando que a comunicação manipula tudo, organiza tudo etc. Primeiro, eu acho que na política se é muito astuto, muito antigo para se deixar dominar pelos meios da sua própria comunicação.

A política se comunicou e se transmitiu por muitos meios antes da comunicação de massa, antes da televisão, que é normalmente o que se pensa. Até pouco tempo atrás, quando se pensava comunicação de massa, antes da internet que é o novo conjunto de dispositivos que desafiam a televisão. A política existiu e sobreviveu às várias intermediações. Não poderia simplesmente se tornar uma coisinha a reboque dos instrumentos de comunicação. A hipótese que o meio é a mensagem é só um exagero, uma hipérbole. Na verdade não é bem assim.

As práticas que senhor diz fazer parte do jogo político, como as alianças, barganhas e outras formas de repartição e exercício do poder seriam legítimas?

Eu acho que sim. Tem muita gente que vive de política, fala da política, mas no fundo no fundo quer tirar da política aquilo que é o específico da política, que é a competição, que é essa disputa agonística por imposição de poder, por imposição de agendas ou por formulações de problemas sociais.

É isso que constitui a política. É preciso levar isso em consideração. O que não significa que a barganha, a competição, a negociação sejam uma espécie de vale-tudo, que não se possa admitir um ponto de vista moral. Se pode admitir um ponto de vista moral sobre isso. Seja esse ponto de vista normativo proveniente da ética ou até da própria noção de democracia. Mas isso não nos impede de entender que a competição e o teor agonístico faz parte da política, necessariamente.

O senhor diz no livro "Transformações da política na era da comunicação de massa" que a repartição do poder executivo para o legislativo e os loteamentos de cargos são eficientes para o sistema brasileiro. Por que e para quem essas partilhas seriam eficientes? Seria para o parlamentar ou para a governabilidade?

São duas questões polêmicas e temos de tratá-las separadamente. Uma coisa são certos hábitos que existem no Brasil que findam na coalizão. É quando os poderes executivos são exercidos por partidos que não têm maioria parlamentar e que, portanto, precisam produzir alianças. Esse é um dispositivo que inventamos. Consiste na transferência de parte do poder executivo para o legislativo. De alguma maneira, o papel parlamentar de produção de leis é outorgado ao executivo. Então o governo legisla, mas, para isso, deixa o legislativo participar do poder executivo. Isso por meio de cargos distribuídos, emendas parlamentares aprovadas, etc. Essa barganha pode ser eficiente para evitar impasses nocivos ao próprio exercício do governo.

Mas pode ser complicado. Veja o caso recente do Paraguai. De repente, se alguém governa com quatro votos favoráveis, ele não governa. Se fosse o sistema parlamentarista, era óbvio que esse governante não estaria mais governando, porque alguém teria votado a moção de desconfiança. O governo teria caído, e ter-se-ia formado um novo governo ou parlamento. No caso do regime presidencialista, esse desdobramento não é possível. Temos intervalos de quatro, seis anos, etc.

Então governos muito fracos permanecem no poder. Uma forma de evitar um "zumbi" no poder é justamente a negociação política. Esse é um elemento de eficácia do próprio sistema. É fato. Se isso tem também problemas morais? Pode ter. Pode acontecer de executivos governarem sem ter nenhuma oposição. Ora, a oposição é um valor democrático importante. É a possibilidade de divergência sobre quem governa.

Então o senhor acredita que a oposição ferrenha é importante para a democracia?

A oposição é importante e diz respeito ao fato de que as pessoas livremente podem escolher dar o executivo a um partido e dar o legislativo a outros partidos, por exemplo. De maneira que ninguém tenha o controle total do poder. É uma possibilidade. O que obriga o executivo a negociar com o legislativo ou com a oposição, por exemplo. O fato é que a existência da oposição pode significar - e deve significar - a existência do pluralismo, da diversidade de opiniões políticas e da possibilidade da divergência claramente explicitada. O que é bom para a democracia.

Ter posições divergentes para não corrermos o risco de termos uma espécie de déspota eleito, que governa com maiorias absolutas e desconhecendo totalmente as posições alternativas durante o período do seu mandato. Isso não é vantajoso para ninguém. Pode acontecer de o executivo praticamente devorar o legislativo. Tenha alianças tão grandes, tão grandes que a oposição não exista. Como pode acontecer de a oposição ferrenha e gigantesca impeça alguém de governar. Nenhuma das duas posições é a melhor solução.

O senhor acredita ser possível hoje, no Brasil, que o governo tente convencer uma oposição por meio de disputas argumentativas? Somente com isso seria possível governar?

Não. Realisticamente não é possível fazer só com isso. Acho que isso faz parte daqueles elementos desejáveis do ponto de vista da democracia e da saúde democrática da nossa sociedade e do ponto de vista, digamos, das vantagens para a esfera civil. O suposto é que governos tenham posições e dispute argumentativamente no plenário. Porque se a posição é boa deve ser possível sustentá-la argumentativamente. De qualquer maneira, ritualmente, não é possível eliminar isso. Toda democracia liberal, todo estado governamentativo é montado a partir dessa ideia da deliberação pública, da discussão.

Existe plenário, existe um tempo de discussão previsto, existe espaço para divergência imposta etc. Então, espera-se que esse seja o cotidiano democrático. A armação de acordo de gabinete, o toma lá, da cá não é previsto, embora se pratique. Na verdade existe o desideratum (aspiração) democrático de um lado, normativo, que é importante ter em vista, e o realismo da prática política. O lado que também não pode deixar de ser visto. É dessa massa que se faz a política rotineiramente. A questão é garantir que mecanismos realistas ao mesmo tempo incluam uma dimensão normativa e sejam regidos por dimensões realistas e não simplesmente pelo vale-tudo cotidiano.

O senhor chama algumas práticas de corrupção e depois de negociação. Quais seriam as diferenças básicas entre corrupção e negociação?

O básico é, digamos, o território da moral. Há corrupção quando se viola uma norma moral. Uma coisa que não poderia ser feita, por exemplo, em troca de algum benefício, de algum lucro privado. Se eu faço apadrinhamentos políticos, se eu transfiro a minha convicção política ou meu voto, por exemplo. Se eu submeto a produção de políticas ou apoio políticas por vantagens pecuniárias, afetivas ou de qualquer outra natureza, para mim ou para os meus, isso é corrupção. Quer dizer, há um indevido aqui que não seria feito e não aconteceria se fosse publicado, ou divulgado. Agora, não necessariamente a negociação política precisa ser no padrão da corrupção.

A negociação política pode significar, por exemplo, a troca de apoios recíprocos a pontos de vista legítimos do campo. Então, se um partido oferece apoio político a outro partido, por exemplo, em troca de assimilação de certas políticas, isso não é corrupção. Isso faz parte da negociação política legítima. Se por outro lado, o apoio político é para poder ganhar dinheiro ou outras recompensas isso está no nível da corrupção.

O senhor chama de arte a aquisição de apoio parlamentar. Entrando novamente na questão da corrupção, onde está a linha que divide a arte de atrair aliados e a corrupção?

A arte, nesse sentido, é muito mais o artifício. O ponto é sempre esse. Thompson, se eu não me engano, define a corrupção como sendo uma conduta inapropriada. Você pode fazer um teste sobre se uma coisa é válida ou não. Não é válida aquela coisa que se você for divulgar antes e ninguém tolerar é porque você não deveria fazer. Não necessariamente este teste que eu proponho elimina o valor estratégico do comportamento. Estou me referindo, sobretudo, àquelas coisas que você sabe que não haveria uma aprovação popular se você fizesse. Por exemplo, se alguém dizer assim "eu negociei com outro partido porque o outro partido me prometeu apoio para, sei lá, aumentar o comprometimento da verba pública com a educação, então, eu segurei essa agenda, que era importante, defendi e prometi dar apoio do meu partido para isso".

Tenha certeza que se isso fosse divulgado antes, a prescindir o valor estratégico que naturalmente se perderia, não haveria reprovação porque isso faz parte do planejamento político. Você sustenta agendas, você defende pontos de vistas e você pode negociar pontos de vistas por convicção com relação ao outro e até por troca de apoio. Isso é legítimo. A outra coisa é quando se trata do ilegítimo. Aquilo que se as outras pessoas soubessem antes você não faria. Você não teria coragem de fazer ou porque é crime e, mesmo se não fosse crime, porque é imoral. Aí você percebe a diferença. Sei que é muito difícil perceber isso para algumas consciências, mas, na prática, nós percebemos a diferença entre aquilo que é indevido, inapropriado, aquilo que você não faria se todo mundo soubesse e aquilo que é devido e apropriado porque faz parte do teor competitivo da política e faz parte do jogo político normal.

Uma das interpretações do aparecimento do escândalo do "mensalão" na mídia é que esse vazamento pode ter sido uma jogada de adversários políticos dos petistas, devido ao forte apoio popular que o governo tinha na época. O que o senhor pensa em relação a isso?

Há muita coisa em jogo. Todas as hipóteses podem estar certas e podemos acrescentar outras. Mas a escandalização como tática e como parte do jogo político é coisa que se conhece desde sempre. E consiste justamente em mostrar como o comportamento do outro é delituoso e inapropriado. É uma forma de luta por produção de imagem negativa. Isso faz parte do jogo político. Não é o jogo político mais bonito, mas faz parte. Luta-se em política pela imagem própria e contra a do adversário certamente.

As CPIs dos Correios e do Mensalão e, mais recentemente, a CPI do Cachoeira chamaram muito a atenção da imprensa. O senhor afirma no livro que a criação de CPIs também estaria na ordem de um escândalo político, que seria alimentar os jornais e produzir peças de exposição a quem governa. Como o senhor avalia essas CPIs?

CPI é um tema que merecia umas pesquisinhas aprofundadas no Brasil, mas precisamos de pesquisadores mais maduros. Eu acho que há duas coisas importantes hoje em tempos de política midiática: visibilidade pública e imagem pública. São duas das commodities básicas para fazer política hoje. O indivíduo precisa conseguir o máximo de visibilidade, mas não tem visibilidade para todo mundo. Então cada um precisa lutar por um bem escasso. A outra coisa é a imagem. Ele precisa de imagem positiva e que a do outro seja negativa. E se o outro tiver uma boa imagem, que tenha menos visibilidade. Então CPIs e escândalos devem ser lidos nesse contexto. Por isso, são muito preciosos.

Arquivo pessoal
Por que o parlamentar luta tanto para impor uma CPI enquanto o governo a evita?

Primeiro, porque governos executivos têm uma cota de visibilidade assegurada e é sempre maior do que a cota do legislativo. Então certas centrais do governo têm sempre visibilidade assegurada pelo modo da produção do jornalismo, que depende muito da autoridade para dar declarações, explicações,... Segundo, porque o legislativo tem visibilidade pequena. Três minutos no principal jornal nacional, por exemplo. Para ocupar esse tempo, o legislativo precisa produzir espaços de visibilidade. Uma das formas de fazer isso é com as CPIs, que puxam as cotas de visibilidade para o legislativo, já que as comissões são parlamentares; acontecem no legislativo.

Esse momento é uma luta por holofotes. Com os escândalos também acontece isso. Os escândalos do executivo são bons para o legislativo, porque aparecem os líderes da oposição, por exemplo, comentando, indicando, distribuindo as suas sonoras mais duras que enchem o jornalismo. Então é um jogo por duas commodities: tanto no caso dos escândalos quanto no das CPIs.

Trechos do seu livro ilustram bastante o que está acontecendo na política brasileira. O senhor afirma que as negociações políticas são práticas em que os agentes da política exercitam sua máxima maestria e profissionalismo e onde a esfera civil não tem nem lugar e nem competência. O cidadão comum não compreende o funcionamento da política em si? Isso se estenderia para as empresas de comunicação com os jornalistas políticos?

Eu acho que há muita gente que entende bastante como funciona o jogo político. Pode até não curtir. Como se diz no facebook: não curte, mas compartilha. Quer dizer, tem informação sobre isso, sabe avaliar bem as coisas. Agora, tem uma parte da arte política, da articulação, da negociação que é uma arte profissional. Uma característica da sociedade moderna é a especialização. Eu me especializei em ser professor, você em ser jornalista e os caras lá em ser políticos.

Não podemos nem trocar de papeis porque exige conhecimento, exige uma maestria sobre determinados recursos e práticas. Mesmo no campo político há diferentes habilidades. Pessoas que têm mais disso, outras que têm mais daquilo. Há bons negociadores que não são bons formuladores de políticas, não são bons para se relacionar com o público e produzir imagem. Então, há habilidades diferentes, mas a especialização é característica da modernidade.

Você está falando sobre habilidades que fazem parte das negociações políticas que não estão envolvidas com a imagem do político, com o que chega ao conhecimento da esfera civil?

Política não é só comunicação. Tem que ter habilidade para construir alianças, para construir acordos, para gestar esses acordos. A pessoa tem que ter capacidade para influenciar outras pessoas no próprio sistema político. Ter carisma, ter liderança. Tem pessoas que não sabem fazer isso. Outros são bons formuladores de políticas, bolam excelentes políticas e ideologias. Há outros que são ótimos comunicadores. Então, existem muitas habilidade. Todas que estão relacionadas aqui entram naquilo que é a prática da política.

Política não tem só uma face para fora, na relação com o cidadão. Ela tem outra face para dentro, no interior do próprio sistema político. Então, pode haver políticos virtuosíssimos, mas incompetentes enquanto políticos porque não sabem jogar. Há outros que praticamente não se elegem porque têm poucos votos, mas são raposas políticas com grande habilidade de construir coisas até legais, por exemplo. Então é preciso reconhecer o conjunto de habilidades que são necessárias à política para podermos distinguir aquilo que nós sabemos fazer e aquilo que os sujeitos lá, que são profissionais, fazem.

O senhor mesmo questiona como, então, poderíamos encontrar uma conexão entre as negociações da esfera política e a esfera civil. Como o senhor simplificaria a resposta a essa pergunta?

Eu acho que se pode fazer isso através de um conjunto de coisas que são básicas em democracia, que é com o aumento das taxas de constrangimento sobre a conduta política. Com os aumentos dos constrangimentos você precisa aumentar a visibilidade. Então, quanto mais os acordos são publicados, as negociações vêm à tona e são exibidas. Ou seja, eu me comporto de tal maneira apenas porque eu sei que se as pessoas me virem me comportando assim elas vão me punir. Então, é por questão de sanção social. Eu acho que um dos grandes benefícios que o jornalismo pode prestar à democracia é, senão tornar as pessoas mais virtuosas, pelo menos aumentar o custo da punição pelo comportamento vicioso.

Então, quanto mais você mostra o que os políticos fazem, as combinações, mais você vai valorizar os comportamentos políticos que, de alguma maneira, levam em consideração a esfera civil e o interesse público e mais você vai poder aplicar sanções àqueles que se comportem mal. Embora muitos achem que excesso de escândalos na cobertura seja um mal em si. Eu penso que não. Quanto mais você mostra isso, mais você permite o aumento do poder relativo do cidadão para punir os sujeitos que se comportam mal e para recompensar os sujeitos que se comportam bem.

O senhor afirma que a administração da imagem do político acontece de forma conveniente, que seria por meio de vazamentos de informações ou por meio de compromissos com jornalistas. Esses compromissos com jornalistas seriam por exclusividade de informações ou por compromissos financeiros?

Pode ser de tudo, não é? Eu acho que o mais comum e o que mais vem acontecendo é aquele jogo de conveniências entre fontes e jornalistas. O jornalismo precisa do político para produzir notícias. E o jornalismo pode oferecer, em contrapartida, um nível de proteção ou pelo menos de não exposição. Então há casos sim de certa conveniência entre jornalista e político. Mas, isso está no nível do defeito do sistema. É questão das vantagens e conveniências recíprocas entre os dois sistemas. Muito frequentemente jornalistas protegem certas figuras. Dizem que o ACM ( Antonio Carlos Magalhães) era especialista em conseguir esse jogo aí. É muito difícil você ter informações exclusivas de uma fonte autorizada, bem informada.

Foi a revista Veja que revelou o caso do "mensalão", em 2005. Segundo gravações da Polícia Federal, o jornalista que escreveu a matéria, Policarpo Júnior, tem relações com Carlinhos Cachoeira. Antônio Pagot, demitido do Dnit, teria sido alvo de denúncias, primeiramente na Veja, a mando de Cachoeira...

Eu não defendo uma teoria paranóica contra a Veja. Eu acho que formaram uma espécie de "Veja é a nova Globo". Eu vivi a paranóia antiGlobo por um longo tempo. De fato, a emissora se comportava mal em relação ao governo militar. Grande parte dessa conduta ocorreu por causa da inércia que se via em qualquer ato do Jornal Nacional. Um esforço de conspiração contra a democracia ou contra os partidos de esquerda que frequentemente não se provava à Análise de Conteúdo (pesquisa em comunicação). Hoje é a Veja. Eu não tenho certeza, mas quando eu vejo um grupo social, como a esquerda, apontando "é o lobo, é o lobo" para a Veja, eu tendo a não gostar dessa massificação de ideias.

A Veja é uma revista de posição política contrária à do PT. Essa posição se verificou desde o início do governo, quando o PT começou a ganhar as eleições presidenciais. E já antes disso... É uma posição estabelecida. Faz parte da natureza a que a revista se prestou.

A Veja é muito seletiva. Eu acho que esse fator faz as pessoas perderem a situação um pouco de vista. Aliás, é bom que se diga: ultimamente o jornalismo investigativo no Brasil tem sido basicamente um jornalismo de vazamento. Ninguém descobre nada. Na realidade, os dossiês, os papéis e o material gravado e filmado chegam por vazamento ao jornalismo. É por interesses do próprio campo político. Algumas vezes até se apura alguma coisa, mas muitas vezes se publica até sem uma grande apuração. A questão toda é: isso é um papel legítimo ou não? Você admite um site de vazamento, mas você não admite uma revista? O problema está em quem vaza ou no comportamento inadequado que é vazado?

Se a Veja vazou por intermédio do Policarpo, por causa dos interesses lá, a questão é saber: foi a Veja que fez isso ou os fatos vazados que são assustadores? O fato de Veja se prestar ao vazamento significa que a revista participa de um "complô do mal" contra o PT. Essa tese eu não consigo comprar.


E diante disso, como é que as pessoas deveriam se posicionar perante um escândalo político na imprensa? Quando sai uma matéria, elas ficam revoltadas...

De maneira geral, o nível de revolta é bem bobinho, não é? É quase assim: "eu esperava que eles fossem tão honestos e, de repente, descubro que não são". E aí generalizo. A proposição "os
políticos são todos iguais" não é muito vantajosa. Quando você vai analisar as práticas ou as pessoas, sobre o que elas pensam disso, há sempre um duplo julgamento. "Que escandalosos os políticos". Aí depois você pergunta: "se você fosse político e tivesse a chance de dar um cargo para um amigo, você daria?". Aí escuta como resposta: "claro! Eu sou otário para não dar?!".

A melhor posição é o realismo político. Quer dizer, se aparece um novo escândalo, é sinal que nós estamos avançando; é sinal que se descobriu uma conduta inapropriada, que a sociedade está provendo remédios para isso; é sinal que alguém vai ser punido agora e vai perder a reputação, por exemplo. Político vive de reputação, de imagem. Se perde a imagem, perde grande parte do seu capital: o motivo pelo qual ele existe. Então é preciso lidar com isso. A sensação "eis mais um escândalo; veja como o mundo é ruim" não deve ser essa. A sensação deveria ser "eis mais um escândalo. Nós nos livramos de mais um? Veja como estamos avançando...". O próximo que se comportar mal sabe que pode ser descoberto também. Se ele não se tornar bom, vai se tornar prudente pelo menos.

O senhor acredita que isso tem deixado os políticos amedrontados?

Ah, não resta dúvida. Eu lembro que, no Brasil, há algum tempo, escândalos políticos eram escândalos sexuais. Quando alguém era descoberto em uma conduta inapropriada na alcova de alguém que não era a sua esposa, ou seu esposo. Isso era escândalo político. Era horrível. Prevaricar, se aproveitar do horário público, desviar, compras de partidos, ou seja, escândalos republicanos. Nada disso era escandaloso. Isso era normal. Então você consegue ver, de fato, o valor moral de uma sociedade quando você percebe o que escandaliza. Hoje, os nossos escândalos são republicanos.

Têm a ver com comportamentos políticos inaceitáveis, mas que nós considerávamos aceitáveis há 40 anos. Crimes relacionados ao abuso de poder, por exemplo, era coisa de país autoritário, aqui era normal. Graças a Deus não temos mais esses tipos de escândalos. O que nos escandaliza não é a forma como o sujeito conduz a sua vida privada e as suas preferências eróticas, mas como o sujeito se comporta em relação ao jogo político, aos comportamentos republicanos esperáveis de alguém que exerce autoridade. Não em seu próprio nome, mas em nome do povo que o elegeu.

Estamos evoluindo. Isso é bom.

Sim. Estamos sim. Acho que nesse sentido de jornalismo livre, Veja tem o seu valor. O jornalismo chato, não-amável. Tem um livro do Schudson (Michael Schudson), cujo título é "Why democracies need an unlovable press". Quer dizer, é um jornalismo que não é amável, não é amado, chato, cricri, antipático etc. Por que nós precisamos disso? Precisamos sim. Precisamos quebrar a corrente de um lado só. Precisamos de várias possibilidades. Precisamos ter um jornalismo conservador, precisamos ter um jornalismo bastante liberal, precisamos ter jornalismo de toda espécie e que escarafunche o poder, que exiba, que mostre a divergência na esfera pública em benefício da sociedade.

Mesmo que esse jornalismo vá contrariamente à ética da profissão?

Depende. Se nós tivéssemos um jornalismo dominantemente imoral eu ficaria preocupado, mas o quadro deontológico (ético) é bem melhor do que era há 20, 40 anos. Há controle sobre isso. As pessoas têm maior grau de escolaridade, viajam mais, têm acesso a outras fontes na internet, são mais críticas e não são dependentes de uma única emissora ou de um único jornal.

Nesse sentido, há uma evolução da esfera civil e do seu próprio sistema de comunicação ao redor. O quadro, digamos, da dominação da mídia, que você encontra em países vizinhos ao nosso, você não encontra no Brasil. Temos uma imprensa bastante livre, desaforada, bastante crítica e consideravelmente pluralista. Isso é muito bom. E essa história de que os indivíduos são bobões, manipulados pela mídia... Os indivíduos lidam com considerável desconfiança com a sua mídia e resolvem consumir isso ou aquilo com muita liberdade.

 

 


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