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Podium

Fanatismo na alma

por Thalvanes Guimarães

Uma longa jornada para a Argentina, inimizades e intrigas. As histórias das idosas apaixonadas pelo Cruzeiro e pelo Atlético (Foto: Felipe Pereira)

O futebol tem um peso diferente na vida de cada pessoa. No Brasil, mesmo o esporte sendo o mais popular, existe o grupo dos que não torcem por time nenhum. Curiosamente, segundo pesquisas, esse conjunto é mais numeroso do que a torcida do Flamengo, a maior do país. Por outro lado, outros vivem o esporte de forma tão intensa que mais parecem jogadores em vez de torcedores.

Para esse tipo de torcedor, cabe bem a definição do sentimento tricolor do escritor Nelson Rodrigues: "Não é uma questão de gosto nem de opção, mas um acontecimento de fundo metafísico; um arranjo cósmico do qual não se pode - nem se deseja - fugir". Na verdade, a descrição de Nelson cabe a todos os torcedores fanáticos, não importando o time para o qual torcem.

O Brasil tem nesse esporte um símbolo de identidade. A herança da habilidade no futebol começou por volta de 1910, quando a bola corria apenas nos pés da elite. Mas, já nessa época, o esporte era capaz de atrair as atenções gerais graças a craques como Arthur Friedenreich. Na década de 30, Getúlio Vargas utilizou o amor do público em benefício próprio. Profissionalizou o jogo, e assim começaram a surgir vitórias.

Se nos êxitos da seleção brasileira o povo via uma vitória da pátria, no relacionamento com os clubes há mais particularidades e menos argumentos racionais. Para algumas pessoas, a paixão pelo time se tornou um tipo de caminho, de destino. É o caso da senhora Maria Salomé da Silva, de 81 anos, torcedora fanática do Cruzeiro.

Mesmo com idade suficiente para se aposentar, ela ainda não se deu ao luxo de parar de trabalhar. "Tenho a impressão de que parar não vai me fazer bem. Eu amo a minha rotina", afirma com felicidade genuína. Salomé tem a honra de trabalhar no lugar que mais ama; é auxiliar de limpeza na sede do Cruzeiro, local que cuida como a própria casa.

Quando o time enfrentou o River Plate, nas quartas de final da Libertadores, na Argentina, Salomé viajou de ônibus com uma torcida organizada. "Foi uma viagem muito agradável. Cheguei ao estádio, e a torcida do Cruzeiro gritava o meu nome, e pessoas queriam tirar fotos. Na hora do gol, fui subindo e descendo as escadas, como se fosse um tobogã. Todos começavam a me abraçar, beijar e ficavam me tratando com carinho. É uma alegria que não tem como explicar," conta emocionada.

Quando os argentinos tripudiavam a octogenária, Dona Salomé relembra que colocava tudo no devido lugar, gritando: "segunda divisão, segunda divisão", em referência à queda do River Plate em 2011.

A paixão de Salomé pelo Cruzeiro vem da década de 60, quando ela morava numa fazenda em Bom Despacho, Interior de Minas Gerais. Nessa época, ela acompanhava dois times que jogavam em um campo da cidade. A disputa se dava entre o time dos solteiros e o dos casados. Entusiasmada, ela sempre torcia para o time dos solteiros, no qual jogava o que viria a ser o futuro marido. O uniforme do time era azul e branco, as cores que sempre vestiam a mãe de Salomé.

Aos 25 anos, com a mudança para a capital, a senhora "renovou de vida". "Eu nunca pude imaginar, quando vivia na fazenda, que um dia teria uma vida como essa. Graças a Deus, com o Cruzeiro, eu passei de um mundo para o outro. Não existe tristeza na minha vida. Alguns dizem que sou doida por causa da minha paixão pelo Cruzeiro, mas isso é a minha felicidade!".

Desde que começou a acompanhar o time, Salomé revela que faltou a apenas 18 jogos. Dezesseis deles no Mineirão, um no Independência e outro na Arena do Jacaré, em Sete Lagoas. Até mesmo um câncer no útero e as recomendações médicas de repouso não a impediram de acompanhar o time de pertinho. "Médico tem umas bobagens,... quem sabe das coisas é a gente e Deus", opina.

Ao contar a sua história de vida, Salomé se emociona, não por recordar situações adversas, mas por lembrar como tem sido feliz. "Eu não quero ter dinheiro. A minha vida é ótima. Só queria ter mais uma vida, porque uma só é pouco. Se alguém me oferecer dinheiro para eu parar de ir aos jogos do Cruzeiro, eu não aceito. Tem o Deus do céu. O da Terra é o Cruzeiro".

Enquanto Dona Salomé lamentou a eliminação do Cruzeiro em casa após as goleadas do River Plate, Dulcinéia Paulino, conhecida como Dudu Galo Doido, tirou um peso das costas. Com 68 anos e superantenada nas redes sociais, ela chama a atenção pelo perfil diferente do que é comum para as pessoas da idade dela. Dudu tem 41 tatuagens, 21 delas são relacionadas ao time alvinegro. " Quando o Cruzeiro está bem, fica ruim para dormir, porque arrumam uma gritaria", reclama.

Para saber se Dudu está feliz, é só procurar saber qual é a fase do Galo. Passeando pelo bairro Buritis, em Belo Horizonte, ela é reconhecida por muitos. Por causa das tatuagens, os carros passam por ela buzinando e pessoas gritam ‘Galô!'. "É uma alegria enorme sair de casa e ser reconhecida por conta do Atlético. Eu tiro foto com eles. Eu vivo o Atlético 24 horas por dia. Tenho mais de 15 cadernos onde recorto imagens de jornais para recordação. Eu durmo e acordo pensando no clube," relata.

A euforia de Dudu com o Galo nem sempre foi possível. Casada com um cruzeirense, o marido não a deixava sequer falar sobre o arquirrival. Dudu conta que, morando próxima ao Independência, ela ansiava por ver o ônibus do Atlético passando em direção ao estádio. O marido jogava água na festa de Dudu, proibindo-a de ficar na janela. Os anos passavam e a angústia de Dudu aumentava. Ela sabia, no entanto, que um dia se veria, de alguma forma, livre.

Um dia, a liberdade abriu asas sobre ela. Após 28 anos de casamento, Dudu ficou viúva. A paixão reprimida pelo Galo se tornou mais forte com o tempo. "Eu não senti a morte dele (do marido). Fiquei até feliz porque pude extravasar. Na semana seguinte, eu já comecei a fazer as tatuagens do Atlético. Quando vejo algo bacana relacionado ao clube, vou lá e faço. A última que fiz foi um escudo de 1908, que está ainda cicatrizando", conta.

As histórias de Dudu são contadas com muito carinho e alegria, mas ela mesma reconhece que o fanatismo atrapalha um pouco. "Eu deixei netos fanáticos como eu, mas é triste isso porque a gente sofre muito. Não é algo bom. Passo até mal quando o Atlético perde. Mas eu não consigo mudar. Vou morrer com esta paixão", acredita.

Com exceção de uma irmã - com quem ela não conversa há cinco anos por conta de uma briga sobre futebol - e um genro, toda a família de Dudu é atleticana. Quando o cruzeirense disse que iria se casar com a filha dela, a senhora protestou e reprovou o matrimônio, mas depois aceitou pelo fato de eles se gostarem e se respeitarem. Quando a filha engravidou, ela disse ao genro que o garoto seria atleticano. Ele duvidou. "Hoje o meu neto é um dos maiores atleticanos do mundo. O quarto dele é todo do Galo," conta orgulhosa.

Por causa do fanatismo, ela também já passou por alguns maus bocados. Não é preciso estar com a camisa do Atlético para saber que Dudu é Galo Doido. As tatuagens falam por ela. Certa vez, no ônibus, um cruzeirense começou a provocá-la. "Não fala do meu Galo!", exclamou. Ele continuou, e ela usou a sobrinha para agredi-lo. "Ele teve que descer no meio da Avenida Amazonas. O motorista parou o veículo", conta.

Dudu já acertou todos os detalhes com a família para quando ela partir. "Quero ir com a camisa do Galo e com a bandeira enrolada no caixão", sentenciou.


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