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Negócios do morro

por Érica Fernandes

Projeto social estimula o aperfeiçoamento dos serviços de 60 empreendedores de comunidades carentes de Belo Horizonte (Foto: Felipe Pereira)

Em tempo de crise, em que a taxa de desemprego tem crescido, encontrar trabalho não é uma das tarefas mais fáceis. Para quem reside na periferia, a questão é mais complexa, uma vez que muitas empresas e a própria sociedade continuam a associar os morros à criminalidade. Alguns moradores de regiões periféricas afirmam que as entrevistas de emprego vão muito bem até o momento em que precisam apresentar o comprovante de residência. "Uma das grandes dificuldades das comunidades são os problemas de baixa autoestima e rejeição provocados pela sociedade e pelo histórico familiar", pondera a coordenadora de projetos sociais da Organização Não Governamental (ONG) "Inconformados", Mayra de Souza.

Diante desse desafio, uma das soluções é tornar os aglomerados lugares autossustentáveis e com economias locais relevantes. Para isso, a ONG firmou parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e resolveram unir forças para a criação do projeto "Empreendedorismo no Morro". "Sabemos nos relacionar na comunidade, enquanto o Sebrae entende de negócios. Com essas competências, decidimos trabalhar em rede, focados no mesmo propósito", explica Mayra, que é pós-graduada em Gestão Empresarial com Ênfase em Responsabilidade Social.

O objetivo da ação é atender 60 empreendimentos localizados em algumas das maiores comunidades de Belo Horizonte. A Pedreira Prado Lopes, o Morro das Pedras, o Taquaril/Alto Vera Cruz e o Aglomerado da Serra estão entre os contemplados. De acordo com a analista do Sebrae, Márcia Machado, outro importante objetivo do projeto é "levar aos participantes um novo pensamento a respeito do negócio cuja remodelação ocorra de forma criativa e de acordo com a necessidade do cliente", detalha.

Para tornar o ideal mencionado pela analista mais que um sonho escrito em uma folha de papel, a iniciativa oferece curso de capacitação técnica com dois meses de duração. A ideia é que, após a conclusão das aulas, consultores do Sebrae possam acompanhar os cinco empreendedores de destaque de cada região. "O projeto precisa gerar transformação e, para alcançar esse fim, é necessário tempo. Com apenas dois meses, a mentalidade não será mudada. É preciso acompanhar esses trabalhos para ver se os empreendedores têm colocado em prática o que aprenderam em sala", concorda Mayra.

Remodelando o negócio

Nascido e criado na comunidade Pedreira Prado Lopes, Sérgio de Souza, dono da oficina de amortecedores que leva o próprio nome, é um dos participantes que têm levado a sério os princípios que aprenderam durante o curso entre os meses de julho e setembro. No empreendimento dele, os clientes têm direito a cafezinho, biscoito e um lugar confortável para sentar. "Aprendi muito sobre o tratamento com o público. Antes as pessoas chegavam à minha loja e ficava em pé, esperando o carro ficar pronto", conta com a segurança de quem participou assiduamente do treinamento. A esposa do empresário, Joyce de Souza também trabalha no negócio. Ela afirma que os clientes já têm notado e elogiado as mudanças.

Mayra explica que a grade curricular do projeto foi escolhida e adaptada especialmente para a dinâmica econômica e social das comunidades. A coordenadora esclarece que as práticas culturais nos morros são bem distintas de um comércio fora daquela realidade. "Nas comunidades é muito comum o procedimento do ‘Fio do bigode', que é quando o cliente vai ao estabelecimento, e o dono anota em um caderninho a dívida para depois o comprador retornar e efetuar o pagamento", exemplifica. O Pós-Doutor em Ciências Ambientais e PhD em Gestão Armindo Teodósio aponta a informalidade e a baixa qualidade de produtos e serviços como outras particularidades do cenário econômico das comunidades.

Teodósio pondera que projetos como o "Empreendedorismo no Morro" podem dinamizar processos de geração de trabalho e renda. Para ele, essa iniciativa mantém recursos financeiros em circulação na comunidade ou atrai recursos externos.

Foi o que aconteceu com o negócio da decoradora de festas Magna Doridina. Ela ganhou três clientes após colocar em prática conceitos sobre marketing comercial abstraídos ao longo do curso. "Percebi a importância da divulgação do meu trabalho. Então decidi criar uma página no facebook mostrando os eventos que realizamos. As pessoas começaram a ver o que a gente cria e muita gente passou a nos procurar", comenta a moradora do Morro das Pedras.

Falta investimento

Ao ser questionado sobre a necessidade de mais projetos como esse em comunidades, Teodósio explica que o maior problema não é a falta de iniciativas que promovam o empreendedorismo social, mas a falta de apoio e de investimento de empresas privadas, pessoas físicas e do poder público. "É preciso mais incentivo, não só em termos de recursos financeiros, mas de compartilhamento de recursos humanos, tecnológicos, logísticos, informacionais e de conhecimento", opina.

O mecânico Sérgio é um dos exemplos de moradores que tinham interesse de participar de cursos profissionalizantes, mas até então não tinha encontrado oportunidade. Com a recente conclusão do treinamento, ele pretende reproduzir com os adolescentes da vizinhança o que aprendeu no projeto. "Meu desejo é que, no futuro, eu possa ter menores aprendizes na minha oficina. Queria atender às pessoas da comunidade para dar oportunidade a elas de crescerem na vida", projeta.

Segundo Teodósio, no Brasil há excelentes projetos sociais que têm revelado virtudes culturais e cívicas nas comunidades de periferia. Como exemplo, ele cita a Central Única de Favelas (CUF), com desenvolvimento de atividades físicas e culturais, a organização Asmare, atuante na área de reciclagem, o Cais, que promove a inclusão da pessoa com deficiência, e o Salão do Encontro em Betim, que proporciona a geração de trabalho artesanal e renda.

Existem projetos sociais de sobra, mas enquanto não chegam os recursos que poderiam ampliar o poder de pólvora dessas iniciativas, pessoas como Mayra, que abandonou o emprego para se dedicar voluntariamente a projetos sociais, vêm persistido na crença no potencial que as comunidades guardam.


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