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Vanguarda

Transversalidade e tecnologia

por André Martins

Torneio idealizado por ONG americana First, em parceria com a dinamarquesa LEGO, agita a Olimpíada do Conhecimento apostando em robótica e ideias inovadoras para soluções de problemas que desafiam o poder público (Foto: André Martins)

Não faz muito tempo, lápis, cadernos e livros didáticos eram os objetos mais comuns entre os estudantes. Com a informatização do conhecimento, no entanto, métodos tradicionais de ensino vêm perdendo espaço e se tornando coadjuvantes nas escolas.

Cada vez mais inserida em sala de aula, a robótica surge como uma alternativa para revolucionar o ensino. Escolas da rede do Serviço Social da Indústria (Sesi) são algumas das instituições que empregam esse recurso didático. De acordo com a educadora Izabela Giannetti, desde que a chamada robótica LEGO - concebida a partir de peças Lego - foi apresentada aos alunos, a relação deles com os estudos foi modificada. "Eles começaram a ter disciplina, um olhar diferenciado para os estudos, e passaram a ficar mais atentos e compenetrados. Foram desenvolvidas outras habilidades que trazem benefícios para a carreira escolar", revela.

Além de contribuir para a concentração, a robótica tem potencial de despertar os estudantes para matérias que geralmente são mais temidas, como matemática e física. Foi pensando nisso que a ONG americana First (For Inspiration and Recognition of Science and Technology) idealizou o First Lego Legue (FLL), um torneio de robótica internacional do qual participam jovens de 9 a 15 anos.

"O FLL foi elaborado pela pouca demanda para profissões ligadas à tecnologia, ciências e matemática. A dinâmica do torneio incentiva os alunos a terem mais familiaridade com essas disciplinas. Isso desperta o interesse. Futuramente, esses jovens serão grandes cientistas, nomes reconhecidos", explica Izabela, que também é a coordenadora do Festival Internacional de Robótica FLL em Minas Gerais.

Pela primeira vez, o evento aconteceu paralelamente à Olimpíada do Conhecimento. No Brasil, quem organiza os torneios da First é o Sesi que, desde 2013, é a instituição operadora oficial no país.

Essa edição do festival contou com 18 times brasileiros e cinco estrangeiros. Quatro quesitos foram analisados para chegar à equipe vencedora: o tema proposto; a programação, construção do robô e a estratégia das missões; o trabalho em grupo e a vivência dos valores da FLL; e, por fim, o desempenho dos robôs nas missões, na arena.

Para elaborar os projetos, alunos e professores orientadores foram a campo. A equipe Eagles and Owls, do Sesi Benjamin Guimarães, de Contagem, verificou que os moradores de áreas de risco apresentavam grande receio com a possibilidade de soterramentos. A equipe, então, visitou a Defesa Civil municipal, o Corpo de Bombeiros e ouviu especialistas. A partir da coleta de dados, o grupo criou uma escavadeira com sensor ultrasônico, capaz de identificar a presença de pessoas por debaixo dos escombros. "Por meio de nossa visita ao Corpo de Bombeiros, soubemos que a indefinição do que há por debaixo dos escombros em quadros de soterramento é algo complicado para os bombeiros. O trabalho é realizado vagarosamente, pois não é possível usar maquinário pesado para fazer buscas. É algo manual. Então, tivemos a ideia de criar essa escavadeira com sensor capaz de captar variações de temperatura num determinado raio de distância e profundidade, facilitando e agilizando as buscas", explica a mentora da equipe, Cláudia Girundi.

Os chilenos da equipe The Mainstream, do Colégio San José, de Talca, também se apoiaram na realidade local para a elaboração do projeto. O terremoto que assolou o Chile em 2010 sinalizou um grande problema na cidade: a falta de um local em que a população encontrasse abrigo e tivesse água e energia, após um terremoto. Diante dessa demanda, os estudantes criaram uma zona de segurança para abrigar trabalhadores do centro comercial de Talca. "O projeto prevê para o local painéis solares para alimentar diferentes dispositivos elétricos e atender às pessoas que vão se abrigar nessa zona de segurança. Há também canais que acumulam água de chuva e são capazes de transformá-la em água potável e um hospital para o atendimento dos feridos" detalha o orientador da equipe, o professor de Ciências Jorge Rodrigo Soto Bravo.

Já a equipe do Colégio Papa João XXIII, de Curitiba, montou o projeto do Sinalizador Autônomo de Prevenção de Enchentes (Sapa). Em situações de risco de inundações, o dispositivo aciona uma série de alertas à sociedade. "O sistema é feito com um cano de PVC em que nós adaptamos uma boia. Assim que o nível da água aumenta, essa boia se eleva e fecha um circuito. A partir daí, é disparado um sinal sonoro e luminoso. Um GPS indica onde estão os pontos de alagamento", explica Júlio Sutil de Oliveira Bisneto, de 13 anos. "Tendo a informação, as lideranças de bairro comunicam os moradores por meio de mensagens de texto", completa o colega, Guilherme Afonso Cabral Nunes, de 14 anos.

Mesmo sendo muito jovens, os dois garotos entendem que a robótica é coisa séria, mas, segundo eles, é impossível não se divertir ao fazer a programação e operar o robô. A possibilidade de aprender sobre temas transversais e, às vezes não propriamente relacionados à tecnologia, mas de natureza humana e ambiental, é outro ponto que motiva os alunos. Apaixonados pela robótica, Júlio e Guilherme pretendem estudar Mecatrônica, preservando o contato com as máquinas no futuro.

Embora os projetos tenham enorme relevância, foi a competição de mesa que mexeu com o ânimo geral. Feitos com as coloridas, nostálgicas e atemporais peças de Lego, os robôs, apesar de parecerem brinquedos, não eram tão simples assim. A programação deles foi feita a partir de um dispositivo da LEGO que é acoplado às invenções. Diante de notebooks, os alunos responsáveis pelos comandos ajustavam movimentos nas mesas-teste para não errar quando fossem postos à prova.

Com o tema ‘Fúrias da Natureza', as mesas de competição simularam catástrofes e acidentes naturais para que os robôs executassem missões, como o resgate e atendimento às vítimas, e proporcionar segurança em determinadas áreas. Ao redor das mesas, um misto de excitação e tensão tomava conta das equipes. No somatório, que leva em conta o desempenho nos quatro quesitos, quem se deu melhor foi o time Legosos e Furiosos, do Sesi de Uberlândia.

Apesar de apenas uma equipe ter se sagrado vencedora, ao final do evento, o clima geral era de pura confraternização e alegria. De acordo com Bravo, além de conhecimento, o torneio proporciona uma troca de bagagem cultural impossível de ser mensurada. Aprendem os alunos e os professores. "Nós somos de uma cidade ao Sul de Santiago. Quase todas as equipes de robótica que representam o Chile no exterior saem da capital. É a primeira vez que uma equipe de Talca representa o país. Então, imagine você o que é pra gente representar o país, conhecer outras culturas e aprender sob o viés acadêmico! Para os estudantes, isso é muito importante. É uma experiência que se leva para toda a vida", expressa o professor, que fez a segunda viagem internacional com a equipe chilena. O primeiro torneio disputado foi na Alemanha, em 2013.

A variedade de temáticas abordadas pela FLL nos torneios internacionais é um convite para pensar no quão amplo pode ser o emprego da robótica na vida comum. "Eu sou bióloga e adoro robótica. Como também sou coordenadora da escola, eu sempre digo que é possível unir robótica ao ensino até mesmo da geografia e da história. Então eu costumo mostrar ao professor o leque de opções de trabalho que existe com a robótica", conta Cláudia.

A partir de outubro, as equipes começam a preparação para a próxima temporada de competições. Como aconteceu este ano, os alunos devem desenvolver projetos que apresentem soluções inovadoras relacionadas com o tema já determinado: ‘World Class'. O objetivo é responder à seguinte pergunta: ‘o que pode ser feito para a melhora do ensino?'. É necessário ainda montar e programar robôs para as competições do circuito.


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