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Podium

O alto preço do sucesso

por Thalvanes Guimarães

No futebol brasileiro, a regra é diretamente proporcional: as dívidas aumentam à medida que um clube atinge o ápice do desempenho dentro das quatro linhas (Ilustração: Felipe Pereira)

Deveu, pagou, certo? Isso é o que ocorre quando se assume um compromisso financeiro. No futebol, entretanto, algumas regras sociais são distorcidas em nome do fanatismo e da paixão de milhões de pessoas. No Brasil, então, gastar mais do que se ganha é praticamente uma regra. Mas uma hora a conta chega de alguma forma. Seja com os salários atrasados, com os sete gols da Alemanha, seja com o rebaixamento.

No futebol nacional, Atlético e Cruzeiro receberam muitos elogios pela gestão dos clubes no período que conquistaram títulos como a Copa do Brasil, o Campeonato Brasileiro e a Libertadores da América. Em comparação com os clubes nacionais, os dois times mineiros foram certeiros na montagem dos elencos, na escolha dos treinadores e em demais detalhes que resultam em um bom trabalho. Mas, com os triunfos, a dívida de ambos cresceu substancialmente.

No mundo do esporte, ganhar nem sempre significa ter grandes lucros. Pelo contrário. Para montar a equipe vencedora do Brasileirão de 2013 e 2014, o Cruzeiro não pagou mais de R$ 60 milhões em impostos entre 2011 e 2014. Quando conquistou os dois títulos seguidos, a dívida do time aumentou 110%.

Já o Atlético, time com uma das maiores dívidas do país, teve um crescimento nos dividendos de 32%. Se serve de consolo para os mineiros, clubes como São Paulo e Internacional pioraram as finanças, porém não conquistaram as taças. Outro time com histórico parecido com o do Cruzeiro é o Corinthians. Quando conquistou o mundial em 2012, o Timão deixou de pagar impostos.

Num momento de intensa crise financeira, a presidente Dilma Rousseff sancionou, no início de agosto, a Medida Provisória (MP) 671. O documento trata do refinanciamento das dívidas dos clubes com a União. No total, o débito gira em torno de R$ 4 bilhões. Todo esse valor é R$ 1,4 bilhão superior ao estimado para a duplicação da BR-381, antiga reivindicação dos mineiros, dado o perigo da via.

Para o parcelamento dos débitos com maior prazo, os clubes devem aderir ao Programa de Modernização do Futebol Brasileiro (Profut). E, em troca, vão adotar novas práticas de gestão, adquirindo assim maior disciplina nos gastos. Os times que não cumprirem o acordo vão pagar com o rebaixamento, o que não é pouca coisa para os mais apaixonados torcedores.

O deputado federal Otávio Leite (PSDB/RJ), relator da MP, acredita que a série de medidas se configurem como uma solução para o futebol brasileiro. "É um verdadeiro ‘tranco de ajuste' no futebol brasileiro. A equação financeira aprovada certamente não se repetirá na história. É a oportunidade única para os clubes. É pegar ou largar! Os torcedores ganham mais transparência, pois serão impostas aos clubes diversas obrigações novas por meio de práticas administrativas saudáveis e modernas", afirma.

Mesmo com a MP sendo vista pela maioria dos especialistas em gestão esportiva como uma ótima medida para o futebol nacional, o senador Romário, um dos críticos expoentes dos dirigentes do esporte, votou contra a aprovação. O ex-jogador justificou que a lei não garante que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) vá cumprir o regulamento e rebaixar clubes inadimplentes e que itens importantes foram retirados do texto do projeto. O baixinho argumentou nas redes sociais que a bancada da câmara, na CBF, dificultou que o projeto fosse aprimorado.

No entanto, Otávio Leite comemorou o fato de conseguirem alterar algo inimaginável para a CBF. "O texto é claro. Foi ampliado o colégio eleitoral para a eleição e as assembleias da CBF, mediante a participação doravante dos clubes da série B. O mandato será de, no máximo, quatro anos, permitida apenas uma reeleição, inclusive nas Federações. O mesmo ocorre com os regulamentos dos campeonatos regionais: devem prever o rebaixamento dos clubes que não estiverem em dia com as mensalidades das dívidas, o recolhimento dos tributos correntes e o pagamento de atletas e funcionários. Tudo isso está bem amarrado juridicamente, pois eu fiz isso por meio de alterações da Lei Pelé e do Estatuto do Torcedor. Cabe aos clubes exigir a fiscalização da Autoridade Pública de Governança do Futebol (APFut) e a atuação do Ministério Público, se o caso requerer. Lei é para ser cumprida", explicou.

O responsável pelo blog Olhar Crônico Esportivo, do Globoesporte, Emerson Gonçalves, também está otimista com a nova lei. Para ele, a mera existência da MP faz com que dirigentes tenham medo de cometer novas loucuras. "O futebol brasileiro está passando por uma mudança. Creio que nosso futebol venha a ser solidificado. Agora é aguardar que ninguém invente caminhos para burlar a lei. Se essa regulamentação existisse, o Corinthians não deixaria de pagar; o Cruzeiro e outros também não", observa.

Outro fator apontado pelo especialista como importante nesse processo é a situação política do país e de grandes dirigentes do mundo da bola. "Os poderosos estão com medo; estamos vivendo um momento muito propício para mudanças, de transformação de algo que é uma zona para uma coisa muito mais responsável. E isso começou a acontecer também no grande mundo do futebol. São transformações profundas que causam grande impacto", avalia.

Mas as dívidas não são exclusividade de times brasileiros. Real Madrid e Barcelona devem, juntos, um valor superior a R$ 3 bilhões de reais. Entretanto, por mais que o valor assuste, se comparadas as receitas aos valores das marcas, times brasileiros estão numa situação pior. Como dois dos clubes que mais faturam no mundo conseguem reverter os bons resultados em campo em lucro? Na temporada passada, o Real bateu recorde de faturamento com R$ 1,6 bilhão de renda. Só de lucro, o clube espanhol teve R$ 111,7 milhões na temporada 2013/14.

Com o Barça, mais recordes: nas últimas quatro temporadas o lucro acumulado foi de R$ 437 milhões, com a cotação do euro atual. Pela dimensão internacional, os clubes espanhóis certamente não servem muito como parâmetro para os clubes brasileiros, mas o resultado de ambos derruba a máxima de que é necessário dever para ir bem em campo. "Nas grandes ligas, os clubes têm gestões empresariais, profissionais. Aqui, no Brasil, são torcedores que trabalham com o time do coração. Todos eles deixam de pagar impostos, gastam além da conta e deixam isso para o sucessor", diz Emerson.

Movimento Futebol Melhor

Enquanto os dirigentes não pensavam na necessidade de profissionalização do futebol, a iniciativa privada já contribuía. Em janeiro de 2013, a Companhia de Bebidas das Américas (Ambev) liderou a criação do Movimento por um Futebol Melhor. Na época, eram 15 clubes com 158 mil sócios-torcedores. Pouco mais de dois anos depois, agora são 64 clubes participantes com mais de 1 milhão de torcedores associados. A receita, que antes era de R$ 57 milhões anuais, agora chega aos R$ 400 milhões por ano.

Os sócios dos clubes associados ao movimento têm descontos em produtos e serviços das diversas marcas participantes. Gerente de Marketing da Ambev e do Movimento por um Futebol Melhor, Rafael Pulcinelli ressalta que os clubes descobriram a importância da relação de proximidade com o torcedor. "Essa é uma fonte crescente de receita e fundamental neste momento em que o futebol passa por dificuldades financeiras. E não só os clubes ganharam, mas os sócios-torcedores que tiveram mais de R$ 60 milhões em descontos nas centenas de produtos oferecidos pelas 12 empresas que formam atualmente o Movimento", alega.


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