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Entre a cruz e a espada

por André Martins

Incidindo sobre bens e serviços básicos, a inflação e a defasagem salarial estão entre os principais desafios para os brasileiros (Ilustração: Felipe Pereira)

Ao abrir a conta de energia ou ao se arriscar nas gôndolas, o brasileiro tem passado por consecutivos testes cardíacos nos últimos meses. Contrariando o recente discurso do Planalto de que a inflação estava controlada, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ultrapassou os 9% e, segundo especialistas, deve se aproximar ainda mais da casa dos dois dígitos até o fim do ano.

Os constantes reajustes de preços têm afastado os compradores e restringido o consumo, aumentando a percepção do mau momento econômico no país. Consideradas os termômetros mais sensíveis para reajustes de preços, as donas de casa têm sentido a inflação na pele. "Com o valor que elas levavam antes para o mercado, já não compram os mesmos itens. Com isso, as donas de casa têm preferido substituir produtos ou, às vezes, nem isso", revela a presidente do Movimento das Donas de Casa/MG, Lúcia Pacífico. "A cada semana temos percebido variações. E está acontecendo em todos os supermercados", acrescenta.

A inflação galopante era o maior medo das donas de casa que viveram no final da década de 80 e no início dos anos 90. Em 1993, a inflação no Brasil atingiu 2400%. A título de ilustração e utilizando o Real como referência (moeda que passaria a circular apenas em 1994), um item que abria o ano custando R$ 10, finalizava o mesmo ano valendo R$ 250. A situação provocava um alvoroço nos supermercados com consecutivos escalonamentos de preços e impedia que as pessoas se planejassem minimamente. Por causar reflexo tão devastador, a inflação nesse período foi associada à figura de um dragão.

Embora não passe nem perto do que viveu no início da década de 90, Lúcia acredita que o contexto atual requeira atenção. "Não acho essa elevação da inflação um movimento natural. Precisamos que nossos governantes tenham poder para inibi-la. A população já está fazendo a parte dela economizando água, energia,... Então é preciso que haja uma contrapartida do governo. Não se pode deixar a inflação crescer porque, se deixar, ela vai embora,...", conta.

De acordo com o professor de Ciências Econômicas da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) Ricardo Rabelo, há vários fatores que levam ao quadro inflacionário atual do Brasil. "Um deles é a indexação de preços à inflação passada, o que leva a reajustes automáticos de preços. Há também o impacto da desvalorização da moeda, que aumenta os preços dos produtos importados no mercado brasileiro", explica.

A inflação tem sido puxada principalmente pelos itens da cesta básica e pela prestação de serviços. Isso tem feito o brasileiro perder o poder de compra. "Com isso, diminui-se cada vez mais a cesta de bens", resume o professor de Economia do Ibmec/MG Felipe Leroy. Entre os produtos industrializados, quando não dizem respeito apenas aos preços, os reajustes se dão na redução de peso ou de volume. Às vezes, as duas coisas ocorrem ao mesmo tempo.

Segundo levantamento feito pelo Movimento das Donas de Casa, energia elétrica, gás de cozinha, telefone e água são os serviços que mais têm encarecido. Hortifrutigranjeiros, laticínios e as carnes têm figurado como os vilões dos supermercados. Entre produtos e serviços pesquisados todos os meses pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cebola era, até julho, o item que apresentava maior aumento no ano, uma elevação acumulada de 155,19%. Poucos foram os produtos que tiveram redução de preço no período.

A medição da inflação pelo IBGE se dá por meio de dois índices: o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que leva em consideração os gastos de famílias com renda de um a seis salários-mínimos, e o IPCA, que leva em consideração os gastos de famílias com renda de um a 40 salários. É com base no IPCA, que nada mais é que do que a inflação, que o governo define metas de inflação e a taxa básica de juros, que em quadros inflacionários é elevada para manter o controle.

Para Rabelo, a economia brasileira vive um momento de "estagflação", a junção entre a estagnação e a inflação. Segundo ele, o melhor caminho para o controle inflacionário seria impedir os reajustes automáticos de preços pela inflação passada e tentar controlar a desvalorização do Real. O outro passo seria do mesmo modo desafiador: incentivar o crescimento econômico, que este ano deve registrar números negativos. O professor Rabelo ressalta também que a queda do crescimento pode impulsionar a inflação.

"É preciso adotar políticas que efetivamente detenham a inflação. Ela não será reduzida com o aumento da taxa básica de juros. É preciso adotar políticas amplas para manter o valor da cesta básica. Uma rede alternativa de comercialização dos produtos componentes dessa cesta é a única forma de preservar seu valor. É necessário também atacar um dos fatores da inflação que é a alta dos preços dos alimentos. Basta o governo manter e ampliar o Programa de Incentivo à Agricultura Familiar e vinculá-lo a essa rede alternativa", sugere Rabelo.

Defasagem

Calculada isoladamente em um produto ou outro, a inflação não parece tão ameaçadora. Mas à medida que os carrinhos de supermercado se avolumam e a necessidade por serviços surge, maior é a sensação de impacto causado pela inflação. Diante de reajustes consecutivos, muita gente se questiona sobre o descompasso dos aumentos nos valores de produtos e serviços com os reajustes na folha de pagamento. Os salários se mantêm na folha por meses e anos. Enquanto isso, itens e serviços sofrem aumentos ao vento de crises energéticas, baixa safra e da indesejada inflação.

Para Leroy, não ocorreram reajustes reais dos salários nos últimos anos. "A inflação acumulada está cada vez maior, sendo que os aumentos de salários acumulados não conseguiram recompor a perda ocasionada pela inflação", argumenta. Para o professor, corrigido pela inflação dos últimos dez anos, o salário-mínimo, que hoje está em R$ 788, deveria estar próximo de R$ 1,8 mil.

O professor do Ibmec entende que, para corrigir de forma adequada, os salários deveriam ser ajustados com base no Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) acumulado nos últimos dez anos e não pelo índice de inflação que, segundo ele, não está na base dos contratos vigentes na economia.

Rabelo também acredita que o mecanismo de cálculo do governo esteja defasado. Para o professor, no entanto, o IGP-M e o índice de inflação não são os melhores índices para a correção dos salários. "Deveria ser criado um índice específico, pois o IGP-M também é pouco adequado por ter vários componentes: de índice de preços ao consumidor, do atacado e da construção civil", indica.


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