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Salutaris

A serviço da fertilidade?

por Lucas Alvarenga

Especialistas em reprodução humana e nutricionistas divergem sobre a influência dos alimentos no aumento das chances de gravidez por meio da fertilização in vitro (Foto: Kayteeknee)

Jovens e saudáveis, elas não estavam acima do peso nem eram diabéticas. Mas seus embriões apresentavam má formação. Esse mistério intrigou o endocrinologista Jeffrey Russell, do Instituto de Medicina Reprodutiva Delaware, em Newark, cidade de Nova Jersey, nos Estados Unidos. O pesquisador americano se deparou com esse dilema em um programa de fertilização in vitro. Então ele resolveu investigar. Este ano, o especialista divulgou uma pesquisa que coordenou com 120 mulheres com idade entre 36 e 37 anos. Quando reduziu os carboidratos e elevou o consumo de proteínas na dieta, Russell concluiu que seria possível aumentar as chances de concepção e de nascimento.

A pesquisa analisou um registro alimentar das participantes durante três dias. Um grupo de massa corpórea similar ingeriu de 60% a 70% de carboidratos na dieta. Essa faixa percentual corresponde à média diária comum às mulheres. Todas as pacientes sofriam de infertilidade. Elas foram divididas em dois grupos. O consumo de proteínas de um grupo superou 25%, enquanto a média de proteínas consumida pelo outro grupo foi inferior a 25%. Durante um ano, as pacientes mantiveram ao menos duas relações sexuais por semana com um parceiro. No final desse período, essas mulheres não conseguiram engravidar por problemas próprios.

Por isso, os resultados da dieta em resposta à fertilização in vitro surpreenderam. O desenvolvimento do blastocisto - estágio inicial do embrião - foi superior no grupo de maior ingestão de proteína - 64% contra 33,8% do grupo de baixa proteína. A taxa de gravidez clínica do grupo de mulheres que consumiu mais proteína foi de 66% contra 31,9% do segundo grupo de pacientes. O mesmo fenômeno ocorreu em relação às mães dos bebês que nasceram e permaneceram vivos: 58,3% das mães que fizeram a dieta proteica tiveram bebês. No outro grupo, o percentual foi de 11,3%.

Em outro cenário, a taxa de gravidez clínica caminhava para 80% com a ingestão de proteína superior a 25% e de carboidratos inferior a 40%. "A alta concentração de glicose cria um ambiente oócito hostil, antes mesmo da concepção ou da implantação do óvulo. Já a redução de carboidratos, seguida pelo maior consumo de proteínas, torna o ambiente saudável e nutritivo", compara Amanda Alvarez, especialista em medicina reprodutiva do Instituto Paulista de Ginecologia, Obstetrícia e Reprodução Assistida (IPGO).

Para Amanda, as mulheres com cistos no ovário se beneficiam em dobro com o equilíbrio da dieta. Elas têm maior indisposição à insulina - hormônio que controla os níveis de glicose. A especialista esteve presente no último Congresso Americano de Obstetras e Ginecologistas, evento em que Russell apresentou a pesquisa à comunidade médica. Ao aderirem à prática avaliada pelo pesquisador americano, as mulheres com ovário policístico diminuem o risco do surgimento do diabetes tipo 2 e aumentam as chances de engravidar por técnicas de reprodução assistida.

Efeitos nutricionais

A fertilidade e a alimentação mantêm afinidades que vão além da relação entre proteínas e carboidratos. Mulheres que consomem mais de cinco xícaras de café por dia têm 50% menos de chances de engravidar, conforme aponta o estudo da Clínica de Fertilidade do Hospital Universitário Aarhus, na Dinamarca, apresentado em 2012. E o consumo excessivo de alimentos ricos em cafeína tem efeito similar ao do tabagismo, segundo um dos autores da pesquisa, o ginecologista Ulrik Schiøler Kesmodel.

Da mesma forma, a ingestão de gorduras trans pode dobrar os riscos de infertilidade, de acordo com levantamentos mundo afora. Está comprovado que a carência de ferro dificulta a ovulação. E o consumo frequente de farinha branca pode favorecer o surgimento de desequilíbrios que dificultam a fecundação, como diabetes e ovário policístico. "Está cada vez mais evidente a ligação entre um organismo bem-nutrido e a facilidade para a fecundação e a manutenção da gestação", acredita a nutricionista Fernanda Scheer.

Em contrapartida, o uso de gorduras insaturadas - vindas de peixes e oleaginosas, também ricas em antioxidantes - torna mais fluida a membrana que envolve o óvulo. Esse processo facilita a penetração do espermatozoide e a saída do embrião. Já o consumo de gorduras saturadas, como queijos e óleo de coco, auxilia na formação dos hormônios sexuais, o que favorece a ovulação, como garante Fernanda, também especialista em Nutrição Funcional pela Universidade Ibirapuera (UNIb).

Há quem pense diferente. Esse é o caso de Juliano Scheffer, diretor científico do Instituto Brasileiro de Reprodução Assistida (Ibrra). O ginecologista pede cautela ao interpretar trabalhos científicos como esses. Afinal, muito foi produzido e até hoje não há um consenso sobre o papel de determinados alimentos na fertilidade humana. "Pacientes magras, com índice de massa corpórea abaixo de 18, não podem ter a mesma dieta de mulheres com sobrepeso cuja relação peso - altura supere 25. Uma dieta rica em carboidratos pode trazer benefícios para a paciente magra. Para a mulher com sobrepeso, reduzir carboidratos talvez seja o ideal", esclarece.

As mudanças nos hábitos de vida das novas gerações, sobretudo das mulheres, têm elevado a prevalência da infertilidade. Há 15% de pessoas inférteis no mundo. A cada década, esse índice aumenta 10%. As razões para o problema são inúmeras. Como os casais tendem primeiro a estudar e a constituir uma carreira, a gravidez tem se tornado um sonho tardio. E as estatísticas são cruéis nesse quesito. Até os 25 anos, apenas 4% das mulheres têm de lidar com a infertilidade. No entanto, 25% das jovens senhoras com mais de 35 anos são inférteis.

A modernidade, que trouxe avanços nas técnicas reprodutivas, também permitiu a diversificação de fatores de risco. Esse é o caso da androgenização da mulher - processo em que os hormônios a tornam mais masculina por causa da testosterona. O próprio consumo de cigarros e de bebidas alcoólicas se popularizou entre elas. Não é à toa que o marketing dessas drogas lícitas está sendo direcionado para as mulheres. "A exclusão desses fatores de risco e a manutenção de relações constantes são essenciais para quem deseja engravidar por métodos de reprodução assistida ou de forma espontânea", avalia o diretor científico do Ibrra.

Mas onde fica a alimentação?

Se para uns a escolha dos alimentos é fundamental, para outros, trata-se de mais um cuidado a ser tomado para melhorar a fertilidade. O certo é que, quanto mais variado e colorido seja o prato, melhor será para a saúde da paciente. E não é só isso. Segundo Scheffer, uma alimentação incorreta e a ausência ou o excesso de atividades físicas podem alterar o ciclo fisiológico-hormonal da mulher, prejudicando a ovulação.

Está claro que a hidratação é essencial para todas as reações químicas do corpo, inclusive para a fecundação. Os carboidratos e as proteínas também são importantes para a produção de energia e a renovação de tecidos respectivamente. "O organismo precisa desses nutrientes para promover a renovação celular e garantir a ovulação e a boa qualidade dos espermatozoides", observa a nutricionista Fernanda Scheer. Ela continua: "está cada vez mais evidente que, além de trabalhar as questões individuais, é fundamental os especialistas em reprodução humana olharem para a nutrição".


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