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Horizontes

Três anos, três meses e três dias,... na estrada

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A incrível jornada do mineiro que percorreu 54 mil quilômetros pelo mundo e conheceu 59 países em cima de uma bicicleta (Foto: Arquivo Pessoal)

Diante da televisão, assistindo às competições do Mundial de Esportes Aquáticos de Kazan, na Rússia, muita coisa passa pela cabeça de Danilo Perrotti Machado, de 34 anos. "Eu sonhava estar ali, naquelas águas, competindo, brigando por medalha", revela. Mas a história desse belo-horizontino que almejou tirar ouro das piscinas é uma típica trajetória inspiradora que revela o quão imprevisível a vida pode ser.

Na década de 80, o plano de ganhar a vida nas águas começou a ser formulado. Danilo tinha 6 anos e dava as primeiras braçadas nas piscinas do Minas Tênis Clube. A vida era calma, alternada entre ocupações escolares e os treinos no clube pelo qual se tornou profissional na adolescência. Entre a casa e o Minas, ele fazia o caminho na companhia de uma bicicleta simples.

Mesmo com bons resultados nas águas e uma série de competições a partir dos 13 anos, a trajetória nas águas não engrenou. "Tem certa hora que não depende só de vontade. É preciso talento,... uma série de coisas. Tinham outras coisas reservadas para mim", resume. E havia mesmo. Aos 19 anos, Danilo largou as piscinas e iniciou os estudos em Administração na Faculdade Milton Campos. Em 2005, já formado, a cidadania italiana de Danilo foi reconhecida e, no ano seguinte, o jovem administrador partiu para a Europa. Aprendeu italiano e inglês, ao mudar-se para Londres. Parte do dinheiro conseguido trabalhando como garçom foi reservada para comprar uma bicicleta que seria usada em viagens dentro do continente.

Aos 27 anos, em Santiago de Compostela, na Espanha, o administrador teve uma ideia ousada. "E se eu percorresse o mundo em cima de uma bicicleta?", conjecturou. Por mais louco que pudesse ser o projeto, Danilo tocou em frente. Era o início de uma jornada de resistência e com lições homéricas de resiliência capazes de impactar qualquer ser humano que acredita na força dos sonhos.

No dia 8 de agosto de 2008, o jovem partiu para a saga que tinha dia certo para terminar: 11 de novembro de 2011. Da primeira pedalada, em Londres, até a chegada a Belo Horizonte, passaram-se incríveis três anos, três meses e três dias. Danilo percorreu 59 países e todos os continentes do globo. Em síntese, o que ele levava era a bicicleta, duas mochilas compridas e poucos Euros no bolso. Ele calcula que tenha gastado, em média, apenas US$ 5 por dia.

Danilo pedalava cerca de 100 quilômetros por dia. Nos desertos, ele chegou a percorrer 180 mil metros. Engana-se quem pensa que o administrador tinha luxos ao longo do caminho. Sempre que podia, Danilo pernoitava em uma barraca de camping simples. "Eu já estava acostumado a fazer viagens de bicicleta pela Europa. A questão do preparo físico é algo que a gente vai adquirindo ao longo das viagens. O maior problema é o fator psicológico, mental. Você pedala uma quantidade de quilômetros, aí termina o dia e você não tem lugar para dormir, para tomar banho, então aí começam os desafios impostos pela mente".

Quando chegava a uma localidade, ele não tinha tempo para passeios turísticos. Os momentos eram destinados ao descanso e para colocar o site com seus registros fotográficos e as impressões escritas no site criado para essa finalidade. Danilo registrava também toda a jornada em um diário de bordo.

Antes de colocar o pé em cada local previsto no roteiro, o jovem tinha o costume de fazer pesquisas para não entrar em apuros. Ele conta que teve locais em que chegou a ser hostilizado. "Mas havia muitas coisas que só aprendi na prática, vivendo a situação. O Iêmen, por exemplo, é um país volátil. Eu o atravessei quando a situação estava boa. Agora ele está em guerra civil. Hoje o Estado Islâmico está tomando conta de várias cidades no Oriente Médio. A situação dos países vai sempre mudando. Tem coisas que você só vai descobrir estando lá".

Além das diferenças culturais, o clima, às vezes extremamente hostil, era um fator que impunha uma série de dificuldades ao cumprimento das metas. "Todo dia aparecia uma dificuldade diferente. Não tinha um dia fácil. A dificuldade era normal. O objetivo era sair dela. Quando você está em um lugar muito montanhoso, em um deserto, em um lugar frio e com chuva, é muito complicado", revela.

Há milhas e milhas de distância, Danilo se comunicava com a família por meio do Skype. Quando não havia conexão de internet nem rede de telefonia, ele usava o Spot - dispositivo de mensagens que funciona via satélite e informa o ponto em que o viajante está. O pai e principalmente a mãe ficavam aflitos ao perceber que em um dia o filho estava no meio de um deserto; no outro, atravessando o perigoso Paquistão.

No entanto, os prazeres da viagem compensavam qualquer ameaça ou restrição climática. Danilo conta que as pessoas ficavam intrigadas ao saber a que ele se propunha sobre de uma simples bicicleta. Para ele, a receptividade do povo árabe foi um dos pontos altos da viagem. "Essa coisa de abrir a casa, oferecer coisas, comida, dinheiro, de fazer festa era muito legal".

Para que a experiência não fosse prejudicada, o mineiro viajou totalmente "desarmado"; ele se esquivava de qualquer preconceito ou juízo de valor. "Como eu estava viajando com o objetivo de conhecer culturas, eu não fui com esse olhar de estranhamento. Eu fui para absorver aquelas culturas. Não fui com o olhar julgador. Não importava se o cara comia com a mão ou tinha hábitos que não correspondiam à minha cultura", explica.

Momentos marcantes, Danilo teve aos montes. Mas foi no continente asiático que ele diz ter aprendido mais. O contato com a cultura hindu, a muçulmana, o budismo foi importante para provocar uma importante introspecção. Foi lá que Danilo pôde conhecer líderes espirituais, como o Nobel da Paz Dalai Lama e o guru Sathya Sai Baba.

Percorrer 54 mil quilômetros requer força de vontade e persistência. No longo caminho, o administrador revela que pôde conhecer mais sobre si, o que pode ser um desafio maior do que percorrer milhas e milhas de bicicleta. "Eu tive contato com várias pessoas e culturas e aprendi a celebrar as diferenças. Mas a minha busca como ser humano é eterna, contínua e pessoal".

Residindo em São Paulo, casado, e pai de duas crianças pequenas - do Davi de 10 meses e da Diana, de dois anos -, Danilo diz que não faria tudo de novo, por mais que isso certamente corresponda a mais conhecimento. Ele, no entanto, parece confortável ao ser provocado a escrever outras páginas de uma história já fantástica ao lado da família. "Acho que a vida é muito curta para fazer o que já foi feito. É tipo querer subir o (monte) Aconcágua depois de ter feito o Everest. Não faz muito sentido. Mas, quem sabe?, pedalar com os filhos, no Japão, por exemplo?", deixa no ar.


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