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Estratégia de vida

por Haydêe Sant'Ana

Plano de aposentadoria público ou privado? Poupança ou investimentos? O que fazer para ter um benefício justo e qualidade de vida na “melhor idade”? (Foto: Shutterstock)

O trabalho ocupa espaço central na vida cotidiana. É a partir dele que o homem consegue seu sustento e leva ao extremo a própria capacidade intelectual. Depois de muitos anos de esforço e dedicação a uma atividade laboral, a tão sonhada aposentadoria é encarada como uma recompensa. No entanto, manter o padrão de vida da idade ativa é um feito quase impossível para a maioria das pessoas. A frustração de viver com uma aposentadoria de valor inferior aos rendimentos de antes é vivenciada por muitos brasileiros.

A redução dos ganhos conversa diretamente com o crescimento da população idosa. No último censo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reiterou a constatação de que o brasileiro está vivendo mais. No país, homens e mulheres vivem, em média, 74,9 anos. Em 2012, a expectativa de vida média era de 74,6 anos. Já em 2003, os brasileiros viviam até os 71,3 anos em média.

O aumento do número de idosos impacta o sistema previdenciário público. Mesmo tendo nove pessoas em idade ativa para cada aposentado, o Brasil registrou, em 2014, um déficit previdenciário de R$ 51 bilhões. Para 2015, a previsão é ainda mais preocupante: um rombo de R$ 60 bilhões. Para o futuro, as previsões não são as mais animadoras já que, em 2030, o Brasil terá cinco trabalhadores para cada aposentado. Em 2060, a proporção deve ser de dois ou três para um.

Diante disso e de um penoso corte de gastos, o governo aprovou uma medida provisória para dar sobrevida à previdência pública e fazer com que as pessoas prolonguem o tempo produtivo. A fórmula 85/95, chamada de Regra Progressiva, leva em conta as variáveis idade e tempo de contribuição para possibilitar as aposentadorias. A conta é simples: somados idade e tempo de contribuição, as mulheres devem atingir 85 pontos, enquanto os homens devem chegar a 95 pontos. Se a soma atingir a pontuação necessária, o segurado pode se aposentar e receber o benefício integral, sem a aplicação do fator previdenciário.

Para o contador e especialista em Finanças Thiago Santos, a medida adotada pelo governo serve mais como um contraponto ao fim do fator previdenciário proposto pelo Congresso. "Se o fator previdenciário tivesse sido abandonado, como era a expectativa inicial da sociedade, bastaria que o trabalhador atingisse o tempo mínimo de contribuição (30 anos para mulheres e 35 anos para homens), independentemente da sua idade, para que pudesse se aposentar recebendo o valor integral. A nova regra busca, assim como o fator previdenciário vinha fazendo, postergar o pagamento de benefícios integrais", conclui.

Criado em 1999, no governo de Fernando Henrique, o fator previdenciário se baseia na idade do trabalhador, expectativa de sobrevida e uma alíquota fixa de 0,31 (referente ao 0,11 de contribuição do segurado e 0,20 da contribuição do empregador). A fórmula pode assustar, mas, em linhas gerais, ela aponta que, quanto mais cedo a pessoa se aposenta, tendo por isso maior expectativa de vida, maior será o fator previdenciário, ou seja, maior será o desconto na aposentadoria dela. A regra inversa também é válida. Quanto mais tarde a pessoa se aposentar, menor será a sua expectativa de vida e maior será o seu benefício. Dessa forma, o fator previdenciário tinha impacto para quem pretendia se aposentar por idade.

Para Santos, a nova regra ameniza o efeito da antiga. "Longe de ser a ideal ou justa, a regra 85/95 ameniza os efeitos redutores que as regras antigas, em alguns casos, impunham às aposentadorias por tempo de contribuição", analisa.

A nova regra é chamada progressiva justamente por não ser estática. A partir de 2016, vai ser acrescentado um ponto a cada dois anos, e a partir de 2022, vale a fórmula 90/100. Considerando a escala crescente de pontos, Santos observa que a nova regra favorece quem tem condições ideais para se aposentar agora. "Os trabalhadores mais jovens, que provavelmente completam o tempo mínimo de contribuição após 2022, praticamente não serão beneficiados pela nova regra. Um homem que começou a trabalhar e a contribuir com 25 anos de idade vai cumprir a carência de 35 anos de contribuição aos 60 anos, em 2045. A soma da idade mais o tempo de contribuição (60+35=95), no entanto, não atinge a pontuação requerida pela regra 90/100. Para se aposentar sem a aplicação do fator previdenciário, ele teria que obter mais 5 pontos, aposentando-se então com 63 anos, quando atinge 38 anos de contribuição (63+38=101 pontos)", esmiúça.

Para quem acredita que apostar todas as fichas na previdência pública não é o melhor negócio, a alternativa é recorrer aos planos de previdência privada. Eles são considerados mais atrativos do ponto de vista do retorno financeiro. A título de comparação, o valor máximo de benefício concedido pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é R$ 4,159 mil. E isso independe se o segurado tinha um salário de R$ 5 mil ou de R$ 10 mil. Nos planos privados, o contribuinte pode escolher o valor da contribuição e a periodicidade do pagamento.

O arquiteto Walison Barbosa, de 26 anos, optou, há dois, por um plano de previdência privada. Ao longo de 30 anos, ele vai investir R$ 300 mensais. "Eu optei pela previdência privada pelo investimento inicial e o retorno. Se hoje eu recebo R$ 2 mil, daqui a 30 anos vou receber o equivalente a R$ 2 mil. Isso foi um dos motivos que mais me levaram a fazer o plano. Ele vai possibilitar a manutenção do padrão de vida que tenho hoje", entende.

Walison não vê vantagens na previdência pública. "Como autônomo, se for contribuir para receber mais que um salário-mínimo, teria que pagar muito mais. E para receber um salário-mínimo na previdência social, precisaria pagar o mesmo que pago na previdência privada", enfatiza. Além disso, a questão do envelhecimento precoce da população é outro fator considerado desanimador pelo arquiteto. "A previdência social é falida; ela não se paga. Com a previsão de a população brasileira envelhecer a cada ano, essa situação vai ficar muito pior", acredita.

Antes de optar por um plano de previdência privada, o contribuinte deve buscar informações e estar ciente das taxas administrativas cobradas pela empresa. No mercado, há vários planos que oferecem mundos e fundos, mas estão longe de ser um bom negócio. O professor e palestrante na área de Inteligência Financeira Fernando Agra adverte sobre a confiabilidade dos planos. "A previdência privada não leva em conta a inflação futura nem garante que o que foi prometido seja cumprido. Só em casos de planos empresariais, nos quais a própria empresa contribui com a aposentadoria do funcionário, ela costuma compensar", enfatiza. Para o professor, os maiores beneficiados pela previdência privada no Brasil são os bancos.

A opção por gerir o próprio dinheiro aparece como alternativa segura, mas requer muita pesquisa e, principalmente, disciplina. Adaptar-se a viver com menos pode ser o grande trunfo de quem quer ter conforto e qualidade de vida quando o ritmo do corpo baixar. "A dica é começar a poupar o quanto antes. Mesmo que a pessoa ganhe pouco, é interessante guardar uma porcentagem. Ao criar esse hábito, a pessoa que passa a ganhar mais vai estar acostumada a viver com 80% do salário. É um hábito muito saudável financeiramente falando", opina o Ph.D em business, professor da Fundação Getúlio Vargas e colunista da Folha de S. Paulo, Samy Dana.

Mas com uma poupança rendendo pouco, quais as opções que sobram para fazer com que o dinheiro guardado renda e possa contribuir para dar robustez aos ganhos, ao se aposentar? O investimento no Tesouro Direto é o mais interessante. Desenvolvido em parceria com a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) e a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o Tesouro Direto corresponde aos títulos públicos. "Os títulos são interessantes porque você pode fazer um aporte mensal de R$ 30 a R$ 1 milhão. Você até pode investir R$ 30 uma vez. Então é muito democrático", afirma.

Existem dois tipos de títulos: os pré-fixados e os pós-fixados. Os pré-fixados são aqueles em que é possível saber sobre a taxa de retorno quando o investidor adquire os títulos: as Letras do Tesouro Nacional (LTNs) e as Notas do Tesouro Nacional Série-F (NTN-F). Nos pós-fixados, os títulos mais conhecidos são as Letras Financeiras do Tesouro (LFT), ligados à taxa Selic, para os quais a renumeração acompanha a variação da inflação no país.

Para Dana, os títulos cujos rendimentos variam de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que é o mesmo que a inflação, são os mais atraentes para quem pretende começar a investir. "Existem títulos que pagam 6,5% mais o índice da inflação. Esse tipo de título é interessante porque ele assegura o poder de compra do investidor. O risco desse título, além do calote que é muito baixo, é que se você vender antes do vencimento, ele pode oscilar muito. Então esse título é para aquele dinheiro que você não vai mexer muito, de longo prazo", aponta o especialista.

Para quem pode fazer um aporte financeiro maior, mas não quer deixar o dinheiro ocioso e jogado às traças em uma conta de poupança, a estratégia pode ser o investimento no setor imobiliário. Mas essa decisão requer análise. "Esse investimento vai depender do que vai ser pago por ele. Suponhamos que o indivíduo tenha gasto R$ 300 mil na compra de um imóvel. É preciso analisar quanto esse imóvel vai gerar de aluguel. O rendimento mensal do título público está mais de 1% acima dos ganhos com o aluguel. Um por cento de R$ 300 mil dá R$ 3 mil. Então, se o retorno com o aluguel for mais atrativo do que o dos outros investimentos, pode compensar mais investir em imóveis. Mas não é isso que acontece hoje", explica Dana.


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