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Vanguarda

Atletas dos games

por Cassio Teles

Indústria de jogos eletrônicos abre caminho para profissionalização de craques dos manetes (Foto: Arquivo Pessoal)

"Trabalho e diversão: coisas diametralmente opostas e inconciliáveis". Essa é a máxima que cava um fosso entre o mundo laboral e o do lazer. A junção de ambos pode parecer impossível, quase uma utopia, mas não é assim para todo mundo. Desenvolvedores de jogos provam que essa é, sim, uma possibilidade real.

Presente cobiçado por crianças e adolescentes de todo o mundo, o videogame vem deixando de ser um simples passatempo eletrônico desafiador, com jogos cada vez mais complexos. O ‘brinquedo' deu origem a um esporte profissionalizado e que paga muito bem. Os que se aventuram em campeonatos mundiais podem atingir o status de ‘heróis' cyberatletas.

Desde o surgimento do primeiro console para TV, batizado de Magnavox Odyssey, nos anos 70, o videogame é um dos principais meios de entretenimento da indústria mundial de eletrônicos. Em 2013, esse mercado fechou o ano com faturamento de US$ 11,7 bilhões, registrando um aumento de 10% em relação ao ano anterior, segundo a KaBum! e-Sports.

Para movimentar ainda mais esse negócio bilionário, empresas desenvolvedoras de jogos organizam campeonatos regionais e mundiais. Esse é o caso da americana Riot Games, criadora do League of Legends. Nesses torneios, os times, compostos por grupos de amigos e patrocinados por empresas do ramo, competem entre si de olho em prêmios que podem chegar a impressionantes US$ 5 milhões.

Foi num desses campeonatos que a equipe da Kabum! e-Sports se tornou a campeã da brasileira de League of Legends (LoL). A competição foi realizada no Maracanãzinho, em julho deste ano. "Além do título nacional, vencemos o sul-americano e levamos, pela primeira vez na história, um time brasileiro ao Mundial de League of Legends. Para completar, vencemos uma partida contra o atual campeão europeu, o Alliance, e tiramos deles a chance de classificação para a segunda fase do torneio. Foi incrível e histórico para o e-Sport no país", destaca o diretor de e-Sports da Kabum, Denis Fernando.

A Kabum têm três equipes, sendo duas de League of Legends e uma que disputa games de First Person Shooter (FPS) - Counter Strike Global Offensive e Crossfire. Ao todo, a empresa conta com 15 jogadores, um técnico e um manager.
O mercado de games, movimentado por jogadores organizados, já é responsável por um ecossistema de empresas de tecnologia criadas para dar suporte aos campeonatos. Organizações mais experientes criam linhas especiais voltadas para o mercado dos games. Elas operam na transmissão via streamming, nas plataformas de rede, venda de equipamentos, como TVs, monitores especiais e computadores oficiais desenvolvidos em linha própria para jogos e torneios.

A própria Kabum e-Sports, braço da loja on-line Kabum, trabalha nessa linha de investimento. Há 11 anos, o site de compras decidiu entrar para o ramo dos jogos devido ao envolvimento de grande parte dos consumidores com o mundo dos games. "Há uma conexão grande entre nós, os jogos eletrônicos e o público do e-Sports, que precisa e gosta de produtos personalizados para o bom desempenho dentro dos games. Nosso principal objetivo é nos tornar a maior equipe de e-Sports da América Latina e colaborar diretamente para o Brasil se tornar uma potência mundial nesse quesito. Nós acreditamos e por isso investimos nisso", enfatiza Fernando.

Integrante da equipe CNB há três meses, o jovem curitibano Lucas ‘Electro' Dal Prá, de 19 anos, tem a vida que muitos jovens pediram a Deus. O jovem tem a carteira assinada, plano de saúde e desfruta de outros direitos trabalhistas. "É igual a um trabalho. Sou considerado um atleta, é o que está especificado na minha carteira de trabalho", explica o jovem, que foi vice campeão no campeonato brasileiro de League of Legends em 2014.

Dal Prá tem várias vitórias em campeonatos amadores no currículo, além de seis participações nas edições da Go4LoL - torneio que ocorre todos os finais de semana e é organizado pela Electronic Sports League. Ao se transferir para o servidor brasileiro, Lucas recebeu várias dicas de jogadores que viam potencial profissional nele. "Comecei jogando sozinho e só depois passei a ter contato com alguns times. Fui me destacando em torneios on-line simples e que contavam com equipes fracas. Assim consegui meu passaporte para times fortes, como a Void e a Mad. Nessa última, fiz testes ao longo de três semanas. Eles gostaram de mim, mas não pude ir para a casa deles porque sou de Curitiba e teria que parar a faculdade", conta.

A falta de estrutura e a necessidade de ter um salário que pudesse manter Lucas fora de casa fizeram o jovem cyberatleta cogitar em desistir dos times e da carreira. Ele começou a faculdade de Sistemas de Informação, conseguiu um estágio e engatou um namoro. A história teve revés a partir de um convite feito pela CNB. "Foi a virada total pra mim porque eles tinham estrutura. Era tudo que eu precisava pra conseguir a confiança dos meus pais. Então, tranquei a faculdade no quarto período, por até 2 anos", enfatiza Dal Prá.

Unir-se a um grupo profissional de e-Sports requer dividir o mesmo teto com os colegas de equipe. As Game Houses contam com equipamentos de última geração, piscina, academia e faxineira. Mesmo com tantas facilidades, a rotina de treinamento é pesada. Os cyberatletas chegam a se dedicar 12 horas por dia aos jogos. "Pela manhã, vamos à academia, depois tomamos banho e treinamos o ‘cérebro' com alguns jogos de aquecimento mental. À tarde, jogamos um solo de League of Legends para ‘aquecer' para o treino de verdade. Por volta das 14h, começamos o treino prático em grupo contra times. Isso se estende até às 22h. Às vezes, trocamos alguns horários da tarde e da noite pra assistir a replays e analisar nossas performances", revela.

Para Denis Fernando, jogadores proeminentes têm um perfil perseguido pelas equipes. A escolha de um gamer profissional para compor um time é, teoricamente, um processo simples. "Existem alguns critérios que procuramos seguir. A qualidade técnica, o bom comportamento no jogo e o bom relacionamento em equipe estão entre eles", explica o diretor.

Mesmo não exigindo muito do condicionamento físico, a carreira de um cyberatleta pode ser curta. A ‘aposentadoria' bate à porta na casa dos 30 anos. Existe a possibilidade de destaques se tornarem treinadores de equipes ou até mesmo organizadores de campeonatos, partindo sempre do princípio de que o patrocínio é essencial para a própria sustentação. O jovem Lucas Dal Prá se posiciona consciente quanto a isso. "Se eu perder o meu vinculo com a faculdade, meu futuro pode correr um risco bem grande, então voltarei para a sala de aula muito em breve. Ser jogador profissional é um sonho atrás do qual estou correndo enquanto é realisticamente possível, sem representar riscos. Tenho 19 anos e tranquei a faculdade no quarto período. Então, tenho ‘tempo a perder'. Vivo o que meus pais que me falavam: ‘Corra atrás do seu sonho, mas sempre com os pés no chão'".

O mundo dos games vai muito além das empresas desenvolvedoras de jogos, de revendedores, jogadores amadores e profissionais. O mercado se transforma com muita velocidade, ao passo que novidades tecnológicas surgem a cada ano e servem de suporte para o setor. Os jogos, por sua vez, tornam-se mais complexos, exigindo muita habilidade, raciocínio e criatividade dos jogadores.

Amadores e aqueles que vislumbram o profissionalismo têm aliados importantes na internet. Jogadores craques nos games mais complexos dão toques valiosos em canais no Youtube e em portais na internet. Informações de como vencer obstáculos quase intransponíveis e desenvolver estratégias para jogos em equipe podem ser facilmente encontradas. Além disso, esses profissionais dão dicas de novos games, equipamentos e de onde comprar mais barato.

É dessa forma que o profissional de marketing paulistano Eduardo Benvenuti vem complementando a renda nos últimos quatro anos. Morador de Vancouver, no Canadá, o jovem, de 29 anos, atua no mercado de redes sociais na área de games em língua portuguesa, na BroadbandTV, uma network canadense. Benvenuti é também o responsável pelo canal BRKsEDU no Youtube. Lá ele transmite seus jogos para milhares de espectadores que querem aprender artimanhas. "Um iniciante fatura, provavelmente, apenas algumas dezenas de reais, se tanto, por mês. Os youtubers com maior volume de visualizações podem chegar a faturar mais de R$ 100 mil em dezembro, que é o mês mais forte para a publicidade", explica. O vultoso valor envolve contratos com redes do Youtube para vídeos de Gameplay. Além disso, os ‘empresários-jogadores' podem fechar contratos com agências para a alocação de propagandas nos vídeos produzidos.

Benvenuti praticamente nasceu com o manete na mão. Com apenas quatro anos, ele começou a jogar River Raid no nostálgico Atari. As habilidades foram evoluindo com os jogos. Em 2008, o jovem percebeu que poderia ganhar dinheiro jogando videogame ao monetizar vídeos postados no Youtube. "Eu tinha meu canal de games nessa época. Foi uma surpresa descobrir que poderia ter retorno financeiro com isso. Inicialmente pensei que meus jogos poderiam ser custeados com o dinheiro gerado via Youtube, mas o crescimento constante do canal me induziu a levar mais a sério a possibilidade de o Youtube virar meu ganha-pão", revela.


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