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O mentor

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Aos 80 anos de idade, Mauricio de Sousa revela que trabalha em projetos para expandir a marca Turma da Mônica pelo mundo (Foto: Bete Nicastro)

Milhões e milhões de brasileiros nascidos após a década de 60 tiveram a infância marcada pela turminha encabeçada por uma menina dentuça e irritadiça. Ela só se vestia de vermelho e carregava um coelho de pelúcia a tira-colo. Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão são apenas alguns dos representantes de um verdadeiro império do entretenimento infantil brasileiro. O maior deles. Aos quatro personagens somam-se diversos outros que saíram de dentro da cabeça inventiva do paulista Mauricio de Sousa.

O cartunista iniciou a carreira fazendo desenhos para veículos de comunicação da cidade natal, Mogi das Cruzes, na década de 50. Quase na virada da década, Mauricio começou a desenhar histórias em quadrinhos, depois de uma peregrinação por São Paulo e passagem pela redação da Folha da Manhã como repórter policial. Ele começou a desenhar as primeiras histórias aos 24 anos. O artista tinha o futuro bem traçado na cabeça. E tudo saiu melhor do que a encomenda. A internet surgiu e fez com que a turminha mais famosa do Brasil colocasse os pés onde não se imaginava.

Em entrevista exclusiva à Vox Objetiva, Mauricio de Sousa conta como tudo aconteceu, uma história que se reinventa a cada dia com a criação de personagens e a maturação do célebre quarteto da turminha. O artista fala também sobre a influência do Japão em seu trabalho e revela um vigor jovial ao contar os planos para os próximos anos.

Quando o senhor começou a desenhar, imaginava que um dia seria responsável por esse império do entretenimento infantil? O que o senhor vislumbrava para o futuro naquela época?

Quando iniciei minha carreira de desenhista, meu desejo era planejar bem o lançamento das historinhas, montar uma equipe e ir galgando as etapas naturais dessa atividade: histórias em quadrinhos e suplementos para jornais, revistas, depois desenhos animados, licenciamento, filmes para o cinema e parques temáticos. Só não planejei a internet porque não sou adivinho. Mas ninguém planeja o sucesso; planeja, sim, fazer um serviço bem-feito que, se o mantiver, vira sucesso.

Os gibis e mangás são materiais característicos da cultura japonesa. O Japão teve alguma influência para que o senhor escolhesse esse caminho?

Era uma ideia antiga que foi reavivada pela nossa participação nas comemorações dos cem anos de imigração japonesa em 2008. Criamos as mascotes Tikara e Keika para a Comissão de Organização das Comemorações. Unimos, então, o estilo "mangá" (Quadrinho Japonês) com nosso estilo para que atingíssemos os jovens em pré-adolescência que estavam deixando de ler Turma da Mônica clássica para a linguagem da época que é o mangá. Embora seja para um público jovem, a nova revista também criou uma curiosidade das crianças menores, resultando no maior sucesso de bancas dos últimos 30 anos. Portanto, creio que tenha dado certo, não é?

Qual foi o contato do senhor com a cultura japonesa na infância e na juventude?

Apenas com família de japoneses que morava em nossa rua Ipiranga, lá em Mogi das Cruzes. Mas comecei a me aprofundar muito mais quando viajei pela primeira vez ao Japão em 1976. Lá conheci o mestre dos mangás, Osamu Tezuka.

Depois ele veio ao Brasil e ficamos amigos. Foi uma ligação imediata entre nossas filosofias.

Em 2013, o senhor recebeu uma condecoração do governo japonês por contribuir com a propagação da cultura nipônica no Brasil. Qual o retorno que o senhor tem dos fãs da Turma da Mônica do outro lado do mundo?

Nos países em que conseguimos entrar com nossas histórias em quadrinhos, a repercussão e a aceitação por parte das crianças é igual à do Brasil. A turminha já fala mais de 20 idiomas e está em mais de 30 países, entre revistas, produtos, jornais e desenhos animados. No Japão não é diferente. Nessa última viagem que fiz por lá, em maio, acertamos a volta da publicação do Horácio e a estreia da Turma da Mônica no jornal Moranguinho da SanRio.

Os seus mais reconhecidos personagens foram inspirados nos seus filhos. Na opinião do senhor, por qual razão esse universo que lhe é tão peculiar e íntimo caiu nas graças do povo?

Acredito que essa minha inspiração em filhos, amigos e lembranças da minha infância para desenvolver personagens tenha sido uma das razões do sucesso da Turminha. De alguma forma, os leitores sabem que minhas histórias não são apenas criações, mas um espelho do que vivemos no dia a dia.

Muitos dos personagens do senhor nascem em um período político conturbado no Brasil. O senhor sofreu algum tipo de cerceamento criativo ou algo do tipo? Passava pela cabeça do senhor trabalhar questões relativas à política e ao governo da época?

Como o meu público é o infantil, eu não poderia carregar nas tintas políticas nas historinhas. Mas em algumas colocava um rei leão que não queria dar liberdade aos seus súditos; o Astronauta visitando um mundo onde cantar era proibido, e assim por diante... Era para lembrar as crianças sobre a liberdade de expressão. Mas nunca fui importunado pelos militares.

Alguns personagens do senhor homenageiam personalidades importantes do futebol brasileiro: Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho, Neymar Jr., dentre outros. O Mauricio de Sousa é um aficionado por futebol? Para qual time torce? O senhor acompanha campeonatos e o que está acontecendo dentro das quatro linhas?

Não me considero um aficionado. Mesmo porque tenho dez filhos e vários torcem por times diferentes. O meu filho que sabe tudo de futebol é o mais novo, Marcelinho. Até entrou em uma escolinha de futebol porque queria ser jogador. Ele é corinthiano, e costumo ir com ele a alguns jogos do Corinthians. Quando vou com ele, geralmente o Corinthians ganha. Por isso, ele sempre quer me levar a esses jogos. Só que sou são-paulino. Mas pai é pai, certo?

É o senhor que pensa nos roteiros das histórias? Como é desenvolvido esse trabalho de texto e a interlocução com as ilustrações?

Tenho uma equipe de profissionais para desenvolver as mais de 1,2 mil páginas de produção mensal. São roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, letristas,... E examino todos os roteiros de quadrinhos com minha filha Marina, que também inspirou a personagem de mesmo nome da turminha.

O senhor está sempre em diálogo com essa nova geração de ilustradores. Há livros lançados pela Panini que recriam, ao modo desses artistas, personagens da Turma da Mônica. Como o senhor avalia essa safra de desenhistas?

A linha de graphics novels MSP é um dos grandes presentes que ganhei. Começou com uma homenagem que um de meus editores na MSP, Sidney Gusman, resolveu publicar quando completamos 50 anos da empresa. Ele lançou uma edição com 50 desenhistas brasileiros produzindo histórias com meus personagens, mas em estilo próprio. Depois mais dois livros com outros cem desenhistas foram publicados na sequência. Aí, para continuar o sucesso, foi criada a linha de graphic novels em que alguns desses desenhistas poderiam desenvolver um livro inteiro. Assim fui sendo apresentado para essa nova geração de autores nacionais, que é sensacional: Danilo Beyruth, Vitor e Lu Cafaggi, Gustavo Duarte, dentre outros. Entreguei meus brinquedos para eles, e o resultado é algo comovente.

Como o senhor se sente ao perceber que todos esses novos desenhistas têm o senhor como referência?

Quando começamos, todos nós nos espelhamos em alguns ídolos. Para mim foi Will Eisner. Meu desenho é diferente e mais simples do que o dele, mas a forma de contar história veio muito dessa influência. Então a responsabilidade aumenta. Sempre me esforço para que meu trabalho seja uma boa influência para essas novas gerações que aprenderam a ler e a desenhar com a turminha.

No mês que vem, o senhor completa 80 anos, mas parece ter um ímpeto juvenil para o trabalho. O senhor sente o peso da idade? O que impele o senhor a desenhar, produzir e planejar trabalhos aos 80 anos?

Claro que ter 80 anos não é o mesmo que ter 20 nem 30. Mas sempre me cuidei e chego nesta idade com todo o fôlego para ter mais e mais ideias. Meu médico disse que neste momento nasceu a criança que vai viver 120 anos. Portanto, a gente não envelhece mais; a gente evolui na idade.

O que o senhor pode nos adiantar em termos de trabalhos futuros?

Vamos continuar com a produção de animações para TV porque é necessário inclusive para entrarmos mais no mercado internacional. Após o sucesso da Turma da Mônica Jovem, pretendo produzir a Turma da Mônica Adulta daqui a alguns anos. Cada personagem vai ser desenvolvido nas histórias em tempo real. Assim o leitor percebe que, a cada ano, o personagem faz aniversário e vai envelhecendo... Cada vez mais vamos desenvolver produtos para as plataformas digitais e, quem sabe?, voltamos com as animações para o cinema.


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